Sylvia,
Amanheci lendo Ariel… caminhei pela cozinha e descalça fui até o quintal com a xícara de café me acompanhando… Devia ter pensado em um vinho para te brindar… mas para isso, uso o orvalho que cai das folhas da clitória — flor que absorve bem a umidade da noite – e molho o dedo no líquido que escorre da flor. Lembrei-me de que a primeira versão de Ariel foi publicado no ano em que nasci. E por isso me vesti do poema – que abuso, o meu – e me despi logo depois. Eu me vi erótica e te vi gritante, pulsante, violenta e mansa. É contraditório, eu sei… mas é que você é essa explosão de sentimentos transbordantes dentro de um poema só e que ultrapassa sua obra inteira.
Busquei o êxtase no azul do céu aqui e fiquei a imaginar a cena que você descreve. Repeti infinitas vezes o penhasco, o sulco, o arco, o pescoço e suspirei. Foi tão intenso que pensei em como você conseguiu cruzar esse meio fio e não se encontrar. O eco das palavras ressoava no interno de mim. Sabe o que é isso? Ah, sim! Você sabe muito bem.
Sabe, fiquei presa dentro das palavras e reverenciei as várias deusas em uma só com seu nome. Pensei que estava delirando quando rodopiei no quintal e atravessei meus olhos além dos muros por que me senti sendo espiada. Chamei seu nome e confesso que quase ouvi uma resposta… claro que é apenas meu lado lúdico bebendo suas palavras. Isso porque o café nem é o vinho.
Fiquei pensando em como você é tão atual e de como suas palavras foi esse grito de prazer e dor. Não sei o que te falaria se estivesse frente a frente com você. Acho que o mundo era pouco para sua dimensão e entendo que nem as palavras conseguiram tornar mais leves os seus momentos. Se me pedissem para te traduzir em uma palavra, eu diria: I n t e n s a… tão tridimensional que Godiva se encaixa entre o sagrado da vida e o pecado da morte: d e u s a e deusas não morrem. São deusas.
Mas ainda assim deusas são ousadas e frágeis… e a escritora foi puro desaforo diante da vida e também a flecha e o alvo. Mas, para mim, você será sempre algo mais do que uma mulher que escreveu… você é a leoa que deixou suas palavras para que ecoassem com elas as dores, o sofrimento e os amores para que o mundo conhecesse você.
Mais do que a escritora, a mãe, a doente, a morta, a viva, a deusa você é a poesia e o poema. Ousada e submissa. Contraditória e subversiva e inspiração para muitas que como eu quer que a liberdade seja sempre sinônimo de mulher.
Grata tanto!
Mariana Gouveia
Carta publicada no Projeto coletivo La Barca
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Participam comigo
Lunna Guedes – Suzana Martins – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega

Você sabe que eu adorei essa missiva…
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eu sei ❤
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Intensidade a toda prova!
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sempre ❤
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❤️
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❤
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❤️🌺
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só pra você saber, quando li sua carta pela primeira vez escorreu uma nota salgada por aqui. Hoje também!! ❤
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Você é meu amor de sempre ❤
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