Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim eu enxerguei a ‘Nuvem de calça’.
Representou para mim que ela andava na aldeia de
braços com Maiakowski – seu criador.
Fotografei a ‘Nuvem de calça’ e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
mais justa para cobrir a sua noiva.
A foto saiu legal.
– Manoel de Barros, em “Ensaios fotográficos”.
Bambina mia,
pensei em não escrever a missiva costumaz nesse 6 de maio. Mas, depois, pareceu-me que faltava algo mais e lá vou eu nesse monólogo com você nessa tarde/noite de céu com nuvens que parecem bolas de algodão. Hoje, realmente pareceu outono nesse fim de tarde, revirando minhas caixas de fotografias para registrar o projeto. As lembranças transformaram minha tarde em nostalgia.
Sabe, é engraçado olhar o passado através das imagens em papel de fotos, algumas recortadas para um scrapbook que nunca terminei. Uma das únicas fotos que minha mãe tinha e meus irmãos mais novos ainda de chupeta me levou para tempos atrás. Com você, eu posso falar desse sentimento de ternura que abranda um pouco os dias difíceis. Embora você não goste muito da palavra saudade é ela que me acolhe nesse momento.
Confesso que fazia já alguns meses que eu não mexia nas fotografias, mas eu gosto desses momentos onde o instante ficou gravado como único. Ainda me recordo completamente do dia dessa foto acima. Meu pai arrancava o açafrão para temperar o frango do almoço. Era férias e eu buscava o calor do afago dele. O quintal ainda estava sendo formado. A pequena árvore era o pé de canela que ele mesmo plantara e para além de onde não saiu no ângulo, a horta.
De repente, olhando as fotografias percebo que grande parte das pessoas ali já não estão mais aqui. Só as lembranças na memória viva dentro do peito. E a sensação do amor sentido e vivido.
E quando abro a caixa dos registros do filho fico admirada pelo tanto de coisas vividas. A formatura, a crisma, as viagens feitas por ele e das histórias contadas através de cada close… Nossa, bambina, agora me pareço com a minha mãe que abria o álbum de fotografias e a caixa de monóculos cada vez que uma visita chegava em casa.
Escureceu e a noite morna se aproxima… Já é hora de juntar as lembranças, guardar as caixas e mandar as fotos via mensagem para os irmãos e o filho. Recordei de tantos instantes e você é a culpada por isso. Grazie!
Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais






Meus álbuns de fotografias nunca foram iniciados. Pensei em faze-lo algumas tantas vezes. Abandonei a ideia. Então me parece um tanto surreal que eu produza um coletivo. Pode rir. Mas ficou lindo. Poesias que são fotografias.
Eu gosto de fotografar paisagens, lugares. Pessoas, nem tanto. Sei da importância dos registros para algumas pessoas. A maioria é refém do que uma lente exibe seja em que tempo for. Gostei da sua caixa e dos retratos ali acumulados. Uma viagem, sem dúvida. Só não sei para onde fui.
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Suas fotografias nos aproximam de suas memórias e saudades de um jrito muito especial, poesia em estado puro 🌻
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