infinitamente · Scenarium Livros Artesanais

Você é minha melhor história

Era manhã quando você nasceu. O dia estava bonito quando as dores chegaram. Só depois de alguns anos entendi a sua pressa ao nascer. Você é desses meninos/homens/pessoas apressados para viver. Chegou antes – mas quem disse que era antes? – segundo a previsão dos médicos e sob o signo de leão me fez mãe. São 35 anos com sua voz me chamando assim. O meu olho de amor te abraça mesmo com tanta distância de lugar. O meu olho de poesia te faz minha melhor obra e o meu olho de mulher se orgulha do homem que criei. Dizer que te amo é repetir mantras feito aqueles que acalma a alma. Minha alma se acalma quando você sorri.

Mariana Gouveia
Agenda Scenarium Livros Artesanais 2023

Corredores, Codinome Locura

com asas e tudo

A noite veste-se de vento que traz o cheiro de café da vizinha. Na rua de cima há homens que contam histórias sobre o futebol e a gente ri dos causos contados enquanto espio a ave de todo dia em seu voo sem pressa.

As mensagens chegam na rotina do dia, falam da transição, do sonho e uma vagarosa luz na janela e o tesouro que meus olhos veem traz a leveza feito um aeroplano…

Com asas e tudo.

Mariana Gouveia
No bico do beija-flor beija a flor

Corredores, Codinome Locura

O extraordinário

Para além dos dias comuns eu quero o extraordinário nas manhãs movidas a sol.
Quero o canto dos pássaros e barulho de asas contra o vento.
Quero a realidade de asas no céu do meu lugar e pouso dentro do quadrante do meu quintal.
Para além do tempo o comum se torna em extraordinário aqui.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

De noite o silêncio estica os lírios. 

Jean,

hoje eu pensei muito em você… tentei contar os anos e deixei pra lá… lembra quando a gente desdenhava do calendário na soma dos dias? Lembrei-me disso hoje. Lembrei-me de você e a mochila de sapinho, da maneira como você mexia e jogava o cabelo para trás… lembrei-me de você se espantando com minha tatuagem e de como isso nos aproximou… lembrei-me de você hoje….

Recebi um poema logo cedo e nas primeiras linhas pensei nos lírios que plantei e coloquei seu nome… sempre dei importância para eles, mas hoje, incrivelmente, sem sinal algum de botão pela manhã, eles estavam abertos a noite, ainda com a garoa desse tempo doido de julho.

Quando lembro de você, em consequência, vem sua mãe e seus irmãos… e eu evito algumas perguntas para evitar a dor. Mas, em silêncio, faço milhares para você – está em algum lugar bonito? Os lírios se esticam a noite em silêncio? Há silêncio aí? Tem noite? – e sei que tudo é um mistério indefinido diante das coisas que vivemos. a vida é esse pedaço tão pequeno de tempo, que às vezes, nem o calendário define. E nem o dicionário explica saudade…

Hoje, mais uma vez, meu coração te dedica amor para além da vida. Ouvi Charlie Brown Jr, ouvi Bob Marley e de alguma forma te toquei…

Agora, vou molhar as plantas e os lírios que como o poema diz? de noite o silêncio estica os lírios. Será que você sente daí?

Te amo sempre,
um beijo,

de sua tia Lurdes

Corredores, Codinome Locura

Que céu você povoa?

O pai contou histórias do tempo que a curva do rio teve de ser modificada para proteger as nascentes. A sabedoria das coisas estava em recuar quando fosse preciso e a brisa matinal era a lição mais lógica para isso. A ave espreitando a vida e o mundo sendo sufoco diante do grito. O filho sendo a imensidão da angústia. A ave sendo ameaça para o novo. A revolução na voz de quem já não pode cantar. Essa era a hora que eu queria ser menos, igual ao poema da minha escritora favorita. Tem como devolver perfume dentro das palavras? Ou voar junto com o pássaro que fica à cata de comida? Quando o riacho se abre e a flor do pântano morre, o lago vira morada dos sonhos ocultos. Era como o arrozal não semear o cheiro da colheita pela floresta inteira. Há dias tão vazios de vida que eu pergunto: onde você nasce quando morre? Ou que céu você povoa quando ele fica nublado? Que sol amanheceu em seu dia?

Mariana gouveia

Corredores, Codinome Locura

Sobre salvar pássaros e outros seres que voam

Contou o verbo do dia. Perdeu – se. E ainda era o avesso da dor. E era ninho e abraço.
Dá para prender voo dentro de gaiola? O infinito é logo ali…
E de romãs tingiram as cortinas. Do sonho que revolve o mundo, tem as flores respingadas de asas. A vida é escondida em aves. E o ninho cabe a solidão a dois.

A voz a ecoar canções que de novo só se repetirá quando o gravador sentir saudades de um tempo de amor. Quando fechei a carta e o envelope travou nas palavras que diziam que era amor.

Eu escrevia sem deixar de prestar atenção às nuvens. Há casas que são feitas para os chocolates feitos em noites frias – quentes – e a delicadeza era um lugar bordado no bastidor. Para mim, a vida é essa oração. De dois quando tudo se resume em presença e vontade,

Éramos viajantes em um céu que abriga peregrinos em seu espaço aéreo.
O meu amor humano tem instinto de céu e de asas.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Quem disse que é preciso estar junto para estar perto?

Júnior,

de repente, é 16 de julho de novo e mais uma vez estou aqui te escrevendo. Quando olhei o calendário lembrei-me de você, de seus irmãos e de sua mãe… havia uma rotina que ela seguia nessas datas especiais… ela esperava meia noite… era quando o “especial” acontecia. E eu sempre fazia parte do especial. Mesmo com sono, sabia que ela ligaria e dizia: é aniversário do Júnior!

Nessa hora, estivesse onde estivesse ela falava com você, para logo depois me recontar pela milésima vez como foi o trabalho do parto, o jeito “só seu” de quando nasceu. Eu poderia escrever um livro só desse momento. Da sua ida à escola, do seu amor pelos irmãos e do jeito marrento ‘chic” que é único seu. Com todas as sílabas reforçadas por ela. O Júnior é diferente! Ele brilha!

Acho que dos filhos dela, você foi o que mais convivi pessoalmente. Embora Marcelo seja o principal motivo de ligações entre nós, eu e você estávamos juntos em alguns sábados, na mesa do almoço, no sofá da sala, na conversa sobre fotos e depois, sobre Duda. Eu era parte de sua família mesmo não fazendo parte dela, porque sabia de tudo que se passava ali, dentro do coração e no olho de sua mãe.

Sabia suas paixões, seus sonhos e vontades. Rezava junto com ela para que algum anjo no universo inteiro te guiasse sempre no caminho do bem e continuo rezando…

Esse universo é tão amplo… as estradas tão intensas/imensas e cheias de obstáculos. Mas, a gente sabe do seu potencial e do quanto você se dedica e do quanto de kms você percorre para ultrapassá-los. Você também sabe quantas pessoas te esperam e torcem por você em cada curva. Quem disse que é preciso estar junto para estar perto? Você está sempre dentro dos corações dos que te amam. Tão perto! Todos os dias, além de aniversários e vida afora.

Eu aprendi a ser coadjuvante nessa torcida e vou estar sempre aqui, torcendo para que em seu caminho as imagens sejam motivos para a chegada. Que em cada momento que você olhar para o lado e se encantar com o que vê, seus pensamentos te levem para os que te esperam… e que em cada abraço, a natureza que te protege seja guia nos caminhos em que trihar.

Feliz aniversário!
Abraço carinhoso ❤
Mariana Gouveia


Das palavras das cartas · Revista Plural · Scenarium Livros Artesanais

Eu, Mário, os homens e uma desvariada carta

Querido Mário…

Eu estive em sua São Paulo e desde quando estava no avião, em pleno céu, me encantei com a imensidão da cidade, cantarolei Caetano e lembrei-me de todas as canções que exaltam a cidade que você tanto amou.

buongiorno ouvi da minha bambina e claro que a reconheci entre tantas mil, ainda no aeroporto. A boina, o riso e o abraço acolhedor de boas-vindas. Foi ela quem fez o mapa e me guiou pelas ruas e calçadas… indicando o melhor caminho.

Da janela do carro fui exclamando o tamanho das formas e fiquei surpresa ao perceber como fui engolida pela tua cidade. Reconheci prédios — vistos na TV. E quando, de pé, no chão olhei para cima… me senti pequena.

Vi as vaidades dos homens… e os invisíveis que em sua época, talvez, fossem outros. Em alguns momentos, não senti poesia… porque doeu ver os desiguais tão iguais.

Eu vi os diferentes e meu olho vibrou na diversidade das pessoas nas ruas. Fiquei dias pensando na personagem andrógina, branquinha — até os cabelos — a caminhar em minha direção como se tivesse flutuando.

Ali, eu vi a poesia da tua Paulicéia desvairada.

A segui com o olhar como se estivesse em um cortejo até desaparecer entre a multidão apressada. Passei pelo cortejo dos homens de paletós que não me surpreendia, mas os desiguais e a “cidade” feitas nas calçadas com suas lonas pretas — tão sem endereço, são sem lugar, espaço numa cidade tão imensa. Como é possível? Tão desvairada!

Não sei se te contei que estive na biblioteca que tem o seu nome? De repente, eu era a menina da infância que sonhava em publicar livros. E, lá estava eu, com um livro meu, em mãos… na Biblioteca Mário de Andrade.

E não era sonho!

Era realidade… e observei tudo, da enorme estátua ao centro, as pessoas rodeando as mesas e falando comigo. As vozes ecoavam no ar. Parecia sonho, Mário. Mas, ali, eu fazia parte do cortejo dos que escreviam, mesmo que no fim da fila. Queria que soubesse que não vi os homens de São Paulo como macacos. Vi asas em alguns e dei pela falta delas em outros… Medo, desilusão, desesperança, e vi amor. Mas vi sede de fé nas pessoas e acolhimentos em tantos… Apenas dentro dos meus olhos tão ricos de ver, vi apenas os homens.

Mariana Gouveia 
Carta publicada na Revista Plural Desvairada
Scenarium Livros Artesanais

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

as estações se misturam meio dia e meia)

Ph: Pinterest

– O azulejo da cozinha, a cantoneira, a mesa posta para o café. A porcelana esquecida no canto e a noite e seus vazios… e… e… Esqueço-me de que a estação das flores é a primavera e nos dias de quase inverno e outono seco (as estações se misturam meio dia e meia) e o vento invade os aposentos da casa quando o sol doura tudo que é canto.

Meia noite e meia e a luz ainda detalha o canto das cortinas. É preciso coragem para retirar os panos que tapam os porta-retratos. Pessoas conhecidas dentro de mim mesma e

aquele postal do seu lugar. Um estranho postal no meio da parede a murmurar seu nome durante a noite inteira acompanhando o tic tic do relógio e o ponto turístico daquela cidade em que sonhamos conhecer e andar pelas esquinas de mãos dadas enquanto você pronuncia o idioma repetindo os versos da canção. A mão espalhada acolhia o ser que voa e na escuridão a asa perde o poder de direção. As aves, intactas, desabitadas em seu modo de voar. Conversa com os pássaros entalhados, para ensinar que voar não tem segredo, mas ainda assim, perdeu a autonomia dos voos enquanto o pouco céu for a estante como morada.

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar Quintais
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Outro dia, era a certeza de tudo, hoje, apenas o vazio da solidão aérea das vontades.

– Pensou nas roupas do varal — o lençol branco, de linho, bordado com o monograma dela — quase um voo — era a invenção para ter asas… As mãos a ganhar acaso de bicho e o imaginário a criar sombras entre o chão e o céu. A pele a equilibrar a rotina do medo. As falhas entre as folhas criam desenhos sob a luz da lua. Ela — tão etérea — visitante invasora da vida. A renda a desenhar as asas. Os olhos aumentados em uma lembrança que não vi. O abismo tão imenso diante da miniatura no varal. E já não era mais o lençol da memória. Era esse abuso de cremar o ouro do sol. O voo noturno e o pouso a caber dentro do sonho. A luz, quase vasculhando cada canto do quarto.
Outro dia, era a certeza de tudo, hoje, apenas o vazio da solidão aérea das vontades.

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar quintais
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais