Corredores, Codinome Locura

Casulo

De dia, escondia-se nas letras

escrevia sobre política, religião.
Costurava as vontades como casulos

ao redor do riso, do olhar

da boca, dos sonhos.

Era artesã do desejo.

À noite, ela descobria-se
Com asas plenas de sonhar

Se mostrava.

Amava ela, em metamorfoses em que as asas

davam lugar

às imaginações.

Mariana Gouveia

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações

— que nome dar para esse rio que vaza do meu peito?

– Você viu a lua nessa madrugada? além dessa que surge cheia em teus olhos? — Viu Júpiter que dormiu de conchinha com ela?

O vento veio suave na pele. Pensei em carícias e toques. Os poros soerguerem e a vida se transformar nesse pulmão de respirar… As asas não respeitam a densidade das pedras.

E as flores…? — não captam a solidão dentro da noite — aceitam os casulos que se abrem e a metamorfose acontece. Enquanto você vê seu mar nessa sombra de asa, o ar sendo presságio de coisa boa. De presença além do infinito e dos séculos e séculos — amém — e pousando em um beijo que é tua boca e voo… Pulmão. Cadê meu ar de respirar dentro dessa ausência que se impôs? E esse rio que vaza entre as folhas?

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Livros Artesanais

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Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

b.e.d.a – dos rituais dos girassóis…

Ele disse: – Você parece mel. Ela disse: – E você, um girassol.

Caio Fernando Abreu

Minha doce Rose,

Queria te falar sobre os rituais. Meu pai sempre disse que vivemos de rituais, mesmo quando achamos que não. Eu sou dos rituais… desde quando acordo até ir dormir. E em um desses rituais de amor eu plantei girassóis no meu quintal pensando em você e ele cresceu tão lindamente que resolvi te escrever para te contar.

Você já sentiu o cheiro de mel de um girassol? Fico horas cheirando as flores dos que plantei aqui. Assim como você, também tenho uma ligação especial com eles. As borboletas adoram… E talvez, nossa ligação vai muito além da poesia e você seja a menina do girassol de minha vida.

Sabe, dias desses, dentro das memórias do dia lembrei-me de você e do cheiro de sua mão… acho que foi ali que senti o cheiro de amor que você carrega na alma.

Agora, que os girassóis floriram lembro-me de você todos os dias… na hora de molhar eles, falo com eles como se estivesse falando contigo… é um ritual que sigo para assim amenizar a saudade que sinto.

E seguindo o rito das flores te abraço esperando que tudo isso passe logo e a gente possa se abraçar de novo. Assim, te espero todos os dias dentro dos rituais que meu coração segue pensando em você.
Amo tu!

Um abraço carinhoso

Mariana Gouveia
Participam dessa blogagem coletiva:
Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Obdulio Ortega – Roseli Pedroso

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

b.e.d.a – dos dias de metamorfose.

Querida flor,

As porcelanas empoeiradas na mesa de cabeceira guardam segredos que eu apenas repetia para o espelho. Depois que coloquei o pano azul para cobri-lo nunca mais ousei pensar neles.

Costurei a garganta todo dia para não cantar as canções daquele tempo em que a maresia trazia o balanço das ondas para o quintal.

Vivi todos os dias a metamorfose de me regenerar na dor. Era a asa quebrada no vento. Era o vento derramando força no pouso.

Queria a mão para que fosse leveza.

Queria leveza para que não doesse a alma – algumas dores nos fazem mais fortes – e para que apenas passasse os dias com suas rotinas. O medo é apenas passageiro… dá apenas coragem para pousar quando é necessário o voo.

Mariana Gouveia
Participam dessa blogagem coletiva:
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Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Quando fui chuva

Quando já não tinha espaço, pequena fui
Onde a vida me cabia apertada
Em um canto qualquer acomodei
Minha dança, os meu traços de chuva


Maria Gadu

Fui ao baú desenterrar poemas. Choveu a manhã toda e se estende para a tarde.
Ouvi Gadu e sua voz a ecoar a palavra que era poema dentro da melodia.
Ouço os barulhos da casa… os pingos da chuva no balde a guardar momentos e a luz chega pela janela… sou esse cotidiano que chove todo dia, e as flores bebem a água que cai.
Ainda visto o pijama da noite, e o dia segue seu rumo de hábitos, manias e defeitos… O pássaro de todo dia pede abrigo na escada enquanto lá fora a vida acontece e eu sou um nome que habita dentro da solidão. Lavo o uniforme sujo e soletro o canto da ave que pousa perto de mim. Vasculho os diários guardados e leio livros que estavam ali, parados, como a esperar para exalar histórias… passo da sala para a cozinha enquanto os trovões ecoam e parecem dizer que aqui o universo tem um portal estranho. Revisito os casulos que se preparam no pé de orquídeas silvestres. Cuido para que eles não molhem. Sou essa metamorfose que cresce e muda a cada dia. Desfolha em asas a borboleta que nasce. Está aqui e a sinto absolutamente indefesa diante dos dias. Da asa escorre o líquido da vida – é apenas um inseto… alguém diria – em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das outras coisas e ela está aqui, sendo pouso em minha mão e neste momento eu sei e sinto ao certo o que significam certas palavras como a palavra paz.  A vida segue líquida dentro do dia e prossegue nos gestos que faço apenas observando a chuva dentro da canção de Gadu.

Mariana Gouveia
Participam desse projeto
Adriana Aneli – Alê Helga – Claudia Leonardi – Darlene Regina – Lunna Guedes – Obdulio Ortega – Roseli Pedroso

Corredores, Codinome Locura

Grito

 

Minha alma é intensa…
grita ausência,
grita falta tua
grita pele nua

quer gritar emoção
quer você na mão
Nunca é por acaso a insinuação
descubro-me perdida nos pensamentos teus.
enquanto que os meus
seguem direção do teu coração

O dia inteiro te busco,
te caço, me acho
perdida em abraços

que nunca troquei
beijos que não dei

mas que compartilho
seguindo o trilho
dos caminhos que vão me levar
onde você está

entre cachoeiras, entre pantanais
numa tarde inteira visito teus quintais

visito você e pra não me perder
abro os olhos e grito que amo você
meu amor é mais.

 

Mariana Gouveia
Ph: Anouk Lacasse

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

— as porcelanas empoeiradas…

na mesa de cabeceira guardam segredos que eram repetidos apenas para o espelho. Depois que colocou o pano azul para cobri-lo nunca mais ousou pensar neles. Costurava a garganta todo dia para não cantar as canções daquele tempo em que a maresia trazia o balanço das ondas para o quintal. Vivia todos os dias a metamorfose de se regenerar… na dor. Era a asa quebrada, no vento forte. Precisava da mão para sobreviver. Queria leveza para que não doesse a alma — algumas dores nos fazem mais fortes — para que apenas passasse os dias com suas rotinas.

O medo — ainda bem — é passageiro… dá coragem para pousar, quando é necessário o voo.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais
Scenarium Livros Artesanais

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Afetos

O escafandro e a borboleta

Ainda lutava. Secretamente, porque ao redor ninguém acreditava. Por oito anos em coma ouviu passos espaçaram, choros se tornarem raros.

Naquele torpor, ela entrava. Pontualmente. Apoiava a caneca de café coado na mesinha ao lado da sua cabeça e ia bebericando, enquanto procedia a minuciosa limpeza do corpo inerte. E por isso ele ainda lutava. Secretamente.

Adriana Aneli
Amor Expresso
Scenarium Livros Artesanais
Ph: Elisa Lazo de Valdez

Corredores, Codinome Locura

teus olhos/meus olhos

 

encantados
luz multiplicada
nos olhares-candelabros
e nos lábios
o sopro úmido
e o silêncio ruidoso
do que sentimos
e na pele o sentido pleno do toque e do prazer.

 

Mariana Gouveia
*imagem: Laurie Kaplowitz

 

Corredores, Codinome Locura

Alada

 

carregava sonhos
desses alados
que voava nas asas
que ria por tudo
que dançava sem música
e que cantava sem voz.

Lembrava-se das palavras dela
e do pedido terno para ir de scarpin vermelho
e quando os tirou percebeu que de seu rastro
voavam borboletas
as mesmas que faziam festa no seu coração.

Mariana Gouveia
*imagem: Moony Wolf.