Alice - Uma Voz nas Pedras · Das palavras das cartas · Lua de Papel · Lunna Guedes · Meus Livros · Projeto Diário das quatro estações · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Viagem literária

Para Mariana
Eu gosto de dizer que construo para olhares alheios, no caso, o seu – habitar! Gosto de pensar que. de palavra em palavra, eu vou me desfazendo de mim para que uma vez, em estado de abandono, você me encontre! E me leve com você…
Eu poderia lhe dizer: “divirta-se”, mas prefiro dizer: “embriague-se”, porque combina com café… essa realidade tão minha.

Lunna

Bambina mia,

Como se tornou rotina, uso o 6 on 6 para te escrever e como hoje você nos convidou para uma viagem literária, nada mais bonito do que embarcar com você nessa locomotiva que é a sua escrita. A dedicatória acima, que abre o post, já está borrada, amarelada pelo tempo, sinal de uma chuva que tomei e o Lua de Papel em mãos sofreu o dano.

Lua de Papel me arrebatou – você sabe e me vi tantas vezes em Alexandra – e já disse isso em uma outra missiva ou texto. Não me lembro bem agora. Teve momentos que eu quis sacudir Alexandra e tirá-la do lugar comum…Também já tive momentos em que quis pegar Raissa e acolhê-la em um abraço. Mas foi isso que você fez com seus leitores. Nos abraçou nos três livros Lua de Papel em uma história emocionante e instigante.

Já Vermelho por Dentro, foi como um pulsar do cuore entre um trovão e outro. Viajei literalmente pelas ruas de Paris e entrei de vez dentro do casarão e o vermelho que já me habitava intensificou alma adentro. Quem mais conseguiria me levar tão fundo em uma cor tão minha? Anne me levou pelo cenário da fotografia e também veio a vontade do abraço em alguns momentos. A sensação de estar ali, entre os personagens me fez sentir em uma viagem em 3d.

Sabe, bambina, Alice reverbera em minhas memórias tantas. Nas leituras compartilhadas com as meninas que acolho e que passam/passaram por coisas que Alice viveu. Alice é um soco no estômago. Um alerta vivo do tempo que vivemos. Conheço tantas Alices e sou grata porque seu livro me ajudou tanto, em tantos momentos. Já abracei tantas Alices e ao fazer isso, senti que abracei a personagem principal de sua história.

Para mim, o presente é para sempre

Septum é um presente e só dele caberiam tantas fotos. Mais do que o projeto comporta, já que só posso postar seis fotos e com meu protesto, viu? Gosto das histórias que entrelaçam nas minhas. Acompanho sempre o guarda da estação. Fui sua companheira em alguns momentos do livro. Ri na parte em que se sentiu uma personagem francesa. Guardei suas memórias como semente e dentro de todas as estações te abraço.

entre aspas


E por falar em Diário das Quatro Estações eu suspirei muito durante a leitura de Aos Sábados… segui sua receita – sem medida – como de costume, para o melhor lugar onde te acolho sempre: o mio cuore. É nele, que guardei as folhas pra dar-te. Não diria que dentre os seus livros seja meu preferido. É aquele que embalo, como se pudesse com isso fazer parte da sua história passada.

fecha aspas

E chego a última foto, bambina mia, ainda em voltas com os diários. Reticências foi o primeiro, mas foi o último seu que li. Foi a leitura que me levou pela mão, como se eu já soubesse de tudo que estava escrito, de tanto ouvir falar. Tenho as duas versões, o que me dá o privilégio de saborear as duas formas da sua escrita. Mas deixo aqui registrado nessa viagem que ficaram alguns de fora: Catarina voltou a escrever e Meus Naufrágios, além do “não livro” Profissão: escritora, que devia ser lido por todos que escrevem.

Embarquei com você nessa viagem ouvindo Leon, com uma xícara fumegante de café. Te levo comigo sempre. É quando me embriago, como foi dito na primeira dedicatória feita para mim. Dentro de sua realidade e personagens.

Grazie Mille!
Amo tu, tu, tu imenso.
Mariana Gouveia
Projeto 6 on 6 – Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes –Claudia Leonardi – Obdulio Nuñes Ortega
Roseli Pedroso – Silvana

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Alguém aí tem café?

Acordei com o cheiro de pão invadindo tudo. Não havia fome de outro dia. Nem padaria aberta vendendo sonhos. A manhã anunciava decisões vendidas em caixa.

Mando entregar em qualquer canto do universo. Frete grátis.

E cheiro a invadir as manhãs e o cão da vizinha a latir. Sono perdido onde não se teve. Sem a opção do pão comi poesias do paraíso. Desceu matando fome de dor. Era quase um grito. Duas colherezinhas de mel para a garganta que ecoa seu nome sem parar. É outra vez, dia na imensidão do nada. Água fervendo. Esqueci a receita da moça de azul para o chá. Alguém aí tem café?

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Plural Editora

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Momento Polaroid

Bambina mia,

Já é dezembro e tirando a gente nem se tocou… e enquanto eu buscava pormenores no meu quintal alguns instantes se transformavam em eternidade, como se fosse a fotografia antiga, sacudida entre sopros. Devo confessar que eu poderia escrever-descrever tantos momentos que foram captados no piscar do olho. Lembra-se quando eu te disse: Chiquinho abre as asas bem na minha frente? Pois bem, eu consegui registrar. Foi instantâneo e não houve chance para segunda foto.

O sanhaço – pássaro que temos um quê de história – vive roubando água adocicada de Chiquinho e em nossas conversas entre o sanhaço daí e o sanhaço daqui mostrou curiosidade como se pudesse ver o que você descrevia e ele ouvia no viva-voz. Parecia que a vida inteira passou naquele instante e em um suspiro meu ele olhou e voou.

Alguns momentos desse ano, bambina, sumiram da memória. Acho que os que deviam mesmo ser esquecidos. Outros, se transformaram em lembranças guardadas, como se estivessem em uma caixa de fotografias. As imagens, contando história. O papagaio de peito amarelo se coçando no meu varal de roupas é um desses que fica. Quase um poema, na doce ternura em que se apresenta.

Sabe, bambina, a geografia do meu quintal se desenha em mapas feitos de asas… seja de borboletas, libélulas, joaninhas e pássaros. De vez em quando ou quase sempre, falamos de pássaros e suas nuances e acho que hoje, vou conseguir emoldurar em instantes nossas conversas: os cambacicas brigam no bebedouro e o instante se mostra aos meus olhos e agora aos seus.

Quase nos vejo frente a frente enquanto te explico o nome do pássaro que se choca no espelho da porta e espera no varal que eu saia da varanda para tentar de novo. – É suiriri – repito o nome para entre risos entender que você não entende dos nomes de aves, só das maritacas que em alguns dias invadem sua árvore de estimação e do sanhaço azul que fez o ninho em seu vaso de orquídea..

Bambina mia, sabe que para cada mês desse semestre que se encerra, uma asa se interpôs em nossa conversa e são esses instantes de ternura que a emoção nos liga nos instantâneos que uma descreve para outra. Chiquinho faz fita com a flor do pé e assim, o meu quintal nunca se faz solitário, porque mesmo sem nunca ter pisado por aqui sua presença está sempre marcante nesses instantes mágicos.

Grazie Mille!
Mariana Gouveia
Projeto fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes  Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso – Cláudia Leonardi e Silvana

Scenarium Livros Artesanais

30 – meu kairós em transcendência vida e morte…

Luci,

hoje, nas primeiras horas do amanhecer, depois de raios e trovões ecoar no céu, uma lua quase – ou ainda – cheia se apresentou em sua rota quase clandestina perante aos passantes apressados em sua rotina. Acho que só eu vi. Cheguei até a murmurar: Yeppuda! – que é bonita em coreano – língua que estou aprendendo – e todos olharam para onde meu dedo apontava. Mas, logo se voltaram para o celular na mão.

Sabe, Luci, acho que estava ainda encantada com o nascimento da borboleta da couve que nasceu no meu quintal, que fui quase saltitando para o trabalho como se fosse criança e vendo nascimento em todas as coisas. Quase vi ela saindo do casulo lembrei-me da frase que encerra esse novembro sobre kairós e sua transcendência. Pensei na vida e morte das coisas e no momento certo para o qual a frase me leva.

Qual seria o momento certo para você diante da vida? Pensei em Tetê e Celestine e pensei nas asas da borboleta que ainda sangrava. Depois, Luci, pensei no nascimento das estrelas e das protoestrelas que nasceram e alguém fotografou.

Uma anciã da aldeia me disse hoje que a beleza da vida está em morrer e fiquei pensando nas vidas recentes que vi aqui, entre as vidas de gente, de bichos e de estrelas… afinal, de contas, o tempo é esse nascer constante entre vida e morte.

beijo meu,
Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Ortega 

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

29 – …ela pensou que algumas viagens são mais partidas que as chegadas.

Bambina mia,

a lua aparece no quadrante leste do quintal e a cena que se apresenta para mim traz esse misto de sensação que você sabe bem. A emoção do seu dia Coloco tua playlist no celular e vou me envolvendo de carinho por você.

A lua está cheia e deslumbrante! Já é manhã de 29 – madrugada ainda – e assim como acontece quando chove, quando vejo a lua chamo seu nome: Lunna tu! É o nome da “sua” playlist. Sempre ouço. Acho que é uma maneira de me ligar a você, mesmo dentro dessa distância que nos separa.

Já tivemos algumas partidas e chegadas e nossa história tem algumas cenas no aeroporto e pelas ruas do seu lugar. Eu mais cheguei aí do que parti? E se eu disser que sempre que parti me deixei aí no seu abraço e do tuo bambino?

Hoje, revendo as lembranças, percebi que os anos e essas datas não cabem em nós. A gente é de antes, desse e de outros tempos e algumas coisas nos ligam para além de outras pessoas e tão somente nós sabemos.

Você, comigo, é sempre oferta.. e confesso que algumas datas me tocam mais do que outras, como hoje. Tuo dia e você já sabe dos desejos do mio cuore para o tuo.

Então, para além das palavras e meu amor todinho dedicado para você vim trazer meu abraço.

Já te disse que sou grata ao universo e todas as folhas das árvores do mundo por você em minha vida? Já te disse que para além de partidas e chegadas nossos caminhos se cruzam, de alguma maneira, em outro tempo, outra história como se fosse a mesma?

Eu te amo e eu te amo tanto! Você é um dos melhores presentes que o universo me deu.

Auguri!
Grazie Mille!!!
Bacio
Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Ortega 

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

28 – caminhar pelo mundo de braços dados com o outro, com os outros

Lisa,

eu me lembro bem quando te vi de longe, atravessar a avenida com seu riso largo… o lenço tão peculiar na cabeça e o jeito leve de andar com os outros. Podia ser qualquer um, os invisíveis da esquina, os animais de rua.. lá ia você junto, sendo caminhante e oferta de abraço. Foi paixão ao primeiro passo.

Você nunca me deixou caminhar sozinha, mesmo longe, lá estava você e seu olho de amparo. com os ditados populares na ponta da língua: quem tem amigo tem tudo e você desfiava vários fatos onde um amigo te socorreu.

A minha mãe dizia que você era uma corda, dessas que puxa a gente de qualquer lugar e levanta. E você respondia sempre com um sorriso. A gente sabe que em alguns caminhos há labirintos – e esses, a gente tem de desvendar sozinho – qualquer coisa assim, de atalhos e desvios e dentro dos seus ditados conhecidos você diria que é muito importante saber que mesmo que sentíssemos sozinhos, haverá alguém nos esperando no fim da estrada.

O dar os braços ao outro já é parte sua e dessa estrada bonita que você desenha no seu dia a dia. Não só aos comuns seus, mas aos desiguais dos outros. E hoje, quando na maioria das pessoas está frio por dentro, você é o colo quentinho que eu admiro e amo.

E eu sou muito feliz por estar com você nessa caminhada!

Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Ortega 

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

27 – No balaio ancestral, carrego em meu dna minhas avós, madonas nonagenárias!

Vó Léo,

a carta seria para minhas avós, de quem carrego no dna a ancestralidade na alma – não nego – mas, resolvi te escrever para declarar meu amor por você. Quando me casei com seu neto, ganhei a avó que desejei a vida toda e não tive.

Minha nona Mariana – razão do meu nome – navega nas minhas lembranças de menina com o olho miúdo, igual ao do meu pai e nem sei até onde é fruto de memórias vividas ou se é invenção de parte de histórias que escutei. Carrego dela o nome – não mais do que isso – e nem um cheiro de bolo assando, de colo, de aconchego de vó mesmo.

Já minha avó Ana Maria – que senhora conheceu e foi amiga desde a infância – não tenho memórias de vó. Apesar de ter vivido grande parte da adolescência e vida adulta perto dela, não a tive como avó. Lembro-me bem dos cabelos longos enrolados em um coque perfeito, do vestido amarelo claro e o perfume que chegava sempre antes dela. Nunca tive dela essa coisa de abraços, de cuidados de vó e tudo bem.

Então, vó Léo, eu ganhei você e junto vieram todas as coisas de vó que eu sempre imaginei ter. Os abraços, a alegria, o afeto, os bolinhos de chuva, a comida quentinha e o chá de alecrim.

Sabe, vó Léo, ainda tenho comigo coisas suas e mesmo depois de sua partida, a sinto tão minha em tantos momentos sendo minha vó. De alma, de abraço, de laços e de muito amor.

Grata por isso!
Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Ortega 

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

26 – Alguém falava da vida, de sopro

Quando o grande amor da nossa vida e o grande
 falhanço dela foram ou são experiências
coincidentes, indestrinçaveis —- uma mesma
 e única coisa: bonito serviço —- o menos que
 pode dizer-se é da hecatombe, entre mortos
e feridos, só nós é que não havemos de escapar 
Rui Caieiro

Querida Renata,

Estava cuidando dos casulos no meu quintal e quando uma borboleta pousou em minha mão me lembrei de te escrever. Ultimamente, tem sido difícil, dentro do nosso tempo, conversarmos… te escrever, seria mais fácil, na docilidade dos dias.

Quando eu te vi – me apaixonei – com esse olhão que desnuda a alma – e atravessei tempos para tentar descobrir onde nos encontramos antes. Podia ser em outro século, em outras eras… podia ser apenas na cumplicidade da dor. Mas, antes das perdas em comum, nos abraçamos e sentimos essa ligação.

Eu conheci o tempo da ternura… do urgente urgentíssimo com você. Da mãe e mulher bravia – medrosa, ás vezes – que vê a bondade e gentileza nos outros. A que se mostra e se esconde.

Renata, eu queria te falar segurando suas mãos, ouvindo suas desculpas esfarrapadas quando erra. O olho grandão com medo da minha bronca. De você eu recebi o silêncio, igual ao farfalhar das asas da borboleta que pousa em meu dedo, como se quisesse a aprovação de que mesmo errando, fez a coisa certa… mas, eu sou daquelas que não acredita que os fins justificam os meios, e mesmo em seu jeito desastroso de olhar e querer me puxar pelas mãos, nesses dias, eu fui apenas monossilábica com você.

Você é a ternura que eu falo… a voz, que mesmo que não ecoe, entendeu minha dor. O abraço que mesmo não dado, foi caloroso. Você foi a cidade, a aldeia, o grito, o silêncio, o refúgio, o mapa que me encontrou e foi puro aconchego mesmo sem dizer nada.

Só queria dizer que a geografia não vai nos separar… eu, quando ver um filtro de barro, vou me lembrar de você e quando ouvir a palavra urgente, vou te buscar nas mensagens e na memória o urgentíssimo com seu sotaque e riso… e eu, que me comovo por tudo, vou lembrar, que em nossas dores, descobrimos que a vida é um sopro e que esse olhão reinventou a palavra amor dentro de mim.

Grata por isso!

Mariana Gouveia
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Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Ortega 

Divã · Scenarium Livros Artesanais

25 – Você e eu, frente e verso

Ph: Jover

O amor dormiu na minha mão… tinha a leveza da asa e fazia o vento gerar canto. O amor chegou com nome de ave, de todo dia, em prece, como oração. Como uma sonata na vitrola antiga. Quase vintage dentro de mim. Ganhou contornos de abraços e tive sorte de voo. Esse amor veio traquino e com rodopios no ar. É um menino, com ares de passarinho. Beija a flor. Diante do espelho ele me vê e busca a alma da flor, que no jardim se abre. Atua como música em seu canto e para as horas de encanto faz de minha mão, seu ninho. Ah, esse amor pequenino que se agiganta e vira presença ali, no canto da sala, no galho da árvore seca do quintal. O amor mora aqui e amanhã surgirá como se tivesse dormido fora e que morria de saudades de mim.

Mariana Gouveia
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Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Ortega 

Divã · Scenarium Livros Artesanais

24 – Falar do que é teu, não posso

Ph: Pinterest

O quadro de Kandinsky mudou de parede, em silêncio me pergunto o motivo e como se adivinhasse a moça de branco responde que foi a pedido dela e o queixo aponta para a porta azul e ela se abre.

Falo do pássaro novo que chegou no quintal e de como suas cores combinam com o quadro da ante sala. Ela ri, diz que não trocou de quadro por minha causa. As cortinas lilases de antigamente não existem mais… a veneziana é antissocial – eu acho – penso em voz alta. Ela ri. Acho bom esse sorriso leve. Não posso falar do que é teu, não posso! Foi um combinado nosso na última vez.

Ela pergunta das metamorfoses das borboletas e se o calor atrapalha os casulos de que falei da última vez. Mais uma vez, me lembro de que alguns assuntos são proibidos hoje. Conto que achei algumas asas soltas no quintal. Pensei que elas foram vítimas de algumas das lagartixas que moram no meu lugar. É engraçado ver os olhinhos delas assustadas com os latidos de Yoshi. Ela ri… fica leve.

Eu me calo, a cortina estranha me chama até a janela. Lá embaixo, tudo tão mínimo. Pequeno… parece as miniaturas da minha estante. Mais uma vez, penso alto. Ela ri e me acompanha até a porta. Paramos em frente ao Kandinsky… não falamos de coisas combinadas antes, mas percebemos que não adiantou. Mesmo sem falar, você estava ali, no meio de nós.

Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Ortega