Corredores, Codinome Locura

Por aqui a lua jantou com Vênus

Por aqui a lua jantou com Vênus

Vem quase tudo
do que tu dizes

é como ter a respiração acelerada.

Jantei sombras de sol,
luas de metamorfose.

Bebi…

Achei lindo beber lua
e até me embriaguei aqui.

Estou a cata de inspiração

pra ver se te encontro e do que tu te alimentas;

o mel nos teus lábios…bebi.
Tudo em ti  me sabe
a sal
e é doce, doce

como a saudade
e eu sorvo cada sabor
da delicadeza dos instantes.
É nos seus braços que me inspiro.
Deve ser por causa do eclipse solar.

Por aqui a lua jantou com Vênus
numa clepsidra de sonhos.

Sonhei contigo.
Seus goles me sorviam

e passou depressa.
Mas ficou cá dentro
uma imagem tua,

aquela imagem
que não esqueço.
Não quero esquecer

e no toque lento de tuas mãos.
Árida estou e ardo
e sou
todos verbos.

Verbalizo,
úmida,
sou gutural, estaminal.

Te vejo,
as minhas mãos imitam as tuas
passam em mim iguais.

Aperta-te…

Para eu sentir
a marca
procurando o tudo e nada.

O teu corpo
se funde no meu,

a minha morada tardia
e eu que ardia de desejos
no deserto de concreto,

tenho sede.

Não sei nada de AMOR.

A minha boca já sabe a tua
e cresce
uma nascente de água…

tua estaminal.
É no céu da tua boca, meu paraíso

verbal,
mas tão real que te sinto
e vou ao delírio.

Quente como o areal
no sol

que eu: ardente desejo
que me deu

sabes de amor agora?
Sim!
Um sentimento,
pequenas conversas,
várias nuances

que fica.

Quero tua resposta.
Tu és meu coração
perdido.

Eu acho-te
no repetir

dos momentos,
dos meus
encantos
mesmo quando
acabo
e quem disse que é preciso estar juntos pra estar perto?
Acabo e ardo

Mariana Gouveia – Das delicadezas dos Instantes

Corredores, Codinome Locura

as lembranças me chegam sempre em dias tão vazios

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As lembranças sempre me chegam nos dias vazios. Era eu em tuas fotografias. O vento uivava no morro e ali, a vida parecia cor de rosa.
Te mostrei a florzinha azul. Falei da delicadeza do lugar. A aliança tinha ar majestoso na mão. Você tremia.
Não era chuva, mas tinha gotas a cair do céu em uma garoa que não era do lugar – ou pelo menos, eu nunca tinha visto – e você se deslumbra com a visão do céu ali. Quase tocamos as nuvens com as mãos. O dia era para ser feito de magia.
A timidez dominava seus olhos. Eu te via como a rainha do lugar. Era eu, indivisível olhos de amor.
Falei do mar que você me trazia e que ali, já havia sido um oceano. Era história contada nos livros. Onde as flores azuis nasciam – sua cor – foram encontrados fósseis marinhos. Um, que parecia estrela – eu vi – e quase pulei de alegria quando te contei.
Você falou da estação que sobrevivia os dias e de como era intenso o lugar.
Tenho todas as estações na mão. Em mim, tudo era primavera quando você estava.
Seus olhos se perdiam na imensidão do tempo. Passou-se tanto depois disso.
Lembro que no fim do dia o sol apareceu. Eu te cantei uma canção e fomos embora achando que a vida era isso.
Hoje, num dia vazio a saudade abre a tampa das lembranças e eu deliro – deve ser a febre – o dia parece igual àquele.
Já não é mais primavera em mim, mesmo dentro da estação das flores e a florzinha azul, ficou extinta e nunca mais nasceu.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Sobre(vivência)

 

Inaugurava em mim o outono
e a voracidade dos dias.
Mora dentro de mim as tuas digitais
e os caminhos que percorro em tua pele
a folha que cai enquanto o corpo treme
é preciso sobre(viver) dentro das estações.

Mariana Gouveia

infinitamente · Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Das metades de tantas, (eu) inteira

Ph: Steve Richard

Inventou a si mesma
no pretérito imperfeito
cada vez que tocava
sem jeito seu corpo
via as palavras
da mãe, da irmã
o pecado em palavra,
dedo em riste
o incômodo das que eram submissas


– nunca quis isso para si –
sabia que cabia dentro dela
as promessas de prazer
como se fosse dia de chuva

Sabia-se única
e ainda assim sentia
um abismo de sujeições. 
Um céu fotografado em dia de sol
tal qual nuvem dissolvida
em várias formas
com o carimbo da ancestralidade
na pele
um marco geodésico das outras
de sua linhagem, o sangue –
feito nuvem vermelha
em dia intenso.

Mariana Gouveia
Coletivo de Poesias Mulher de Nuvem
Scenarium Livros Artesanais

Corredores, Codinome Locura

e o silêncio se fez de vento no varal 

Quando rasguei o nome no peito…Tirei do ventre a palavra voo e chorei pelos números de nomes que voaram entrelaçados dentro da ausência vivida. Nem era dia especial e o silêncio se fez de vento no varal e as esperas aconteciam e a gente sabia que não ia chegar. Algumas partidas acontecem como voos de pássaros ou como pouso em um dia de silêncio.

Mariana Gouveia

das coisas breves

Dos mistérios das coisas

Vi um céu sem estrelas no mesmo dia em que uma sonda seguiu viagem rumo aos anéis de Saturno. A flor tão pequena ficou gigante diante da vida miúda. E a noite alguém falou sobre o mistério das coisas. Arranquei as ervas daninhas do quintal e começou de novo o processo de plantar. Lembrei -me da colheita e de como as sementes fazem diferença para colher as flores.

Mariana Gouveia

das coisas breves

Houve um imprevisto na manhã desavisada de silêncios.

 Isso foi quando uma estação invadiu a outra como se tudo fosse um reencontro. Os cães se refugiaram no quarto e nem um pássaro cantou no quintal. A garoa beijava as folhas como se fossem íntimas e o vento trazia aromas de casas vizinhas. Na rua, apenas eu e a luz difusa do poste em um pisca e apaga sem fim.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Para memórias futuras…

Su, minha menina nuvem,

confesso que vou guardar essa noite, essa lua, essas nuvens em gavetas para memórias futuras. Foi ontem, tudo isso, e você deve saber o momento. Estou em um tempo passado e muitas vezes, esqueço esse fuso de uma hora a menos.

Mas, para que saiba o que senti e de tudo que meu céu, nesse quadrilátero dos muros que o rodeia tem, guardo em palavra, escritas sob um céu, de um lado, estrelado e ao centro, uma lua belíssima – cheia – e quis te mostrar.

Você sabe bem que a vida é esse afago de alma, de lembranças, de cheiros… eu moro tão longe do mar e nesse momento, nesse meu desaforo de fuso, o mar veio junto com a lua, as nuvens e uma brisa que nem tem cheiro de rio – mas de mar mesmo – ruas abaixo do meu lugar.

Sorvi o chá que fiz a pouco. Meu pé de capim limão está vibrante – culpa das chuvas dos últimos dias – o aroma das flores do alho e que nem cheiram a alho invade essa noite de lua cheia e há cheiro de bolo assado na vizinhança. A minha vizinha da direita faz delícias a essa hora da noite – culpa do trabalho – e de madrugada. Um dia, conto mais sobre isso.

Sabe, Su, há um silêncio no quintal. Até os grilos calaram… e vi, no canto do lado do sul uma luzinha de vagalume – seria impressão? – e a sombra, quase vulto, de Chiquinho dormindo no varal perto de mim…

Vejo vultos logo para além das ipomeias e sons de folhas caindo e as asas de um morcego – recém visitante por aqui – que assusta o meu amor – num vapt vupt que faz ele soltar impropérios que nem ouso repetir. Ele é geminiano e tem medo dos vampiros… vê se pode!! Fecha as portas e janelas e fica me rondando aqui fora, como se o bicho fosse me esvair em sangue… logo ele, que odeia ver o líquido vermelho jorrando – seja em filmes, novelas, e cortes… mesmo os pequenos – fica como se fosse me proteger…

Mais uma vez, rodeio o pescoço com os olhos no céu… as nuvens se dissiparam. Dizem que pode chover a qualquer momento, mas já vi a moça da previsão errar tantas vezes, que meu sopro de ar vai para essa carta para que você guarde para memórias futuras, de uma noite em que eu te vi no céu do meu lugar, brincado de lua, enquanto você se graduava em outro momento, de um céu, do seu lugar.


Beijo meu,
Mariana Gouveia

Afetos · Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

Andarilha

Ph: Lauren Treece

E eu que sempre fui Sol
… amanhecer
Olho para o céu-noite
E aponto estrelas
– possíveis mapas –
Fecho os olhos perdidos
… para que a Rota
Esteja certa!
E quem se perdeu (de mim)
Encontre o caminho
Para dentro do meu peito
Onde o coração
– feito ninho avisa que é possível
nascer outra vez

Mariana Gouveia
Coletivo de Poesias Andarilha
Scenarium Livros Artesanais

Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

De renda e de poás

Eu nunca fui mulher de seguir as tendências da moda. Gosto de listras, de xadrez, do vermelho e de poás e não sou do tipo que usa maquiagem. Eu até tentei, mas não me entendi com as cores. Fiquei apenas com o batom que uso vez ou outra. Mas com os meus cabelos, o papo é outro… Já foram castanhos, loiro, vermelho em várias tonalidades, cobre… e o branco natural – em transição.

E quando meus cabelos começaram a cair, devido a um tratamento, eu finalmente entendi a minha vaidade. Não foi fácil vivenciar o processo da queda. Mexeu muito comigo. Mas eu superei e optei por mantê-los curtos e não mais pintá-los.

E vieram as críticas…

Feitas em sua maioria, por outras mulheres, que fizeram questão de fazer suas considerações – tão cruéis quanto a doença que atingiu meu corpo. Mas para quem venceu um câncer, o que são meia dúzia de vozes contrárias? Levantei a cabeça, equilibrei os ombros e dei o meu poderoso grito – imitando a personagem de Tomates verdes e fritos – e saí pisando com as pontas do salto imaginário por aí.

      É muito bom esmagar cabeça de cobra
Eu recomendo.

Aposto que é o que Janja – nossa primeira-dama – faz, ao ler as críticas direcionadas a ela. Durante a posse do presidente Lula, ela apareceu com uma roupa feita com crepe de seda vintage, tingida naturalmente com caju e ruibarbo, e bordada com palhas brasileiras.

Recordei a minha infância na hora, quando minha mãe tingia os tecidos com o que catávamos na natureza e aplaudi todas as referências brasileiras, minhas e de tantas outras mulheres. Elegância não tem relação com estilo, como querem nos fazer acreditar. Trata-se das nossas atitudes e personalidade; algo que sobra em Janja, alheia a protocolos e que já disse se vestir com o que se sente bem. E que falta em muitas mulheres, que deveriam fazer o mesmo que eu fiz: dar um grito de independência a la Evelyn Couch. E se você não a conhece, é sinal de que está gastando muito tempo com a vida alheia e deixando a sua, de lado.

Mariana gouveia
Coletivo de Crônicas (In) discreta
Scenarium Livros Artesanais
Organização – Roseli Pedroso