Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

De noite o silêncio estica os lírios. 

Jean,

hoje eu pensei muito em você… tentei contar os anos e deixei pra lá… lembra quando a gente desdenhava do calendário na soma dos dias? Lembrei-me disso hoje. Lembrei-me de você e a mochila de sapinho, da maneira como você mexia e jogava o cabelo para trás… lembrei-me de você se espantando com minha tatuagem e de como isso nos aproximou… lembrei-me de você hoje….

Recebi um poema logo cedo e nas primeiras linhas pensei nos lírios que plantei e coloquei seu nome… sempre dei importância para eles, mas hoje, incrivelmente, sem sinal algum de botão pela manhã, eles estavam abertos a noite, ainda com a garoa desse tempo doido de julho.

Quando lembro de você, em consequência, vem sua mãe e seus irmãos… e eu evito algumas perguntas para evitar a dor. Mas, em silêncio, faço milhares para você – está em algum lugar bonito? Os lírios se esticam a noite em silêncio? Há silêncio aí? Tem noite? – e sei que tudo é um mistério indefinido diante das coisas que vivemos. a vida é esse pedaço tão pequeno de tempo, que às vezes, nem o calendário define. E nem o dicionário explica saudade…

Hoje, mais uma vez, meu coração te dedica amor para além da vida. Ouvi Charlie Brown Jr, ouvi Bob Marley e de alguma forma te toquei…

Agora, vou molhar as plantas e os lírios que como o poema diz? de noite o silêncio estica os lírios. Será que você sente daí?

Te amo sempre,
um beijo,

de sua tia Lurdes

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