Alguém me contou a história pelo avesso e vi a sorte no riso de um menino comum. O sábio tinha jeito de louco e o porta retrato trazia apenas asas quebradas. Na folhinha, a magia do dia retratava o dia em que voei. Você acreditaria se eu dissesse que esqueci a cor dos meus olhos e quase disse azul quando me perguntaram?
Deve ser isso que se chama de delicadeza das coisas. Alguém hoje enterrou seu bem mais precioso e de novo estava lá as asas… lembrei dessa mania de voo que me pertence. Para minha lógica comum, sou esse centro onde as ocas rodeiam. Isso de ser de céu é quase um alento aonde tudo é pouso.
Talvez, um dia eu conte como é ser pássaro e a brisa ser essa rota do voo para além dos muros. As flores se abrem e ainda é tarde. Logo, o noturno virá tomar conta do quintal. A ave de todo dia é insistente no canto de eubemquete-viquasetevi e o céu parece se inclinar em um olho torto dentro da lente. O desenho a lápis da flor na toalha ganha cores nas linhas bordadas… o gesto terno da xícara a receber o café para além das horas. A pele virada do avesso não cabe no tato. As digitais estranham a memória do dia. Eram tantos os dias atrás que parecem outras eras. Na parede, a asa enleada de ave e o gesto simples de querer voar.
A chuva oculta na previsão que falha, o vento a espantar o trovão que não veio e o carro do churros a vender a doce mistura do chocolate ao leite, em uma voz que parece saída de uma história da infância. Derramo ternura pelo pássaro, que cede ao encanto do poente e some noite adentro em memória da lua que permanece acesa no coração dele em sua rota dissimulada rente ao chão, nas poças d’água, dos restos do que molhei o jardim.
No deserto do quintal sem árvores, esqueletos de galhos que perturbam o ar dissimulados de ventos – garras – que na noite vem acompanhadas de aves. o resto, é só esse silêncio e o barulho do chá, nas xícaras. se as palavras dizem os meses nos calendários e a folhinha antiga traz o meridiano nas noites brancas. É breve o escrito nas pedras das runas, e emocionante os vapores dentro da pele, o traço, um risco, o vento me rendendo ao abraço;
os galhos da árvore seca criando sombras no muro. A solidão sendo vontade nos retratos pendurados na parede de tijolos expostos. cuidado frágil escrito em letras garrafais na alma.
Tem dias que a vida é essa ave desligada de vento.
eu sabia que esse dia chegaria e confesso que mesmo sabendo dele não estava preparada para o primeiro dia dos pais depois do seu voo. Eu poderia contar as coisas que me aconteceram nesses dez meses de sua partida, na minha ida ao seu lugar, pai… poderia, mas ficaria triste diante de algumas coisas e sei que você não quer isso.
Estive em todos os seus lugares, pai, na minha ida onde você morava e foi estranho ver em alguns dos seus cantos preferidos as teias de aranhas se formando confirmando sua ausência… os pequenos cadeados enferrujados nos portões. O pé de canela morrendo sem ninguém ter aguado. A horta com os restos de cebolinha e coentro, quase deixando de ser horta. Entendo que as coisas do dia a dia não permite que alguém cuide. Há muito que se fazer , inclusive, limpar o lugar, deixar o espaço vazio para que a vida siga adiante.
Sei que essa data se agiganta em saudades e também sei que o locutor da rádio da cidade não vai mais ler nenhuma carta ao vivo, porque o velho moto rádio se calou. As pilhas descarregaram e não tem nem porque trocá-las.
O nosso ritual nesse dia, era a vídeo chamada para os parabéns, as declarações de amor e por fim o riso de despedida. A partir de hoje, vira história essa data… e é por isso que venho dizer do quanto me orgulho em ter sido sua filha e do quanto aprendi com você.
Sei tanto sobre a lua e suas fases, sobre blues, o sertanejo antigo tocado na velha vitrola e o jeito de semear qualquer semente. Também aprendi a arte da benzedura com você, pai… e a entender os bichos, principalmente, os que voam, porque de alguma forma, você me dedicou desde o nascimento às asas. Sou tão grata por isso!
Eu te amo para além desse mundo e de outros que possam haver. Feliz dia dos pais!
Em alguns dias, é dentro da alma que o vulcão expele suas lavas. Em outros, o toque do abraço é um afago diante da manhã. A mão exposta sendo colo, enquanto o objetivo tem como fachada uma lista exposta. A solidão seria um luxo se eu não necessitasse tanto dessa amplitude de aconchego. Os corredores ganham risos quando o que não era mais renasce de novo no toque ofertado. A vida é essa doação de amor. Pudesse eu doar te tocaria. Dentro da palavra fé.
O fogo ardeu dentro do sol e as labaredas alcançaram o cerrado. Temporada de fumaças. O paraíso está tem chamas. O coração gera a expectativa de canção e no boletim do tempo… A chuva promete coisas desavisadas que não acontecem. Fala de flores que nascerão no cerrado cinzento e de frutas temporãs de agosto em uma invasão antecipada de outra estação. Antes, a chuva da estação era presságio de colheita.
A direção errada do homem muda o sentido das coisas. Arde o cerrado e ardemos todos nós. Alguns optam por fechar os olhos e dizer que amanhã será dia. De olhos fechados, a manhã chega mais depressa mas, não chega para todos nós. Quantos animais viraram fumaça nesses dias de chamas altas…
Mariana Gouveia Desvios para atravessar os quintais Scenarium Livros Artesanais
Na minha lista de mulheres que me fizeram o que sou, ela não é a primeira. Mas, é o meu modelo e teve grande influência em tudo que sou. Talvez ela nem saiba que dentro da mulher que sou existe o espelho da mulher que ela é.
Da primeira lembrança, tenho um registro para mostrar: uma foto em preto e branco. Ela vestida de caçadora para uma apresentação da escola. Eu tinha cinco anos e ela… quinze. Eu via a minha irmã mais velha como uma rainha.
Anos mais tarde, a imagem da normalista transformava-se em deusa. O uniforme azul claro – com saia plissada, sapato de verniz, meia três quarto, camisa branca e a gravata – me encantava.
Eu reconhecia o barulho do ônibus que a trazia para casa, todo fim de tarde. Ficava com olho comprido, aguardando que surgisse na estradinha de chão batido para correr até ela e saber tudo que ela havia aprendido durante o dia. Ela não sabe, talvez desconfie… que foi inspiração para a minha poesia, a minha arte e o meu coração porque eu queria ser igual a ela ao crescer.
Vi minha irmã acompanhar a nossa mãe na luta pela vida. Acompanhei a descoberta do amor por um homem e o nascimento dos filhos. Eu sabia que ela era forte, corajosa e precisou ser valente para superar as perdas sofridas. Tempos difíceis que foram se acumulando. A vida exigiu muito dela e ela nem sabia de onde tirava as forças.
Mas eu sabia, era do seu coração. Aprendi com ela o que era cuidado ao vê-la lidar com o nosso pai como se fosse um filho.
Bordadeira e desbravadora. Consciente e sonhadora. Senhora dos rituais da nossa família. Da bá a avó Mariana que não conheci. Mulher da lida com a terra e com os ciclos: do plantio à colheita.
Em nossa linhagem ancestral… é a Matriarca que se vê refletir nos risos das netas. Que aprendeu a cerzir os erros, alinhavar os sonhos e costurar as lembranças em abraços.
E quando pega a tesoura, tecidos e linhas parece consciente de seu papel no mundo… Inspirar!
Quando nos encontramos, ela ainda é a minha “Mia” e quando canta para Manu, Maria e Bianca eu me misturo a elas e completo esse nosso ciclo, de mãos dadas, repetindo cantigas que aprendemos juntas.
Mariana Gouveia Texto publicado no Coletivo Clube do livro Artesanal Ciranda – De quantas mulheres somos feitas. Scenarium Livros Artesanais
Em minha defesa, à mesa, com meus verbos expostos, desde a fome aos cacos das xícaras que quebrei… desde o olho do cão faminto querendo migalhas… ao sonho do livro costurado sobre a mesa.
Bambina mia,
na minha mesa espalho suas cartas e os envelopes laranjas… falar sobre o tema me traz à memória a minha mesa da infância – e já falei sobre isso – sob o pé de sete copas, mas não tenho nenhuma foto para registrar. Mas, se eu fechar os olhos ainda ouço as risadas de todos os irmãos e com alguns passando debaixo da mesa. Em dias quentes, o barulho da faca cortando as ervas em um tec tec antes do almoço. O olho de minha mãe atenta ao ritmo da faca… O controle sobre as cartas, bambina, que escrevíamos ali, na mesa de madeira, que na mudança para cá eu trouxe uma tábua, que se transformou na mesa pequena que me segue desde sempre.
Hoje, minha mesa vira simbolismo nos artesanatos que crio, na mistura do papel sobre as linhas que teço em crochê, nas entregas das encomendas restantes. A mesa cabe a bagunça que a arte abraça.
E como a docilidade atinge meus dias, degusto da fome, da vontade, da leitura e de tudo que afaga a alma.. tudo ali, na mesa que tem coisas da minha infância e coisas atuais. É o que preciso depois de dias difíceis, sem rosas murchando sobre a mesa por falta de água. É o sopro distante da serenidade dos dias onde me cabe. A autora que tão bem sabe de mim e me cede especiarias em palavras.
Sabe, bambina, é a mesa que a família se reúne para as comemorações. Se eu fosse colocar a mesa dos aniversários, dos almoços de domingos, de reuniões de batismos, etc… eu seria crucificada. O olho vermelho da irmã, o bico do sobrinho, o borrão da luz da janela apagando metade da família. Meu olho volta para a mesa do canto, onde os bibelôs – companhias das noites de insônia silenciam – ou não? Fui somente eu que ouvi piados??
O reflexo da luz da rua bate na janela da sala. sou eu quem vejo ilusão na mesa de centro? As borboletas voam na parede da sala. A minha memória guarda as imagens para os dias que não vou poder ver nem na claridade dos dias. O tempo hoje é entre aspas para além dos óculos escuros. Era de mesa que falávamos? Conto sete passos de olhos fechados da sala até a mesa da cozinha… e nove, até a mesa de canto onde os livros para ler esperam… Conto os passos até a mesa de canto do quarto e finalizo a noite, mesmo sabendo que AINDA estou aqui.. no rompante das horas, para os dias que virão.
Bambina, mas em se tratando de mesa… ah, a sua povoa meu imaginário real. Pode isso? Pode sim! Ainda tenho a memória ativa do bolo de fubá no prato, do primeiro livro meu sendo costurado – e nem era cetim ainda.. Lembro-me que mais do que a mesa sob a árvore de sete copas – que serviu de lugar para minha infância e as brincadeiras mil em volta dela – a sua mesa serviu de colo para o meu sonho… o de escrever sentimentos.
Mordia o lábio para não revelar o segredo. Infringiu as regras do bom senso: roubou o perfume dela e viajou na essência cítrica… Com o nome a ecoar histórias e o coração a acelerar quando pensava… na pele! Pensou que fosse mentira o idioma e a cidade das poesias estampadas na camiseta sobre o amor.