Afetos

Nosso amor de livro

Eu não troco a essência
E a paciência
Dedicação de amor
É isso

Eu vou contar história
De glória
Vou escrever a nossa história de amor
Num livro

Eu vou dançar na rua
Com a lua
Vou rabiscar seu nome
Nos muros

Eu vou cantar canções ao vento
Vou viajar no pensamento

Pro futuro

Quem sabe a nossa história
Ganha um final
Vira manchete de jornal
E vídeo com um poema para rimar
O amor da gente.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

É preciso ter asas…

quando se ama o abismo
Nietzsche

Jean,

será que de onde você está o tempo passa tão rápido como aqui? Parece que foi ontem que eu te escrevia num dia como hoje. Como prometi, vou te escrever em todos os anos para falar da falta que você faz aqui. Em tudo.

Fico olhando seus irmãos e me pego imaginando como você estaria. Já teria filhos, já havia conseguido realizar o sonho de viajar para fora do Brasil? Nas fotografias tiradas em família, fica sempre um vácuo onde seria seu lugar.

Sempre penso em você quando ouço as canções que você mais gostava. Arrisco-me a colocar para tocar o Charlie Brown para tocar no aplicativo de música. Te sinto bem perto de mim quando faço isso.

Quando converso com sua mãe sobre você lembramos de anjos… e de asas e também de nossa última conversa. Você era o menino que gostava dos abismos, dos voos loucos e eu espero que você esteja muito bem e em paz.

Feliz aniversário!
Mariana

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Sunsets

Devia espreitar a tarde onde o sol morre para nascer em algum lugar fora da minha visão.

Bambina mia,

já se tornou rotina te escrever no dia 6 e embora o foco do projeto seja as fotografias, não posso deixar de te levar pela mão e mostrar o céu do meu lugar, em sua forma mais bela que é quando as cores da tarde se juntam com as do crepúsculo em um caso de amor.

Já falamos muito sobre essas horas e também sei que são as suas horas favoritas – tanto as horas em que as manhãs chegam e te abraçam e as horas bruscas que acontecem do dia pegando a noite pela mão – e você sabe, bambina, que meu lugar é conhecido pelo calor e pelo sol abrasador, embora, nos últimos dias a tarde tenha se fechado com temperaturas mais suaves e a moça da previsão continua alertando para os perigos da baixa umidade por aqui… mas, é ali, quando a cortina vai se fechando que meu olho busca o céu.

Durante a caminhada no fim do dia é que me transformo em solar. Em cada direção que olho, o sol se reinventa tanto que busco nomes para esse instante e não encontro. Parece que sempre é verão, mesmo com o outono rondando ainda por aqui. E a natureza se enfeita com os raios solares como se estivessem se vestindo para uma festa.

E mesmo sendo outono, e ele se mostrando tão desenhado no meu quintal, eu viajo para outras estações e te mostro, com dedo apontado em riste: vês? olha o avião! Já te contei que eu percebi que mudaram a rota dos voos? Pois é! Agora eles passam em linha reta no meu lugar e cruza o quadrante do muro como se viesse trazer notícias suas. Alguns passam tão baixo que dá para ver a numeração da aeronave. E quando isso acontece canto Calcanhoto e sua versão linda da música Inverno:

No dia em que fui mais feliz,
Eu vi um avião
Se espelhar no seu olhar até sumir

Depois que a melodia acontece aqui, abro os braços, como já te contei tantas vezes e penso nos sons dos “seus” aviões que passam sob seus olhos…

Bambina, o sol daqui é um caso a parte… ele se transforma em personagem principal quase todos os dias. Você já sabe onde sento nas minhas tardes, pelas conversas que temos e sabe que meu quadrante dentro dos muros faz com que minha visão dessa hora seja limitada e atrevo-me a pegar a câmera e caminhar para além da rua de cima e ali, faço a despedida diária do astro maior que predomina aqui.

Sabe o que eu mais queria te mostrar quando viesse aqui? Esse céu de outono onde as nuvens se esparramam como se fosse me abraçar. As nuvens abraçadas pela luz parecem sorrir. É claro que tudo isso acontece sob meus olhos admirados e sabe, bambina mia, mesmo que eu veja isso todos os dias serão sempre com olhos de admiração e espanto que essas imagens farão esses efeitos em mim. Até mesmo quando não há uma única nuvem no céu, nessa hora, o espetáculo se apresentará único todos os dias. E era essas imagens que eu queria te mostrar hoje. Vens?

Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes – Silvana Lopes – Obdúlio Nunes Ortega – Claudia Leonardi

Afetos · Das palavras das cartas

Das andanças, das metáforas, do amor

Hoje todas as sílabas da noite são o teu nome.
Al berto

Amor,

às vezes, dentro dos meus silêncios, percebo sua espera por mim… acho até que já te falei disso e de quanto o universo me abençoou colocando você em minha vida. Você espera por mim enquanto escrevo, enquanto fotografo, enquanto cuido das tarefas da casa…

Mas, também, dentro de minhas cantorias e voz, você é chegada e colo. Por isso, te escrever no seu dia é reavivar os nossos instantes e reafirmar meu amor. O seu amor pelos animais, o olho apurado ao perceber coisas novas nos lugares para me mostrar e sua companhia sempre constante.

Quando você chega e seu sorriso abraça a casa inteira eu percebo que a felicidade existe só por você estar aqui, ao meu lado sempre. Nossas andanças nos levam sempre para o mesmo caminho, nossas palavras, nas metáforas que só nós criamos e sabemos que existe e no amor que cuidamos como uma flor rara.

Te amo sempre e muito!
Feliz aniversário!
Mariana

Afetos · Das palavras das cartas · infinitamente

Pai

Pai,

Hoje é o primeiro aniversário seu sem você por aqui. De repente, percebo que não vou poder mais enviar a carta para o locutor da rádio local ler para você nesse dia. Posso eu mesma ler em alto e bom som por aqui.

Agora, a linha é direta com o universo e nem preciso mais de dia especial. Várias vezes, me pego te perguntando sobre coisas que só você sabia me responder. E nem vou saber mais sobre a colheita do algodão. Nem de sua fala dizendo que o campo parecia um véu de noiva de tão branco.

Aqui, as coisas continuam iguais você deixou. Ainda irei juntar as memórias, as malas antigas, as fotografias e passear pelos lugares que a gente já foi juntos. Guardar o ferro de passar, o moedor de café e a xícara esmaltada que você tanto gostava.

Eu sigo firme por aqui, pai… embora cheia de saudades… que seu voo tenha alcançado a paz dentro de sua fé.

Te amo sempre!
Feliz aniversário!

Mariana Gouveia

Projeto Diário das quatro estações

Decreto

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Crio um decreto como forma de ditar regras. Riem dela porque adora ler os manuais. Coloca estrelas nos meus olhos nas primeiras horas da manhã. No poder encantatório das palavras ilumina meu canto poente da sala. Procura o nome que dei à ela nas pétalas do meu dedo que cheira a maresia.

Decreto
Decreto que todas as coisas fiquem lindas por causa do amor e que o amor embeleze todas as coisas.

in, Diário das Quatro Estações – Mariana Gouveia

*imagem: Anna O.

 

 

 

 

Das palavras das cartas · infinitamente

Para além dos campos de flores amarelas

Não sei, minha mãe, o que escondeste nas sílabas, 
que violenta neblina lá guardaste, 
mas não esqueço a euforia do espanto, 
essa festa distante onde chamava por ti devagar, 
sempre tão devagar. 

José Oliveira Fernandes

mãe,

como eu conto esses dias que atualmente passam tão rápidos? Mesmo que eu não queira, maio me traz o dia que seria seu aniversário. A folhinha arrancada logo cedo vem junto com as memórias desse dia em anos anteriores – tantos, que às vezes, esqueço quantos são.

Sabe, mãe, são mais dias sem você do que com você. E não podia nessa data ficar sem o parabéns para você. Sete filhos já dava uma festa ao redor da mesa, lembra? O bolo de milho, de puba e os biscoitos de polvilho, o suco de tamarindo, servidos na mesa de madeira debaixo do pé de sete copas e os campos enfeitados de flores amarelas. Eu sempre dizia que os campos se enfeitavam para você, dentro de maio, como se com isso te presenteasse com o dourado a se estender até se misturar com o verde das matas.

Acho que você se orgulharia de mim, mãe… tenho conseguido me sair bem, mesmo quando alguns dias ficam difíceis de gerir. E mesmo quando os olhos se espremem em lágrimas, logo tudo passa e sigo em frente. Ainda falo com você também, mesmo com 42 anos de ausência. É tão presente, que às vezes, parece que está logo ali, a cuidar da horta, dos bichos, das roupas na bacia.

Gostaria que você soubesse que ainda sigo alguns rituais que você nos ensinou. Também vivo fazendo artes como as que você fazia e seu neto, mãe, já é um homem lindo. A vida continua mágica, apesar de tantas coisas estranhas causadas pelo homem e nesse dia, te reverencio com as mãos justapostas e te abraço com meu coração.

Feliz Aniversário!
Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Caixa de fotos

Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim eu enxerguei a ‘Nuvem de calça’.
Representou para mim que ela andava na aldeia de
braços com Maiakowski – seu criador.
Fotografei a ‘Nuvem de calça’ e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
mais justa para cobrir a sua noiva.
A foto saiu legal.

– Manoel de Barros, em “Ensaios fotográficos”. 

Bambina mia,

pensei em não escrever a missiva costumaz nesse 6 de maio. Mas, depois, pareceu-me que faltava algo mais e lá vou eu nesse monólogo com você nessa tarde/noite de céu com nuvens que parecem bolas de algodão. Hoje, realmente pareceu outono nesse fim de tarde, revirando minhas caixas de fotografias para registrar o projeto. As lembranças transformaram minha tarde em nostalgia.

Sabe, é engraçado olhar o passado através das imagens em papel de fotos, algumas recortadas para um scrapbook que nunca terminei. Uma das únicas fotos que minha mãe tinha e meus irmãos mais novos ainda de chupeta me levou para tempos atrás. Com você, eu posso falar desse sentimento de ternura que abranda um pouco os dias difíceis. Embora você não goste muito da palavra saudade é ela que me acolhe nesse momento.

Confesso que fazia já alguns meses que eu não mexia nas fotografias, mas eu gosto desses momentos onde o instante ficou gravado como único. Ainda me recordo completamente do dia dessa foto acima. Meu pai arrancava o açafrão para temperar o frango do almoço. Era férias e eu buscava o calor do afago dele. O quintal ainda estava sendo formado. A pequena árvore era o pé de canela que ele mesmo plantara e para além de onde não saiu no ângulo, a horta.

De repente, olhando as fotografias percebo que grande parte das pessoas ali já não estão mais aqui. Só as lembranças na memória viva dentro do peito. E a sensação do amor sentido e vivido.

E quando abro a caixa dos registros do filho fico admirada pelo tanto de coisas vividas. A formatura, a crisma, as viagens feitas por ele e das histórias contadas através de cada close… Nossa, bambina, agora me pareço com a minha mãe que abria o álbum de fotografias e a caixa de monóculos cada vez que uma visita chegava em casa.

Escureceu e a noite morna se aproxima… Já é hora de juntar as lembranças, guardar as caixas e mandar as fotos via mensagem para os irmãos e o filho. Recordei de tantos instantes e você é a culpada por isso. Grazie!

Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais

Corredores, Codinome Locura

Trapézio

 

Estar com ela tinha a sensação plena do voo.
De repente me pediu pra cantar. Uma musiquinha de criança…
Não cantei, ela fez charme e mesmo não dedilhando canções a melodia invadiu espaço dentro da alma.
De novo a sensação do voo, água na boca. Quase turbilhões de borboletas na barriga.
E foi riso…e mergulhei sem rede. Não tive medo. Me joguei.
Sei lá. Não sei que nome dou pra essa coisa na barriga que envolve e que devora, que tal qual criança na noite do Natal a espera do pacote abrir.
Me abri. Os braços, quase alados, quase asas. Indo, vindo. O espaço era meu. Não. Melhor, o espaço era nosso.Amplo. Lá embaixo, picadeiro sem rede. Mas o amparo era nítido.
Era colo.
E assim, a magia se faz e a gente voa junto. A respiração corta e a respiração vem.

De um pequeno instante,a sensação agradável de estar ali, invadindo espaço, braço.
O palpitar do coração na melodiosa canção do amor e a plenitude de dominar o céu.

Quer saber? Até hoje  subo no estendal de roupa onde meu coração ficou preso.

Foi o primeiro delírio de um voo rasante de uma provável série de outros que virão. Aliás, acho que viverei nesse trapézio constante em alucinógenas doses de me entregar nos braços dela.
Quero andar nesse caminho de céus coloridos, com borboletas de cores variadas a voar suavemente em torno dos meus pés.
Em volta tudo lembra magia e é bom, nem é preciso fechar os olhos.
Exercito uma insanidade sutil, pequena, suficiente.
Eu queria que eu só existisse pra essas coisas e pro amor. Daquele momento de borboleta me peguei a derramar do limite das asas, uma chuva de flores.
O vento me emprestou um movimento e em festa soprou com gosto um domingo de abril.

Foi como se você estivesse aqui e coubesse toda nos meus braços e voasse em mim…

Mariana Gouveia
Art: Larissa Marques

Divã

Loucure-se

loucure-se

Diziam que sofria de loucura crônica – alguém sempre fazia questão de ressaltar isso – nunca fez nada para desmentir.
De vez em quando, tomava lucidez fora de hora.
Tinha medo de não viver as histórias de amor que lia nas bulas disfarçadas de livros.
Ria quando lembrava dela. A buscava nos romances que lia. A cantava nas canções de amor.
Lembrava do dia em que estivera nos braços dela.
A madrugada, a partir daquele dia, passou a ter sentido. E as coisas ganharam o encantamento que eu via nos olhos dela.
Um dia, a loucura materializou-se em gestos e um mês qualquer tornou-se um de um vazio profundo.
Uma mistura do enlouquecer e da busca, sintetizou a falta.
Nunca mais soube dela. Mas, todos os dias lê as cartas, o horóscopo, o tarô…
Procura uma cigana que leia em sua mão a doce felicidade da volta.
Na mão, a linha do destino liga sua vida à dela.
Escreve poesias para não enlouquecer de saudades e cuida do jardim, apenas por desacato à flor.

Mariana Gouveia
*imagem: Tumblr