infinitamente

Alquimista

Minha mãe era uma alquimista – embora ela talvez nem soubesse o que significava a palavra – e fazia mágica em tudo que tocava. Não fazia chover, como ela mesma dizia… mas fazia a delicadeza brotar em encantos bordados pelas mãos dela… dedos finos a tocar a linha como se fizesse carícia com o tecido.

Os bordados feitos com a delicadeza que ela sabia tão bem começava antes com o plantar do algodão e esperar seis longos meses para a colheita e só depois disso começava o preparo da linha. A fiadeira a dar o ponto e a espessura do fio.

Quando ela sentava no banquinho ao lado da roca, isso, depois de colhermos um a um os capuchos, colocados para secar até a hora de fiar, enquanto colhíamos as folhas-madeiras-galhos-cascas de diversas árvores que ela sabia tão bem qual cor seria a linha a ser tingida e ela ganhava – aos meus olhos – ares de bruxa ou fada. O cabelo de coque feito, o suor a escorrer no rosto como se tocasse a face de uma rainha – e ela era a nossa rainha – e o olho a medir a quantia certa de água e folhas ou raízes. Era um ritual que ela seguia – e a gente também – passo a passo… a folha da amoreira produzia um verde mais claro e a casca da cebola fazia com que a linha ficasse sépia e com isso o tecido ficava quase creme – ou beirando a isso – durante o processo químico. O caldeirão no fogo a ferver e o tempo certo do tingimento… a troca das folhas e o mergulhar do pano na água quente dava à ela o poder da cor e eu ficava encantada vendo o processo.

Depois da linha tingida, secada e tecida era a hora de bordar e criar delicadezas com as mãos. Os riscos desenhados por ela e o trabalho pronto me dava a sensação de mágica e assim, eu aprendia a arte do artesanato. O enxoval das minhas irmãs eram criados por ela e os das meninas de toda a região. Era a poesia desenhada em monogramas – que ela adorava fazer – onde o tecido era o papel enquanto a chuva caía.

Mariana Gouveia

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