Projeto Diário das quatro estações

A minha vida é um punhado de começos suspensos

Ph: Laurie Kaplowitz

[Há uma mulher que caminha sobre a areia da praia e voa com as aves marinhas entre risos] que desenha em minha pele histórias nunca vividas e que sonha atravessar o oceano a nado. É feita de vento e alada. Ocupa os espaços todos. Quebra as regras. É essa roupa feita de matizes e quase um fado dentro da melodia da canção. No avesso, é essa explosão de sentimentos. O riso entalhado na arte que a seduz. Dentro de mim, acontece. Detalhada no poema que fabrico – as mãos a tocar as asas aladas do amor – feito metamorfose do efeito leveza que as borboletas fazem. [Há uma mulher que sonha horizontes, que sonha cidades] quisesse saber dela bastava abrir os braços e tocar o vento. A pele, puro arrepio e em meu silêncio é pura fala. Quisesse conhecer a emoção, bastava pronunciar o nome e as matas e jardins aconteceriam no instante de agora. Quisesse saber de pouso e estenderia minhas mãos nas mãos das tuas asas e assim, nasceria de novo e de novo dentro do mais belo amor.

Mariana Gouveia

Das rotinas

Vasculhava as lembranças de um dia aleatório

Ph: Kiss Andrea

Porque de repente, lembrou que era julho no calendário dos amantes e viu as cartas presas em um laço. Pensou em quem não mandou notícias e nem lembrou do aniversário passado.
Ouviu a canção na língua estrangeira e já era segunda-feira. Viu o cão na rua de cima. Esvaziou as gavetas e gaiolas. deixou todo sentimento livre voar.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Não se prende quem tem asas

Podia surgir dentro da noite a estação das flores e as sementes colhidas no jardim. E em todos os jardins, o cravo chinês da infância, quando pela primeira vez e por causa do cravo, foi parar na delegacia. Havia arrancado a flor no jardim do moço que se chamava Abdo e a mãe passava roupas para a família dona da loja de brinquedos. O moço a falar em uma língua que não entendia – sabia apenas que estava bravo – e que queria a flor de volta. Como colocar uma flor de volta do pé onde foi arrancado? A flor seria para mostrar para a mãe que no Inverno as flores podiam brotar e fazer ela compreender que em uma estação o gesto entre duas mãos era mais oferta do que encontro. Era como se fosse urgente colher a flor, logo ali, e a mão a estender como uma prece. Falou com voz tímida sobre como a mãe iria gostar de ver a flor a brotar no quintal dela, onde borboletas voavam como se ali, a flor fosse parte do inseto e o inseto, parte da flor. Depois, as mãos, justapostas, em oração, para que a mãe não aparecesse em frente ao delegado e perdesse de vez o emprego na casa do moço que falava estranho. Alguma coisa aconteceu e a flor ficou ali, na mesa da delegacia, enquanto o moço de linguagem estranha se embrenhou noite adentro pela rua. Olho perdido no jardim. E no dia seguinte, haverá borboletas sobre a flor a mostrar a delicadeza do pouso, mesmo quando a vontade será de voar.

Mariana Gouveia

Desvios para atravessar os quintais · infinitamente · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Das casas habitadas de lembranças

Na casa do pai, a renda desenhada no pé de canela. O cheiro lembrando os chás das manhãs de invernos.

O quintal traçado dentro do pequeno pomar e suas frutas servindo de comida aos pássaros.

As histórias ecoando em cada canto. Os móveis empilhados em um quarto. As fotografias antigas dentro da mala e seus álbuns retratando épocas de nós.

A árvore do balanço fora cortada para a limpeza do lugar.

Cômodos vazios de nós, mas com todas as histórias e lembranças dentro delas.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Livros Artesanais

Das rotinas

Havia um vento para os lados do sul

Quando o vento mudou a rota já era tudo solidão por essas bandas. E também não havia rumores de nuvens e o silêncio que se seguiu rua afora gritava em cada esquina.

As artérias competiam dentro do peito no sentido amplo de caber mais amor e eu só repetia a canção.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lua de Papel · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Via Lunar

Em casa de menino de rua o último a dormir apaga a lua!
Giovani Baffô

Bambina mia,

revendo minha caixa de cartas percebi que faz tempo que não te escrevo e como no momento o papel não me cabe nessa noite de lua cheia, aproveito para fazer do satélite natural motivo dessa missiva digital chegar até você. Desde segunda, eu fico presa ao céu, durante a noite e em algumas madrugadas. Às vezes, tenho por companhia meu pássaro de todo dia…

Às vezes, é só ela mesmo, majestosa com suas crateras enigmáticas – confesso que vejo um menino de coroa – e de diversas interpretações. Confesso que nuca vi o dragão, mesmo usando toda minha imaginação. Você sabia, bambina que há mais de 150 luas no sistema Solar? Eu fiquei boba de saber que só Netuno possui 13! E Saturno, tão exibido tem 48 e ainda os anéis… eu fico olhando meu céu noturno, cheio de estrelas e todas essas luas além do espaço que vemos.

Você já sabe que sou adoradora de lua e ela sempre me encanta em suas diversas fases e como se estivesse esperando uma foto minha se apresenta tal qual o meme: tira foto, mãe! Tira foto! Essa, já estava amanhecendo quando as pombas se apresentaram para a foto pedida.

E como ando tal qual a poesia, ando irresponsável nas manhãs, o instante se repetiu, bambina… a menina que leva a sonoridade de seu nome – ou o seu o dela – se abre feito guarda-chuva para ver o avião passar. quase vira frase de cartilha de criança.

A gente já falou muito sobre ela. Lembra-se? Já falamos na canção da Ivete, no poema da Clarice, no Lua de Papel – meu livro – ou seria seu? preferido… e quando falamos dela sempre me vem à cabeça a canção Luna tu e cantarolo baixinho pensando em você e no seu idioma natural.

Seis fotografias são poucas para eu falar com você sobre a lua, bambina… é uma via lunar o meu quintal. Ela vem mansamente no quadrante direito, rompe o muro por trás do pé de ipê e se põe majestosa… em algumas outras noites, ela surge disfarçando Marte e sua importância em minha vida como se fosse um piercing. Quase vejo uma piscadela para mim. Em outras fases, eu a vejo metade, em forma de riso, em meia forma e tão nova que parece menina ainda.
Encerro minha missiva lunar para você, para que chegue até você alguns instantes meus, de lua, porque sou assim. Rá! Amo tu imenso!
Bacio!

Mariana Gouveia
6 on 6 – Projeto Fotográfico
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo: Lunna GuedesObdúlio Nunes

Corredores, Codinome Locura

O vento havia parado tudo com o seu silêncio

Enquanto as mãos viram asas me contam histórias de amor.
Alguém perdeu o equilíbrio na vida. Vi a fé dentro da mesquita e o sino da igreja badalar.

Talvez o dia impossível dentro da possibilidade da flor. Só tive a ideia… a vaga ideia de que o vento havia parado tudo com seu silêncio na folha e que o diagnóstico era quase inaudível.

A dor era confundida com a espera. Sinto dentro da ternura e o cheiro de gengibre lembra o chá da tarde o que arde – e a secura do quintal pede acolhida de água na terra.

O pássaro engole o céu e sua fome de voo combina com a minha de paz. Essa inquietude que grita e me abraça toda noite enquanto a madrugada avança junto com a chuva de meteoros e que não consigo registrar.

Era quase um registro de sonho onde seu nome é dissolvido na boca feito nuvem.

Mariana Gouveia

Scenarium Livros Artesanais

3×4

A caixa dos poemas e das cartas parece sufocada de lembranças. O retrato 3×4 que você enviou, um lenço perfumado anunciando o cítrico que tanto gostava, e o envelope azul que nunca abri…
Eram nas manhãs que aconteciam os nossos encontros e eu te levava comigo feito tatuagem para onde quer que eu fosse. Eu ainda vivo da nostalgia de momentos que ficaram registrados em fotografias pequenas, onde o teu sorriso ainda se espalha e provoca arrepios em minha pele gasta. Tenho ciúmes das viagens que não fizemos juntas e das vezes em que você chamou outro alguém pelo nome sem lembrar-se do meu.
Folheei o nosso álbum de fotografias e só para não te esquecer de vez, deixei apenas a foto 3×4 que estampa os teus documentos.

Mariana gouveia
Projeto Coletivo Mosaicum
Scenarium Livros Artesanais

infinitamente · Scenarium Livros Artesanais

tanta gente, Mariana!

Como eu escreveria sobre a outra – aquela que me habita na solidão dos dias.
A fumaça envolta naquela menina que ri e conta histórias que ninguém conhecia.
Como pode o ritmo ser medido pelo movimento que roda a saia e o vento pelas folhas que ele derruba? Quantas tem o pertencimento sobre o que você sente? A que dança? A que que chora? A que segue as regras e lê os manuais? Aquela que se esconde dentro do espelho? A que nunca se maquiou ou a que anda nua nas madrugadas insones pela casa em uma noite de calor infernal… Quantas mulheres te habitam, hein? Que voz sai de sua boca quando grita nos rituais da lua? Quantos humanos estão dentro de você? Cada vez que fala traz em você os seus irmãos – e os pais e avós – nas suas lembranças? Ah, você, tão dona de si e tão frágil… tão forte e complexa… tão fraca, às vezes. Talvez, se olhando na água que balança na bacia no quintal apenas responda: tanta gente, Mariana!

Mariana Gouveia
Agenda 2023 – Scenarium Livros Artesanais

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Das dezenas de histórias sem fim

comecei dezenas de histórias
e não terminei nenhuma,
não sei para onde vão as minhas personagens
porque começam a falar
e logo se calam.
no papel sucede-me o mesmo que fora dele:
a minha vida é um punhado de começos
suspens
os
Miriam Reyes

Ph: Pinterest

Ana,

tive que formatar meu notbook e com isso, perdi alguns arquivos que não consegui salvar, mesmo o técnico tentando inúmeras vezes. Com isso, perdi alguns áudios onde a gente falava bobagens e que me alegravam em dias difíceis.

Por várias vezes, nossas conversas foram motivos de força quando algo errado acontecia. Daí, de repente, entre esses anos todos, que se transformaram em séculos eu vi que a história chegou ao final… sem fim… como algumas séries que amo e ficam com a ‘suposição’ de segunda temporada e sabe, Ana? A segunda temporada piora a história que às vezes acho que poderia ter ficado apenas a suposição.

Penso que foi assim com a gente. Um fiasco… os momentos, as ausências e de repente você não faz parte mais da vida da pessoa. Tudo se transforma em lugar comum.

De repente, fica as lembranças dependuradas na janela, na cerca como se fizessem partes dos momentos, mas ficaram ali expostas e tudo bem. Sabe, Ana, o tempo é esse inimigo íntimo da gente – ou seria a distância? ou seria o sentimento? – e quando percebi, você se transformou na memória de carinho que me faz rir quando lembro, mas que o afago está ou ficou inacansável.

Não houve adeus, não houve fim – e mesmo assim, entendemos que houve um final – como os doramas que eu amo e fico imaginando as segundas temporadas e prefiro que não aconteçam.

Eu entendo que podemos esquecer o 11, o 13, o 23 e até o 1º… mas, não podemos esquecer as respostas e como elas não vieram e sejam por quais motivos, subentendi que nem valiam a pena responder.

E fica suspenso um final como se nem precisasse chegar ao final para se saber que é o fim. E nem precisamos dizer adeus para entendermos que o fim não tem explicação.
Beijo meu,

Mariana Gouveia