Corredores, Codinome Locura

Eu existo…

Eu existo dentro das memórias que guardei. Ainda consigo vislumbrar com o instante como se fosse hoje. O vento ainda era brisa no quintal e ela aconteceu.

Os dias voaram no calendário para além do tempo. Não consigo dizer se parte das minhas memórias sejam lembranças de fato, ou se no relance da vontade eu a criei no interior de minha mente.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Das cartas que recebi

Parece o mar mas é o céu.
A rotina, Mariana, tem feito me esquivar da beleza, interromper soluços que fantasio para pensar em mapas e conceitos e mais mapas, tem também me feito entrar devagarinho nos lugares como quem evita fazer golos de impedimento.
Tenho estado (Tiago gosta quanto falo assim), logo, tenho estado abstrata, azulada e voadora como os personagens de Chagall. Hoje precisava trabalhar tanto e a poesia a me fazer muito mal, porque me força buscar metáforas para dizer o que se resolveria de chofre, o que me faz um bicho prolixo e esquisito.
Ontem pintei a lápis de cor. Precisava voltar ao hábito de colorir (colorir é como varrer, percebes, Mariana? Se não, me pergunte de onde tirei essa ideia).
Houve uma época em que pintei minúsculas marinhas, é tão fácil pintar marinhas, mas o azul me incomoda um pouco, porque sinto um frio quando uso azul tanto na pele, quanto no ver e tocar.
Já contei que, quando pequena, não suportava ter unhas? Achava que elas atrapalhavam e apertava contra as palmas para não sentir, aí que as sentia mais… São tão bobas as crianças pequenas que morro de ternura por elas.
Ainda hoje acho que poderia bem viver sem unhas. O azul, a poesia e as unhas me atrapalham, mas são coisas que existem e não posso fazer nada contra a existência delas.

Luciane Recieri

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Das cartas direto da aldeia

Luci, o caminho até a aldeia tem seus encantos. Às vezes, são miudezas que o olho nem enxerga… Nesses casos, como diz o pajé, é preciso olhar com o olho do coração. Acho até que já te contei sobre isso.
Mas o que eu queria mesmo te contar, Luci, é que eu voltei a viver esses instantes junto deles e com eles.
Às vezes, a aldeia é muito longe, e de alguma forma, eles a trazem para perto de mim. Seja nas ações, no que faço no dia a dia e nas conversas sobre a vida deles.
Eu ainda me lembro do pajé que se foi, Luci… Acho até que ele virou flor pela estradinha agora aonde ele colhia ervas para curar os doentes.
É lá, de vez em quando que eu o abraço quando toco as pétalas das flores.

Beijo meu e a gente vai se falando.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Queria um gesto que tivesse a cor…

Queria um gesto que tivesse a cor


da tua presença em minha vida

de delicadeza preferida
e imitasse meu sonho;

em vez de posso
poderia até dizer que é só nosso
o lugar seguro onde te vejo
e delicadamente em molhados beijos

os versos mais audaciosos eu componho

espio o prazer, e me desnudo inteira,
e docemente eterna prisioneira
de tanto amor e de tanto desejo
abro a cortina, uma lua tímida

vejo fantasias em voares soltos
e eu com pensamentos loucos…
morro de saudades, mais ainda!

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

É para ti

É pra ti


Quando o dia alaranja no meu quintal e o pássaro canta a melodia da vida,
é para ti que falo.
Quando as nuvens douram no céu e o sol abre sua cortina majestosa,
é para ti que falo.
Quando falo do riso da criança e do cachorro que faz arte na varanda,
é para ti que falo.

Quando falo de amor e de poesia, e te canto uma doce melodia,
é em ti que derramo.
Quando eu fico em silêncio diante da vida, e ao falar teu nome me acalmo,
é de ti apenas que falo e amo.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

antes que a noite me envelheça o olhar…

Ph: Pinterest

escrevo mil mensagens só com seu nome e tatuo na pele – a sangue-frio – o coração que você descreveu em palavras. Abro todas as gaiolas para que as saudades acumuladas voem e grito como a louca da rua.

Gasto a revolta da não chegada, da não notícia, do não chamado em passos ao redor do quintal. Era ainda ontem no calendário quando a palavra do poeta me tocou em meu olhar gasto da espera.

Antes que a vergonha do afeto que te emprestei me domine eu rasgo as palavras todas, as cartas, os bilhetes, as mensagens. Rasgo em mil pedacinhos seus toques em mim… faço ranhuras no espaça da agenda onde tem seu nome… nessa hora, eu começo a te esquecer.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Não haverá em ti…

Não haverá em ti

situação que eu não conheça.
nem fases em que eu não me veja.
e em cada estação me submeto ao teu amor.
O meu olhar te descobre mesmo quando esconde e se refugia nos teus pensamentos.
É quando eu mais te descubro.
Não haverá em ti lugar em que eu não habite.
Trilho pelas tuas pegadas e é em teu interior minha morada.
Não haverá lugar em ti que eu não me encante e pelas tuas ruas cantarei meu amor.

Mariana Gouveia

Das rotinas · Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

dos rituais da noite

Laurie Kaplowitz

Conhecia os barulhos da noite e seus silêncios também. Ouvia os pássaros noturnos como presságios de insônia. A noite tão curta dentro das horas. As horas tão longas dentro da noite. Sabia das rotinas do relógio… o tic tac inconstante fora dos minutos. O ocaso dourando o céu como se pintura fosse. A arte expressa no que os meus olhos veem… Conhecia os gestos, o barulho da TV em algum lugar perto. Conhecia o caminho das horas até o amanhecer.

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar Quintais
Diário da Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais

Das rotinas · Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Acontecia dentro das memórias o rito dos dias de espera

Ph: Łucja Stefaniuk

Havia o costume de vasculhar as gavetas, jogar os papéis velhos fora. Refazia nas memórias os dias… Aqueles retratos antigos ganhavam atenção nas lembranças recentes. O anel — por medo de perdê-lo — embrulhado no papel de borboleta, na caixinha que veio, cabe no dedo dentro das vontades… Jogava tudo que era velho fora, para depois recolher um a um os acontecimentos. Deixava por último a reza dá sorte. Encontrava no quintal a sorte lida nas cartas… As anotações do horóscopo e a conjunção estelar. Depois disso, respirava e ia viver a vida.

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar Quintais
Diário das Quatro estações
Scenarium Livros Aretsanais

Corredores, Codinome Locura

A ave da sabedoria desenhou a rota em seu voo.

Quando ia imaginou o caminho da volta. A ave da sabedoria desenhou a rota em seu voo. Virou o corpo para ver o mundo de pernas para o ar. Viu pirueta no riso das crianças. O cão que gosta da rua escala o muro em sua fuga. Tudo é rota enquanto explicou o sentido da asa. Contei histórias de princesas para quem já é uma – três já são – e as outras cabiam dentro do abraço.

A chaleira apita quando a água aquece e o cheiro do chá invade os quintais.

Às vezes, aqui, a terra se contorce debaixo dos pés; dizem que há um epicentro uns tantos de mil metros abaixo… e eu fico a pensar que a terra também sinta tremura e se a ave voará assim que sentir o tremor. Invento outra história enquanto a xícara pousa em um pires – elas, as meninas não se impressionam – fazem parte do conto de fadas ou não sabiam? Digo que a Branca de Neve nasceu Maria e que o brigadeiro tem a cor doce da Manu…

E a princesinha tem uma pulginha no riso da Bianca. Crio o vento para falar outra vez de asas. Penso de novo no que faz tremer o chão e se a terra também agita, vale a pena ensaiar o destino de voos e preparar o corpo e a mente para prevenir os ritmos sísmicos das histórias.
As meninas voam dançando.

Mariana Gouveia