Inaugurava em mim o outono e a voracidade dos dias. Mora dentro de mim as tuas digitais e os caminhos que percorro em tua pele. A folha que cai enquanto o corpo treme. É preciso sobre(viver) dentro das estações.
Mariana Gouveia Desvios para atravessar quintais Scenarium Livros Artesanais
Nisia surgiu por acaso. Era a vizinha da terceira casa da rua sem asfalto onde morei por cinco anos. Eu, com os meus dezoito anos descobrindo a sexualidade e ela, saindo de um casamento violento, sedenta por liberdade. Embora bem mais nova, parecia que era o contrário.
Quando vi o sorriso dela pela primeira vez — que nem era dirigido para mim — senti que fui fisgada.
Um aceno, as boas-vindas e quando dei por mim, estava adentrando a casa dela, como se fosse minha.
Ficamos amigas e ficou impossível ver uma sem a outra.
Como eu adorava ver o riso solto que Nísia oferecia a todos e ela adorava as minhas tranças.
A princípio a conversa foi sobre livros — uma paixão em comum.
Mas não era a única: vestidos, flores e comidas.
Eu adorava vê-la atrás do balcão de sua cozinha de piso queimado vermelho, preparando petiscos e servindo a minha boca, com sua gentileza rotineira.
Com ela, aprendi tudo que sei a respeito de vinhos. Foi depois de umas taças a mais que nos surpreendemos tão próximas uma da outra, com as mãos buscando pele e revolvendo toques.
Nem eu e muito menos ela tinha experimentado o feminino. Mas era como se conhecêssemos o corpo uma da outra e soubesse por onde avançar e como agir.
Não houve medo ou recusa. Nós oferecemos aos caprichos…
Nísia tornou-se minha amante, mulher, namorada e amiga. Tudo que queríamos era estar uma com a outra, uma na outra pelas horas dos dias, das noites e se o tempo parasse, melhor ainda.
E como tudo começou em um rompante… O fim seguiu pelo mesmo caminho… como se fosse uma rua sem saída.
Eu me lembrava dela como se tudo que experimentamos fosse um sonho. A realidade não cabia dentro de tudo o que vivemos naqueles dias.
Ela surgia com seu jeito de menina e aquele andar esguio de quem aprende a se equilibrar em saltos, cambaleando vez ou outra. Procurava alguma coisa no meu armário. Tinha predileção pelo soutien vermelho, que ficava perfeito em seu corpo moreno.
Exibia-se para o espelho e enviesava o olhar para se certificar de que eu estava ali, a espiá-la.
Ela me olhava com fome de uma vida inteira.
Passava o dedo em minha boca. Dava ordens. Eu cumpria. Aqui, bem aqui! — e ali… Eu descobri o paraíso.
Bebia no ápice, meu gozo. Andava de um lugar para o outro e o céu e seu eclipse solar.
Éramos diurnas, feitas de sol… e para abrasar o calor: a água…
O sabonete passeando pela pele. Ela ficava quieta num canto e eu a falar e falar… da estação preferia. A Primavera era ela… Eu era o outono. A maneira como o sol ardia lá fora. O halo ao redor do sol e eu ao redor dela. Não sei se era sonho… parecia que era.
Eu via a Lua dar uma mordida no sol. O eclipse para ela era poesia e eu era um verso em sua boca.
Mas quem escrevia era eu… E fiz dela um parágrafo inteiro. O conflito que o conto pede. O fio condutor de uma trama perfeita. Um romance com começo e meio…
Ela era a protagonista e eu, a narradora. Tudo na Primeira Pessoa… do nosso plural.
Cenas e mais cenas onde beijos lambem bocas e a línguas passeiam pela pele. A lua a parir mil estrelas dentro de mim. Grávida de nós duas e um parto da soma dos iguais.
Estava no quintal da frente a olhar para o céu, quando ela apareceu e acenou. Prometeu voltar… e se foi.
Antes, deitou na minha boca um beijo de até logo. O sabor que ficou… foi de adeus.
Na minha mão direita, uma flor — coisa de música antiga que, vez ou outra, me surpreendo cantarolando, como se a nossa voz se misturasse de novo e de novo e de novo… principalmente quando passo pela rua de terra e olho na direção da casa onde agora, residem outras pessoas.
Parece sonho… e talvez seja!
Mas, eu ainda tenho na boca o gosto do beijo… e na pele o jeito do toque e na vontade, a fome-sede e as minhas mãos a temperatura
de onde venho a palavra dama tinha outro sentido. Talvez seja aquele mais antigo, cheio do charme do interior… por isso, talvez, meu questionamento em dizer o que a editora pensou ao citar a palavra dama. Eu acho que caberia mais a palavra mulher e suas nuances. A mulher e sua escrita aguerrida, a mulher e sua luta diária. Mas, já que falamos sobre escritos vou me ater aos escritos – por uma dama – E claro, que em minha lista você e seu clássico Lua de Papel em sua trilogia ocupa um espaço único. Ah, tá!… você vai dizer que sou suspeita e sou! assumo-me fã dessa trilogia e as mulheres que você retrata nelas.
Minha menina nuvem Suzana Martins e seu InverSus é esse arrancar de pele, de se desnudar e eu sou muito babona nela. Suspeita? Totalmente! E cabe inteiramente dentro do mio cuore.
Faço reverências todas as vezes que leio Rozana Gastaldi Cominal. Ela é maravilhosa e nos alcança com seus escritos vorazes. Retrata a mulher em seus mais variados jeitos.
Katia é essa explosão! Labareda. um UAU dito em voz alta e entre suspiro… E você sabe de meu começo de história com Katia Castañeda. Para mim, mais do que o olho de admiração, vem o fogo de seus escritos. É de arrepiar a pele e de queimar a alma.
E confesso, bambina, que quando leio Adriana Aneli eu sinto o sabor do espresso saindo da cafeteira mesmo sendo outro livro dela que esteja lendo. A escrita é saborosa e degustativa. Por falar nisso, vamos tomar café?
E para não dizer que não falei de damas para além das escritoras da Scenarium nem vou dizer nada sobre a escrita de Jane Austen, porque foi através de você que me vi debruçada nos escritos dela. Portanto, isso é culpa sua!
Claro que faltaram mulheres fabulosas da Scenarium e outras mais. Porém, em seis fotos eu só consegui absorver e sorver em instante o que me inspiro em você. Daqui a dois dias o mundo falará do dia internacional das mulheres. E depois disso, a roda do tempo girará até o próximo dia 08 de março e essas mulheres bravias terão sempre escritos para me inspirar dentro de minha forma de dama, “quase” recatada e do lar.
Na cadência dos teus abraços Sou uma marionete dos Desejos
E me perco — mais de uma vez — em teus Labirintos!
Uma peregrina em tua pele branca
A boca repete em idioma estrangeiro o quero-te… enquanto me despe. Te encaro dentro da minha conjectura — ilusão provocada pela alta temperatura que vaporiza o teu corpo quando tento tocá-lo…
Mariana Gouveia In, Liláses – o estado da pele Scenarium Livros Artesanais
Porque eu escreveria qualquer conto onde você fosse o personagem principal da minha vida.
Ele sempre chegava primeiro e escolhia o melhor lugar – em qualquer lugar que estivéssemos – me esperava. E sempre me indicava o melhor ângulo, a melhor história, o melhor filme, o melhor amor.
Quando a vida nos uniu, éramos jovens e desde quando o vi pela primeira vez, já sabia que o seria o único e para sempre. Me mostrava sempre o imprevisível das coisas e o que podia ser melhor, mesmo dentro dos erros. E quando me chamaram de louca – por infinitas vezes – enlouqueceu comigo e em qualquer homenagem que eu tivesse, estava ali, aplaudindo sempre. A me guiar e me ajudando a manter minhas memórias, ser meu norte nas estações.
Era o ombro certo do meu amparo e a acolhida em cada chegada. Como se estivesse sempre ali. Às vezes, ele me dizia: você é o sol e mesmo quando em alguns momentos eu me sentisse lua, acreditava… porque era ele quem dizia.
E no espaço sem tempo, era minha morada. O gerador do vento. O amor mais antigo que vibra em mim quando eu contava os dias e meses e anos.
Quando percebi, ele era o humano preferido dos meus dogs – ou eu dos dele – e a mãe de seus filhos. Dos que não nasceram e do que ainda é nosso, nesse tempo e espaço.
Dito isso, aceito não possuir mais nada além dessa leveza de riso, de sopro, de mãos estendidas e de embarcar em meu mundo. O mundo que é meu e dele.
A primeira vez que vi os olhos dela… foi através da cortina da casa de Kaori. Um vento balançou a renda lilás e o vulto surgiu através da janela basculante. Eram da cor de avelã… ingrediente mais usado nas suas receitas. Reparei que acontecia um pedido de socorro dentro deles. E senti que ao socorrê-la… me afogaria…
Mariana Gouveia Colcha de Retalhos – Scenarium Livros Artesanais Você pode pedir o seu aqui
Ler as suas palavras me fez viver dentro do seu afeto. Como podemos nos dizer vivas nessa redoma doida que nos atinge em cheio? Onde anda minha segurança perante os meus defeitos?
Como a mulher que escreve diferencia da mulher que tem irmã, sentimentos-pensamentos não tão comuns dos normais.
Eu acho os escritores anormais.
Eles vasculham almas além das deles, expõe vontades escondidas no oco do silêncio e no fundo manipula nossas vontades. Por isso, a frase que me escreveu me tocou tanto: Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro…
Você tem noção, irmãzinha, de que essa frase será descrita/escrita/falada/contada/cantada milhões de vezes num futuro que não sabemos?
E como saber qual é o defeito que me atinge? E qual molda minha alma chamada tão sua? E do quão estranho é essa relação comigo mesma? E que tenho uma irmã escritora que me absorve sempre?
Os conselhos me fazem rir… será que você mesma os segue? Sei da intenção por trás das tuas palavras e meu coração se aquece com o seu cuidado. Somos parecidas e isso me compadece na alma.
O desassossego que me invade, deve ser irritante para você e sei que grande parte do escrito cabe tão bem em você, quanto em mim. O fato é que, em você, elas explodem em sentimentos e, talvez, por isso, seja menos avassalador quanto em mim. Em mim, eles explodem! Causam confusões e perco-me de mim diversas vezes.
Fico pensando em como quatro anos te mudou tanto e de como isso poderia ser revertido. Há coisas que nos mudam para sempre. Dizem que o caminho nunca é o mesmo quando passamos por ele… ou seria o rio?…
Tudo muda com o tempo e sabemos que tanto eu quanto você já não seremos mais as mesmas, não importa se rio ou caminho. Eu a vejo corajosa e bebo dessa fonte para enfrentar os meus medos.
A resignação só combina com você até certo ponto.
Tenho certeza de que dará voltas e será sempre a irmã de que me lembro e admiro. A mulher que tem o poder de dominar o nó vital sem se esgueirar nas estranhezas do outro.
Quando você se refere ao respeito a mim, me faz refletir sobre quando isso deixou de ser importante para mim. A gente rasteja mais do que devia aos outros e quando nos damos conta, viramos uns marionetes…
Mas vou buscar a perfeição dentro de suas palavras.
Viver para saber a diferença do céu e inferno. Como saberemos, Clarice? Onde é o fim de um e o começo do outro? Vou tentar ser eu e basear meus atos nos seus escritos.
A vida é um sopro para além da alma e sinto que a minha passa com o drama da poesia e a graça da comédia. Deveria dizer-te que sim, que tudo será como diz e que quando retornar a vida seguirá igual ao que era antes… Mas, diga-me se antes você não pensava no agora, como está? As mudanças causam-me medo, de sobremaneira que tento ser igual todo dia. Não é covardia, como dizem os outros… É apenas preguiça do sentimento que esfria as rotinas e as tornam banais. Também gostaria de assisti-la sem que soubesse. Seria minha irmã digna de raiva por algum motivo? Esse pensamento me arranca sorrisos quando a imagino fora de si, por algum motivo, ou a própria personagem que escreve. Mas sei que ainda assim, você seria a minha irmã de sempre e que eu admiro e a personagem, cópia que vez ou outra eu seguiria.
Era para ter te escrito e falar das coisas neutras, e esquecer um pouco a sinceridade que o momento exige, mesmo sabendo que podemos e vamos fazê-lo… falar do sol que amarela as paredes da casa ao lado até quase o fim do dia. Falar do vestido de flores delicadas que comprei e dizem – combina comigo – para me arrepender logo depois e nunca mais usá-lo… Do weekend que se encerra com ares de outono, com as folhas das árvores da rua caindo, espalhando um farfalhar que parece canção rua afora.
O que me resta é desejar-te aqui para o abraço demorado, o riso cúmplice e a alegria compartilhada para quando nos reencontrarmos.
Abraço com saudades, Sua irmã
Carta publicada no Coletivo Scenarium 8 A Terceira Noite Scenarium Livros Artesanais
Te escrever é como rabiscar a parede para deixar algo registrado. Lembra que já fiz isso? Hoje, faz parte do passado — ou seria das minhas lembranças? Escrevi para você atrás da porta da azul do meu quarto. Grande parte das palavras direcionadas a você se cumpriram. Se bem que acho que não foi arte sua… Ouvindo Leon nessa tarde atípica, sem o calor dos dias quentes que quase queimaram a pele, quero estar com você nos próximos dias-meses-anos, outros tempos. Quero ver o ipê se desfolhar por inteiro no meu quintal. Ele ainda é uma árvore-bebê. Apesar de ter dourado os dias, quero vê-lo derramando a suavidade das pétalas sob os meus pés.
Quero ver o pé de jabuticaba dando frutos para que eu possa colher risos nas bocas das crianças da minha vida e quero você ali, a espreitar os muros, fazendo florescer esse desejo através do tempo.
E quando a palavra saudade abocanhar meu coração, quero sentir a nostalgia desse momento.
A música que toca será outra? Ou ainda será a voz da mesma artista a ecoar por aqui. Encantos mudam, você sabe. E para além das coisas que ainda nem sei se vou viver… haverá despedidas daqueles que amo e dos que não amo tanto. Saberei compreender que faz parte da vida… da rota que seguimos, sem sabermos a direção.
Você, que está no tempo que ainda virá, deve e divertir com as minhas insanidades. Ouço sua voz jovial me chamando de boba, sabendo que errei tudo. Quem sabe, não serei eu que terei partido, sendo apenas poema nessa dimensão de estrelas.
Sei que você e o Presente nunca se reunirão… é quase o enigma que minha mãe dizia: o que é sem nunca ter sido? E os irmãos em uníssono diziam: futuroooo!
Tudo é um eterno ciclo: o que é hoje, amanhã não mais será. E quando chegar o amanhã, passará a ser hoje. Você é complexo, menino!
Não fosse tempos de incógnitas, diria que vou te esperar para uma conversa ao pé de ouvido, com uma xícara de chá ou um copo de cerveja. Algumas conversas devem ser movidas por qualquer coisa de êxtase. E quando isso acontecer, acho que terei outras cartas guardadas nos meus cadernos tendo você como destinatário.
Até lá! Mariana Gouveia Carta publicada no livro Feliz Ano Velho Scenarium Livros Artesanais
Acontecia o dia na hora das coisas e havia o tempo de o jardim mudar a cor. Os lírios criaram delírios no quintal. A manhã atmosfera de espera, enquanto do céu chovia uma garoa fina. O vento derrubava as folhas secas a pedido da estação. A palavra espera ganhou conforto no abraço. A solidão é esse estado desajeitado de ser dois.
da geografia das coisas Mariana Gouveia Desvios para atravessar os quintais Scenarium Livros Artesanais Ph: Marta Bevacqua
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