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23 – eu estava perdido em mim sem fim nem começo

Era ainda no tempo do amor. Eu nem acreditava em esperas. Pássaros habitavam o interno de mim. A vida corria frouxa e passiva. Eu era os olhos dela para o encanto. Ela, o encanto de mim. O tempo passou. Veio luas e estrelas. Aconteceu o perdido na dimensão do fim. E eu virei espera nas horas vazias. Fiquei oca de ninho. Um pássaro de luto repousa em meu olhar. Nem tem vontade de voo, apenas repousa em saudades. Tão eu, na janela, a esperar.

Mariana Gouveia
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Lunna Guedes – Obdúlio Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

Das rotinas · Scenarium Livros Artesanais

22 – levantar cedo e promover andanças por meu tempo de calma.

A manhã acorda dentro dos meus sintomas. Sigo rua acima e vejo bancos de praça sem ninguém, uma padaria que não abriu, o armazém abandonado da rua de cima… uma calma desconhecida de um vai e vem das meninas do clubes – que hoje não vieram – o pé de ipê que floriu temporão. E eu, que vago em madrugadas insanas nas ruas afora de mim, e parece que todos dormem, menos eu.

Me comove o gato no telhado – só a silhueta – e o cão que me segue até o ponto de ônibus. E fica ali, como se dissesse que me espera amanhã.

Penso em quando o sol nasce, logo além da janela do ônibus e entre árvores os raios me convidam para essa calmaria de dia. O calor ultrapassa recordes diariamente e eu sigo, enquanto todos seguem atentos ao que diz o horóscopo, a previsão, as melhores cenas da novela de ontem, as séries em ascensão e eu só penso na espera do doguinho que nem sei o nome, que nem me prometeu, mas sei que estará me esperando manhã.

Mariana Gouveia
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21 – as palavras fogem sem prévio aviso

Ph; Marcus Vicent

Há solidão que é como um pássaro fixo na árvore sem folhas… os galhos a pender como garras a invadir o espaço e a alma a ouvir a canção que toca ao longe.  A estação invade a tarde e o coração ocupado demais para amar.  Há dias em que caminhamos para dentro da gente, refazendo caminhos, desenhando novas histórias. O outono despertou aqui e as folhas caem como se ficar ali, na árvore fosse penoso demais e o chão fosse o aconchego do colo. O outono aparece nesse sábado morno quase às vésperas do inverno, que não virá também – eu sei. As horas de fim de tarde trazem com elas um vento frio com o qual não me acostumo nunca. Há risos de crianças na rua, as pipas bailam no sol quase morrendo e o pássaro a gorjear na árvore morta, como se quisesse companhia enquanto descubro que seu canto pesadamente no galho, em um céu quase cinzento, quase noturno a anunciar chuva, e palavras que fogem dentro de mim só são ditas na solidão dos cantos das aves. Solidão é uma ave a pousar na árvore morta. 

Mariana Gouveia
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Divã · Scenarium Livros Artesanais

20 – Teatro: artista que sou, prisioneira da vida o que me resta senão representar?

O grito ecoa pela casa, as janelas fechadas ao vento tudo muda de um dia para o outro… à deriva, a vida foge dos planos de viagens feitos. Era uma vez, uma menina paraíso que se encantou. Virou poesia para além das palavras e mudou-se para dentro de si. Tão artista – dona de si, interpreta a dor. As cartas escritas nem foram enviadas e as noites de dores, viraram poemas enquanto no jornal falam de um país de deuses e desertos. Um carteiro indulgente que distribui aromas nas palavras – me disseram que eram poemas – E eu desconfio que era apenas entrega de vontade de voos. Uma canção em outro idioma chega em restos de palavras. Lembra o filme de antigamente a melodia. Representa o instante como se tivesse plateia. Descobri que o próprio pouso é uma oferenda de toque. Havia vivido isso na primavera atrasada. O equinócio é a repetição de um ciclo dentro da estação. Em cinco minutos eu vivo mil ciclos repetitivos do dia. Um acorde em algum canto é momento para ternura.

Mariana Gouveia
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Divã · Scenarium Livros Artesanais

19 – Que nasce na chuva — que a água molha — e poda os voos!

Ela entrou na gaiola. Não havia grades, nem nada. Ela procurou dimensões para onde podia ir. Vagou entre a certeza do chover e do sentir. Ela sentiu. Vibrou como se asas tivesse e desenhou no tempo o riso dela. Também chegou a aspirar o perfume da poesia. Tinha outra textura, outro cheiro. A parede solta abria-se para um horizonte que era cantado numa música distante. Um pouso, um latido, um vento. Tempestades. Líquidos. E ela sabia que havia chuva. Parou as asas. Ficou em silêncio e viveu esse momento quase santo. Nem era tarde nem nada e a vida me vestia de efeitos. Quase em alto relevo eu podia desenhar curvas, ancas, pernas. Pensou ter ouvido o som do gozo dela. Chegou a ouvir. Podia jurar que ouvira o gozo de quem ganhara liberdade. Era de seda, sentiu assim que tocou a carne. A alquimia do verbo é voar. Não importa que horas eram.  Se de tarde, manhã ou noite de estrelas. Nesse lugar dela, lá fora pode ser qualquer hora.

Mariana Gouveia
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Divã · Scenarium Livros Artesanais

18 – O toque suave dos teus lábios adormece em minha boca

Ph: Elena Vizerskaya

Como se eu fosse uma ave presa em tuas mãos abre os pulsos para me livrar da gaiola que é tua pele, teu cheiro e eu em tua carne sonhasse… como se achasse a ilha –  meu ninho –  seu corpo – como se o voo do pássaro pousasse sobre os sonhos de tua cabeça e suas asas delirantes fosse o mapa do caminho que tenho de trilhar… como se eu  fosse o jardim – na tua mão – eu, semente florindo desejos, como se hoje apenas eu fosse a dançarina que povoa vontades  e voasse plena de sentidos… no céu, da tua boca

Mariana Gouveia
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17 – Mas você não sabe se viver é melhor que sonhar

Já faz tempo que o eco ficou perdido no quintal. Descobri cidades inteiras na rua de cima. Sob teus olhos vi esculturas de sombras em paredes claras. A fruta de todo dia no sabor do beijo não dado.
A vida ganha forças nos ninhos feitos nas árvores do lado de cá.
Há um nome oculto na calada da noite. Os varais vivem com os sonhos dependurados e o vento é esse pássaro fácil brincando de asas.

Mariana Gouveia
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16 – adiei o máximo que pudesse o momento-sensação de desespero

O fogo ardeu dentro do sol. As labaredas alcançaram o cerrado e a fumaça, o céu. O boletim do tempo atravessou a meteorologia.  O paraíso tem as chamas dentro das folhas. Havia o dia de amanhã na espera do beijo. O coração gera a expectativa de canção. No verso do poema sua mão sobre a minha onde chuva promete coisas desavisadas que não acontece.
Fala de flores que nascerão no cerrado cinzento e de frutas temporãs de um mês que queima em uma invasão antecipada de outra estação – a chuva da estação era presságio de colheita – o verbo mudado para o instante seguinte. A direção errada de uma nação sem coisa nenhuma.
Tudo muda o sentido das coisas quando o arder também invade a alma. 

Mariana Gouveia
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Lunna Guedes – Obdúlio Ortega 

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15 – estaciono [não no tempo ou na vida-movimento]

Quebrou o espelho de mar, faltou o ar da maresia. Os peixes perderam o medo da ave marítima – me tornei alma errante em um céu de falta – com medo de esquecer seu nome repito todo dia quando acordo – rezo ele ao meio-dia – e resmungo ele na noite, quase em sonho, sono.

Conto minha história em poesia diária. Esse rasgo de água que engasga cada vez que bebo. Uso o amor como se fosse a origem da sede. Devo confessar que quase morri de abstinência. Isso de falta devia ser proibido mesmo… Quebrar essa regra devia causar afogamento no mesmo mar.

Meu rio não conhece outro destino que não seja o de ir ao encontro do mar. Sabe a sal a lágrima que cai. As orações saem como se fossem declarações. Vivo mil anos em uma hora. Tudo esse tempo obscuro que a hora asfixia no vento. Vivo como peixe de aquário que sonha a liberdade da correnteza. A regra da manhã é a pele descamando de amor.

Mariana Gouveia
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14 – caminhei até a porta e sai para sempre

Ph: Ziqian Liu

Às vezes, me lembro que só tenho doze minutos por dia. Esses minutos entre o respirar e as gotas, sempre as últimas – para na manhã seguinte a tela se abrir e anunciar nova programação – que caem trazendo os sintomas que quero esquecer. Não veio nem o sim nem o não. Apenas essa distância infinita, além do muro – e a dureza do cimento e a frase escrita, sangrando os dedos. Apenas esse infinito presságio de que a asa calada já não é mais parte minha. De meu, só os doze minutos e essa porta fechada e a lembrança do pedido do “não me fale mais” quando o sangue na artéria rememora o magna dos que esperam sem expectativas. Gostaria de te amar um pouco menos e talvez não quebrasse as paredes e nem esperasse a primavera chegar. O relógio conta os segundos que restam… As aves fogem das mãos… o vento traz o calor intenso da febre – e do tempo – e a solidão que amarga na boca, a ausência. O silêncio é essa vastidão de memórias na alma desde sempre, dos séculos onde as histórias foram escritas e descritas como poemas de amor. … e a porta que se fechará mais uma vez, como se fosse a última…

Mariana Gouveia
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