quando o mundo já era triste vi um ninho vazio no meu peito, e no seu já havia filhotes. Ouvi dor que nem era minha, como se fosse um dardo na pena vaga na asa do pássaro.
Se eu te disser que agora a árvore ficou vazia de cantos, nem o vento move suas densas folhas. E eu estava lá, parada de ninho vazio em uma mão
e o fio do seu cabelo na outra. Às vezes, podamos coisas invisíveis
Quando me mudei para o meu lugar não havia a rua de cima. Ela era apenas um amontoado de lixos onde alguns dos moradores de outras ruas jogavam seu lixos – coisas típicas dos humanos que não cuidam do lugar onde habitam. Ela era ao fim de uma viela.
O primeiro a mudar para a então viela, logo depois do aterro foi o moço da reciclagem e seu cachorro Pirata e vocês já devem saber o porque do nome. Ele tinha uma mancha preta que contornava o olho esquerdo. Da minha casa dava de ouvir os gritos logo de manhã: venha, Pirata! – e logo dava de ouvir o ranger da carrocinha percorrendo o início da rua em busca de coisas para reciclar e os grunhidos de Pirata implicando com os cachorros da vizinhança. E lá ia Pirata e o moço da reciclagem cumprir a missão de “limpar” a área.
Foi ele quem plantou o pé de ipê, logo após o portãozinho de madeira. Depois, plantou flores do campo que atraíam as borboletas. Foi ele quem me deu algumas sementes também. Nessa rotina de sair ainda de madrugada e chegar pela noite em casa eu só via os vultos de esqueletos de casas se formando número após número na rua de cima. Um dia, desses dias comuns meu olho alcançou os cachos rosas do ipê, a casa laranja do vô, o jardim de Eva e o salão das meninas que coloriam as unhas e os cabelos.
Foi um respiro para a alma. Sentei-me debaixo do ipê e ali, comecei minha história com a rua de cima… com as crianças que brincam com as mesmas brincadeiras de minha infância, com o moço da reciclagem – algumas pessoas mudam o lugar onde vive… sempre falo isso para ele – e com o pé de ipê rosa que volta e meia floresce para além do tempo certo que determinamos.
A rua de cima se tornou meu refúgio e é para lá que vou quando as coisas me sufocam. Conheço as pessoas de lá mais do que as da minha rua. As calçadas conhecem minha insônia e o pé de ipê, minhas confidências.
Houve um tempo que era de medo. Bastava o céu fechar as cortinas e o escuro invadir o meu quintal que esse sentimento anestesiante reinava absoluto no meu corpo, por causa da dor. Eu tirava os chinelos e pisava no chão, para que a terra me fizesse firme ao caos que se estabelecia em mim. A dor é um bicho estranho e noturno. Mesmo quando eu estava entre os corredores, amparada por agulhas e fios… o medo surgia, como um fantasma. A dor era feito a noite sem lua-estrela… E não havia como não associá-la ao que a dor fazia comigo… Um vácuo, tipo guerra em que a explosão é apenas o medo de doer. E doía tanto. Havia noites em que doía tudo.
Mas, eu já fui amante da noite. Quando caminhei pelas ruas escuras. Não me lembro de me sentir tão segura quanto naquele tempo. O moço que cuidava do cemitério me levava pelas mãos, nas madrugadas mornas e era o meu guia. Passo a passo do meu lado… Voz de amparo e de cuidado. De um lado, o rádio onde eu expunha meus sonhos e do outro, o cemitério. Eu era a amante da noite que era o lugar das sombras do muro que me acolhiam sob os olhos atentos do moço que cuidava do repouso… a última morada de muitos.
Mesmo lembrando que antes da dor, o que me acalentava a alma era a rua estreita, que me levava mata adentro e no descampado, onde eu via as estrelas, a via láctea e suas constelações. Foi ali que a noite se tornou minha amiga. Eu era a menina que deitava no tapete debaixo das estrelas e sabia de cor todas as constelações. Conhecia os atalhos e era guiada pelos vagalumes.
Devo te confessar que meu ritual ao te escrever possui a magia simples de entrega – tão eu/você aqui – em frente a janela repetindo nos gestos ao longo dos dias: isso de ser mulher é angustiante. É estranho imaginar como seria se você vivesse nesse tempo. Teriam teus poemas a mesma forma de atingir quem te lê? A mulher que luta pelo que acredita, agora. Você conseguiria ao longo desse tempo tecer um diálogo comigo sobre os tabus da época em que você viveu? Lembro – me de minha adolescência e da força que minha mãe possuía com seu livro na mão.
Ela era como você… CONFESSIONAL! Estava ali, de pé, as mãos sobre as cortinas esvoaçantes e os olhos dentro do livro, a brisa a tocar a alma e ela tão real, diante da vida e tão certa das dores de quem não queria ser apenas uma dona de casa, mas libertária.
Vi seu olho escorregadio nas fotografias antigas e respiro essa ansiedade vinda de você e atravesso sua poesia com a alma nas mãos.
Como não confundir esse medo real que bate a porta com a sensibilidade quase habitual na palavra morte? Como falar sobre sexo, amor, medo e solidão? Já viajei contigo nesses caminhos tortos e quando percebi, estava só e seus poemas ecoando em mim:
Tudo em mim é um pássaro. Adejo com todas as minhas asas. Queriam extirpar-te mas não o farão.
Diziam que estavas incomensuravelmente vazio mas não estás. Diziam que estavas doente prestes a morrer mas estavam errados.
Cantas como uma colegial Tu não estás desfeito.
Um sino que toca me faz lembrar que hoje tem missa e que mais uma vez perdi a hora e não pude atender a senhorinha da esquina que pedia um poema quase reza em homenagem a santa do mês. A fé se perdeu nas pessoas que se foram. Sou eu, essa falta de tato dentro da solidão.
Sou esse pulso vazio sem veias na impressão do que acontece no dia seguinte no diário oficial. O rito é esse compasso de espera, de vagar nas lembranças de um tempo que passou enquanto olho-e-te-vejo-olho-e-me-vejo. Sou eu ali, nas entranhas das frases escritas por você e onde me perco na vaga promessa de uma oração de fé no que não acredito. Hoje, o livro dorme em silêncio enquanto abro os braços e chamo seu nome… vem?
Amanheci lendo Ariel… caminhei pela cozinha e descalça fui até o quintal com a xícara de café me acompanhando… Devia ter pensado em um vinho para te brindar… mas para isso, uso o orvalho que cai das folhas da clitória — flor que absorve bem a umidade da noite – e molho o dedo no líquido que escorre da flor. Lembrei-me de que a primeira versão de Ariel foi publicado no ano em que nasci. E por isso me vesti do poema – que abuso, o meu – e me despi logo depois. Eu me vi erótica e te vi gritante, pulsante, violenta e mansa. É contraditório, eu sei… mas é que você é essa explosão de sentimentos transbordantes dentro de um poema só e que ultrapassa sua obra inteira.
Busquei o êxtase no azul do céu aqui e fiquei a imaginar a cena que você descreve. Repeti infinitas vezes o penhasco, o sulco, o arco, o pescoço e suspirei. Foi tão intenso que pensei em como você conseguiu cruzar esse meio fio e não se encontrar. O eco das palavras ressoava no interno de mim. Sabe o que é isso? Ah, sim! Você sabe muito bem.
Sabe, fiquei presa dentro das palavras e reverenciei as várias deusas em uma só com seu nome. Pensei que estava delirando quando rodopiei no quintal e atravessei meus olhos além dos muros por que me senti sendo espiada. Chamei seu nome e confesso que quase ouvi uma resposta… claro que é apenas meu lado lúdico bebendo suas palavras. Isso porque o café nem é o vinho.
Fiquei pensando em como você é tão atual e de como suas palavras foi esse grito de prazer e dor. Não sei o que te falaria se estivesse frente a frente com você. Acho que o mundo era pouco para sua dimensão e entendo que nem as palavras conseguiram tornar mais leves os seus momentos. Se me pedissem para te traduzir em uma palavra, eu diria: I n t e n s a… tão tridimensional que Godiva se encaixa entre o sagrado da vida e o pecado da morte: d e u s a e deusas não morrem. São deusas.
Mas ainda assim deusas são ousadas e frágeis… e a escritora foi puro desaforo diante da vida e também a flecha e o alvo. Mas, para mim, você será sempre algo mais do que uma mulher que escreveu… você é a leoa que deixou suas palavras para que ecoassem com elas as dores, o sofrimento e os amores para que o mundo conhecesse você.
Mais do que a escritora, a mãe, a doente, a morta, a viva, a deusa você é a poesia e o poema. Ousada e submissa. Contraditória e subversiva e inspiração para muitas que como eu quer que a liberdade seja sempre sinônimo de mulher.
no topo da lista dos desejos – isso, anos atrás como querência de amor tranquilo – e fiz e refiz em oração a palavra amor.
Nas simpatias, nos dias dos santos, o nome surgia em forma de código e na casca da laranja, retirada inteira, sem quebrar, a letra do seu nome gerava riso entre os irmãos.
O tempo junto com o universo tratou de ouvir meus pedidos e a sorte, hoje, mora comigo e cuida de mim.
Na canção que canta para mim, fala do amor infinito. Na oração diária, a esperança de cura. No cuidado do jardim, a simbologia da primavera que me oferece em gestos.
O amor é isso e mora comigo nas noites de insônia, na mão estendida, no ombro de amparo e até no silêncio, quando as poesias me habitam.
Ter você por todos esses anos é acreditar que muito mais que o amor de homem e mulher, a amizade e cumplicidade nos faz mais fortes, mais unidos.
só hoje soube de sua partida há tantos meses atrás e como prometido te escrevo. Gil canta no repeat. Reli as nossas mensagens até chegar em seu silêncio. Como alguém vai embora assim sem tempo de despedida? Depois, suspirei e agradeci por ter tido a honra de ter você em minha vida, mesmo que por trás dessa tela.
Ficou para trás a promessa do encontro, do abraço, dos poemas que eu leria e dos que faríamos juntas – quem sabe, um dia, para além dos mistérios que a gente desconhece isso não aconteça – ficou em mim o carinho que sempre me dedicou e da diva maravilhosa que se transformou aos meus olhos.
Eu te dava relatos diários do Chiquinho e você falava de música e agente falava de filhos. De gatos, de animais, de flor, de luta de Brasil e do mundo. Você me levava Espanha afora… madrecita, arriba e cariño…
Eu te achava revolucionária e você era fã do Che e de tantos outros que eu reverenciava também – e dos risos… – e a gente ria através de letras… era tantos kkkkkk e tantos hihihihi, hahahaha e tantos uias… e um dia de repente a gente se declarou… um eu te amo se confrontou com o eu também e o tu me faz bem e o Carmencita virou sinônimo do meu carinho.
Te contei sobre meu milagre de cura e você falou do milagre do universo que liga pessoas de lugares distantes como se fizessem parte da família. E assim, a gente foi tantas em mensagens únicas que nunca apagarei. Serão como mantras em dias difíceis.
Você é minha diva onde quer que esteja, em qualquer lugar do universo ou apenas em meu coração. Você será meu sorriso quando uma lembrança me trouxer você e quando um pássaro atravessar o céu seu sopro chegará até mim como se fosse abraço.
Embora começasse outra estação, e como os livros diziam que começavam o equinócio do outono, para nós ainda era a estação das águas, porque a chuva persistia nos dias e a água tomava conta de todo lugar.
As gotas pareciam brincar com a natureza e a enchente sempre acontecia nas margens onde o rio beijava as matas.
Sabíamos que a natureza cumpria seu papel de estiochuvaestio…
Às vezes, chovia a noite toda e o barulho das gotas a cair no telhado era um convite para o sonho… Em outros dias, a chuva durava dias inteiros e ficávamos presos dentro de casa…
O cheiro do chá a invadir os aposentos… os irmãos a inventar brincadeiras e o céu a derramar bênçãos dentro da presença da estação.
Outono só nos brindaria em instantes nos meses seguintes e só aí, o vento nos beijariam em sopros com a amenidade do tempo
Minha mãe era uma alquimista – embora ela talvez nem soubesse o que significava a palavra – e fazia mágica em tudo que tocava. Não fazia chover, como ela mesma dizia… mas fazia a delicadeza brotar em encantos bordados pelas mãos dela… dedos finos a tocar a linha como se fizesse carícia com o tecido.
Os bordados feitos com a delicadeza que ela sabia tão bem começava antes com o plantar do algodão e esperar seis longos meses para a colheita e só depois disso começava o preparo da linha. A fiadeira a dar o ponto e a espessura do fio.
Quando ela sentava no banquinho ao lado da roca, isso, depois de colhermos um a um os capuchos, colocados para secar até a hora de fiar, enquanto colhíamos as folhas-madeiras-galhos-cascas de diversas árvores que ela sabia tão bem qual cor seria a linha a ser tingida e ela ganhava – aos meus olhos – ares de bruxa ou fada. O cabelo de coque feito, o suor a escorrer no rosto como se tocasse a face de uma rainha – e ela era a nossa rainha – e o olho a medir a quantia certa de água e folhas ou raízes. Era um ritual que ela seguia – e a gente também – passo a passo… a folha da amoreira produzia um verde mais claro e a casca da cebola fazia com que a linha ficasse sépia e com isso o tecido ficava quase creme – ou beirando a isso – durante o processo químico. O caldeirão no fogo a ferver e o tempo certo do tingimento… a troca das folhas e o mergulhar do pano na água quente dava à ela o poder da cor e eu ficava encantada vendo o processo.
Depois da linha tingida, secada e tecida era a hora de bordar e criar delicadezas com as mãos. Os riscos desenhados por ela e o trabalho pronto me dava a sensação de mágica e assim, eu aprendia a arte do artesanato. O enxoval das minhas irmãs eram criados por ela e os das meninas de toda a região. Era a poesia desenhada em monogramas – que ela adorava fazer – onde o tecido era o papel enquanto a chuva caía.
O dia ganha visão de outro planeta. O horóscopo avisa que Marte continua em meu signo – ainda – e eu respondo que Marte vive dentro de mim. A saudade invade quando visito o lugar dela. Cada canto tem a presença forte ali. Viva. Intensa e vibrante. Olhos me espreitam na sonoridade do dia. Os cheiros das frutas, o canto das aves e a garoa fina que cai. Isso é de outro planeta – ouço o inquilino da casa dizer – esse quintal tem vida própria. Os mais diferentes bichos vem aqui. Me distraio nas palavras perdidas como se um eco a trouxesse nos olhos do Louva-Deus que assanhadamente me segue. A flor que adormece ao gesto simples do toque. É estranho, mas ela permanece ali, em cada canto, em cada folha, em cada planta que nasce e renasce. A canção do rádio da vizinha do lado ecoa a melodia que ela gostava e Maria Gadu diz:
” Será que te conheço desde a infância Será que na infância eu parti Prum mundo imaginado por você Ou por você um mundo veio E a infância assim se foi”
Aqui, no mundo dela sou apenas saudade. E me recordo da voz que repetia: Marte é logo ali. Ponha uma vírgula no teto, dá três pulinhos e Marte acontece. Hoje, Marte acontece onde meu olhar alcança vida.