era a rua que eu queria morar
Quando me mudei para o meu lugar não havia a rua de cima. Ela era apenas um amontoado de lixos onde alguns dos moradores de outras ruas jogavam seu lixos – coisas típicas dos humanos que não cuidam do lugar onde habitam. Ela era ao fim de uma viela.
O primeiro a mudar para a então viela, logo depois do aterro foi o moço da reciclagem e seu cachorro Pirata e vocês já devem saber o porque do nome. Ele tinha uma mancha preta que contornava o olho esquerdo. Da minha casa dava de ouvir os gritos logo de manhã: venha, Pirata! – e logo dava de ouvir o ranger da carrocinha percorrendo o início da rua em busca de coisas para reciclar e os grunhidos de Pirata implicando com os cachorros da vizinhança. E lá ia Pirata e o moço da reciclagem cumprir a missão de “limpar” a área.
Foi ele quem plantou o pé de ipê, logo após o portãozinho de madeira. Depois, plantou flores do campo que atraíam as borboletas. Foi ele quem me deu algumas sementes também. Nessa rotina de sair ainda de madrugada e chegar pela noite em casa eu só via os vultos de esqueletos de casas se formando número após número na rua de cima. Um dia, desses dias comuns meu olho alcançou os cachos rosas do ipê, a casa laranja do vô, o jardim de Eva e o salão das meninas que coloriam as unhas e os cabelos.
Foi um respiro para a alma. Sentei-me debaixo do ipê e ali, comecei minha história com a rua de cima… com as crianças que brincam com as mesmas brincadeiras de minha infância, com o moço da reciclagem – algumas pessoas mudam o lugar onde vive… sempre falo isso para ele – e com o pé de ipê rosa que volta e meia floresce para além do tempo certo que determinamos.
A rua de cima se tornou meu refúgio e é para lá que vou quando as coisas me sufocam. Conheço as pessoas de lá mais do que as da minha rua. As calçadas conhecem minha insônia e o pé de ipê, minhas confidências.
Mariana Gouveia
É abril e é mês de b.e.d.a – blog every day april
Participam comigo:
Lunna Guedes – Suzana Martins – Roseli Pedroso – Obdúlio Nunes Ortega

❤️
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❤
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O seu texto me fez lembrar que frequentei durante a adolescência a rua onde morava o meu melhor amigo, tão deslocado quanto eu, mas que tínhamos o traço poético de ver a vida e o futebol sempre presente como conexão. Linda rememoração, Mariana!
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Fico feliz por esse momento aqui. Sorri.
Grata!
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Ah, fiquei com vontade de caminhar contigo e sentar sob aquele frondoso ipê para imaginar histórias!! ❤
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vou guardar essa lembrança para quando estiver debaixo dele e gritar seu nome. ❤
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Deu vontade de ler e eu li… em voz alta, mas só um trechinho. rs
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Deu vontade de colocar em uma moldura quando ouvi.
❤ ❤ Grazie!
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Que gratificante ter “uma rua de cima” como refúgio.
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Você também pode ter uma ❤
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