O tempo muda por aqui e se eu te contasse quantas vezes a moça do tempo erra em sua previsão você ia dizer que é brincadeira. Está certo, que de vez em quando ela diz: pode chover a qualquer momento – e isso dito dessa forma me dá várias possibilidades. Mas, o fato é que, o tempo muda e um vento frio surge para os lados do Sul e eu te escrevo nesse fim de tarde, quase noite para te dizer que nada mudou. O medo ainda bate na porta, o meu pássaro de todo dia ainda vem para pousar na mão e os girassóis que plantei, devem dar flores em alguns dias.
O céu está estrelado e eu li no poema de uma moça que adoro que: ” numa noite cheia de galáxias distantes, amarraram na sua porteira – sempre entreaberta – uns óculos estranhos, bem mais escuros que o breu dos seus cabelos. Ela sabe que ninguém pode fugir do que está tão perto, do que é sem nome”.
E eu não tenho nome para esse tempo de agora. Porque, às vezes, a vida mistura morte e vida, tristeza e encanto e cabe-nos gerir tudo dentro de nós… nem sempre a gente consegue, assim como a moça do tempo não consegue dizer com certeza sobre a mudança do tempo. Em caso de dúvida, leve um guarda-chuva.
Contei a história para menina de agora. O bordado desenhou uma noite de estrelas. O céu tinha uma nuvem laranja. Alguém falou do fogo a invadir o cerrado. A meteorologia não teve previsão de chuvas… falou de meteoros. Um avião quase atravessou a lua. O céu, em infinitas vezes faz seu show de imagens… uma ave, o voo e a nuvem formando desenhos que me lembram a infância… A mulher de coragem enfrentou a dor. Inventou risos entre palavras e escolheu o substantivo feminino: força quando bebeu água com os comprimidos. Esperou a noite cair mansamente. Tem noite que parece criada dentro de um livro de história. Mas não é para qualquer um… apenas para quem é guerreira e tatua na pele o desejo de despertar.
Mariana Gouveia Desvios para atravessar os quintais Scenarium Livros Artesanais
Vi as ranhuras na pele e o vento a debruçar nas janelas vizinhas fazendo as cortinas dançarem. Era o tempo das intenções tolas quando percebi seu sumiço. Você era tão presença que mesmo na distância eu não sentia falta, porque no íntimo de mim vivia pleno.
Foi numa manhã de luto que busquei tua mão e não te senti. Ainda gritei seu nome pelo quintal. Havia apenas a leveza dos insetos sendo consolo em uma tarde que se perdia no tempo, fugindo da previsão que a moça na TV anunciava no jornal do meio dia.
E quando não te achei mais, ali, onde te guardava feito joia, decidi deixar você ir. Era melhor mantê-lo vivo na memória com as alegrias disfarçadas dentro do amor.
E com a vida embaçada de sol recuso o pedido, mesmo porque nada mudou para além das histórias e tudo continua igual ao que o destino preparou.
Era um sol de agosto desenfeiando tudo e dando um ar de era possível (ainda). Luciane Recieri
Luci,
hoje lembrei-me de você. Já era para ter te escrito antes, mas os dias se perderam uns dentro dos outros e quando dei por mim, já era agosto. Queria ter te contado sobre minha ida ao lugar do meu pai – ou seria meu? – e dizer que tudo parece tão igual, Luci… Parece que ele ainda está no salão de tijolos expostos, sentado em sua cadeira de rodas a esperar o sol se por.
Daquele canto, Luci, bem rente à porta, o sol se escondendo fica visível, por que o muro é baixo e o beiral, um pouco maior do que os outros muros da rua. Fiquei horas ali, Luci, compondo memórias para dias iguais. Lembrei-me do seu pai também… tinha um estuque verde na parede da casa vizinha à de minha irmã, que não teve como não me lembrar de que foi assim que começou nosso diálogo.
Sabe, Luci, em muitos momentos dessa viagem lembrei-me de você. Teve tantos momentos que apontei para você, como se estivesse ali, comigo. Um deles foi quando descobri um tatu e ele se transformou em um amigo… Você precisava ver a cena dele dando uns pulinhos quando eu tocava ele no casco.
Acho que essa viagem, Luci, serviu para a saudade explodir na pele. O lugar do meu pai, a casa do meu irmão e o sítio onde os vagalumes bailam a noite toda e dá para vê-los mesmo em noite de lua cheia. Acho que senti ali, a mesma solidão sua de criança… e isso, nos liga mesmo tão longe fisicamente.
Agosto chega ardente, Luci! E logo já será setembro… mas ainda é o primeiro dia desse agosto que já arde tanto. Acho que era isso que eu queria te falar.
Hoje, só por hoje pode sentar ao meu lado, até que eu leia todos os livros sobre a mesa.
Bambina mia,
fiquei me perguntando se eu rompia o ritual de te escrever nesse dia ou se corria o risco de ser repetitiva, mesmo mudando as fotografias. Mas ainda assim, como sou dos ritos, vou seguir meu cuore. Só pelo prazer de te escrever. Dessa vez, vamos falar sobre os livros na mesa ou da mesa que recebe os livros, quase como camas, para que fiquem ali, à espera de serem lidos. Antes a mesa acolhia livros alheios… Hoje, acolhem os meus. Se eu retroceder alguns anos atrás, isso era apenas um sonho.
O tema desse julho insano me lembrou a minha primeira professora de inglês e da minha dificuldade com a língua falada mundo afora. Ela era bem jovem na época e tentava fazer com que os alunos se familiarizassem com o one, two, tree, four… o mais engraçado é que ela me encontrou nas redes sociais e se encantou com o Borda-se… Ela lembrou-se de que eu já usava a agulha e as letras, lá nos anos idos da minha infância-juventude. Prometi levar um livro para ela e o farei assim que possível.
Mas, sabe, bambina, que atrevi-me a usara uma foto sua – sorry – porque amo demais essa fotografia, essa mesa e claro, esses livros. rs… Tenho lembranças doces desse móvel e me emociono ao lembrar-me. Sinto saudades dos momentos que passamos ao redor dela e de te ver costurando um a um os livros pedidos. Lembro-me até a canção que tocava no dia…
De vez em quando, esparramo os livros sobre a mesa da varanda, juntamente com suas cartas… Releio uma a uma tentando encontrar a primeira, que perdi dentro de algum livro não encontrado ainda. Sei que está por aqui, entre um verso de algum poema ou de uma poesia. Faço isso, às vezes, para usar depois a frase que me marcou e guardo ali, para futura resposta. Um dia, encontro…
Nessa carta, bambina, não podia deixar de colocar sobre minha mesa as primeiras versões de Lua de Papel I, II e III. As capas já desbotaram em uma parte, porque ao levá-los daqui para ali tomamos pingos de chuva, em uma outrora que choveu. Já sinto saudades da chuva e sei que você também. As nuvens vem, mas mudam seu rumo para além do muro.
Acho que assim como temos em comum tantas coisas, a mesa de madeira também nos ligam em memórias e lembranças… é sempre sentada à beira dela que com um livro em mão ouço seu convite para mais um café… e nunca recuso e em muitas vezes, seu chamado já chega com minha xícara fumegando na mesa enquanto folheio um dos livros costurado. Hoje, sou eu que te convido para mais uma xícara… aceitas?
Quarava os lençóis bordados no sereno, geralmente, em noite de lua cheia com o cheiro de dicuada no ar. A mãe que fazia o sabão, em seu tacho de ferro e moldava as bolas para o dia seguinte… As ervas a ferver para a tintura dos lençóis de cambraia e que a mãe queria mudar de cor. Os olhos, com ondas de mar vendo a correnteza a passar, levando a lua em cada maré. O céu, ponto de apoio para a menina que desejava voar.
Mariana Gouveia Coletivo Sete Luas Scenarium Livros Artesanais
Extasiada pelos seus clics, fui colher poesia em voo triplo e encantado: farfalha, beija-flor, flor do algodão. Colheitas que prenunciam o inverno, as festas juninas, os aniversários nossos.
Gostaria de dar contas dos dias, um semestre se foi, mas você, sabiamente, alerta: é inútil procurar o calendário. O que que tenho para hoje? Julho.
1º de julho
Mulher alada de Cuiabá, parabéns!
Seu calor imenso chega até nós pela fofura e brancura do algodão no campo e no céu. É um conjunto poético que abraça nossos sentidos e festejam as linhas soltas que colhi nos cadeados abertos. Carícias que a palavra provoca. O dia que amanhece nas pétalas da flor de algodão anuncia a maciez da alma.
Flor de algodão no quintal de casa flagrada por mim
Durante o dia ainda é possível captar a presença da lua minguante. Uma fatia ainda é visível antes do ciclo lunar virar e a lua nova invisível reinar, marcando a lunação em Câncer. O sul sopra clima instável. Sofre com as influências lunáticas assim como nós. Netuno retrógrado vem aí. Cadê coragem? Sob o portal de introspecção, recolhimento e proteção, criaturas como você me alentam. Energia que brota e fortalece laços afetivos, criando ambientes acolhedores. Sou grata pela sua companhia divina e inspiradora.
Chorei ao ler a carta ao seu pai. Sou menina que vim da roça, lembranças vivas da brancura árdua. E as saudades presentes daqueles que amamos. Em 3 de junho último minha mãe fez 80 anos, o primeiro aniversário dela em outro plano, faz oito meses em que a linha é direta com o universo nem preciso mais de dia especial, você registrou tão bem!
E a Terra se alimenta dessas vibrações porque em terra fértil em se plantando dá. O fruto espalha a vontade das sementes. O trevo floresce junto com os hibiscos. Agradeço às mentes brilhantes que me cercam: sementes que brotam ao sol, cravei no meu livro ensolarado Mulheres que voam. Um vínculo que a Scenarium Livros Artesanais nos proporciona ao espalhar nossos sonhos.
Assim fico-estou-sou encantada pela sua magia que nos move, obrigada! Você avermelha o mundo porque é parteira de nascimento. De pegar na mão e chorar pelo dom da vida de quem nasce. Seja gente, seja bicho, seja planta. Tudo que nasce me toca. Comovente isso. A pele com fios e letras soltas… já sinto que a prosa vai render para outra carta.
Abraço de três voltas pelo aniversário!!!
Rozana Gastaldi Cominal
Algodão celestial que nos protege apesar dos ventos indesejados. Imagem de Mariana Gouveia
P.S. Repito que também sou abençoada porque meu quintal aqui em Hortolândia, interior de São Paulo, vibra com o seu. Continue voando e espalhando liberdade, Mariana querida.
Anoto em uma carta as frases que diria: as sombras na parede espantam a solidão enquanto o sol aquece os corredores vazios. O jardim envernizado com flores de plástico esconde a parede oca para o futuro do nada. Descobri casas abandonadas na minha rua… cada uma grita um nome quando a noite cai. Hoje é dia de vermelhecer em algum canto do mundo. Os intervalos entre o vento e o muro é o calor. Alguém canta na redondeza. Contam histórias de horóscopos e tarôs. Vejo as constelações todas num céu sem nuvem… o rumor da pele desenhando tatuagens. Misturo os assuntos e rasgo a carta. As frases ficam soltas em uma estrada diferente da outra. O mar afasta a possibilidade de escolha. Em algum lugar, a estrela fica fora do céu. O vermelho ao meu redor é apenas a vontade de estar onde não estou.
Mariana Gouveia Desvios para atravessar os quintais Scenarium Livros Artesanais
Peguei o verbo da rua de cima e misturei no jardim. Nasceu a sorte em todos os lados. O trevo de quatro folhas se prontificou a ter apenas três para fugir da simpatia de sempre e o de quatro se misturou nas graminhas para ser encontrado no gesto simples da menina do lado, que se encantou quando eu disse que a sorte morava no jardim que brotava no coração dela.