Ela entrou na gaiola. Não havia grades, nem nada. Ela procurou dimensões para onde podia ir. Vagou entre a certeza do chover e do sentir. Ela sentiu. Vibrou como se asas tivesse e desenhou no tempo o riso dela. Também chegou a aspirar o perfume da poesia. Tinha outra textura, outro cheiro. A parede solta abria-se para um horizonte que era cantado numa música distante. Um pouso, um latido, um vento. Tempestades. Líquidos. E ela sabia que havia chuva. Parou as asas. Ficou em silêncio e viveu esse momento quase santo. Nem era tarde nem nada e a vida me vestia de efeitos. Quase em alto relevo eu podia desenhar curvas, ancas, pernas. Pensou ter ouvido o som do gozo dela. Chegou a ouvir. Podia jurar que ouvira o gozo de quem ganhara liberdade. Era de seda, sentiu assim que tocou a carne. A alquimia do verbo é voar. Não importa que horas eram. Se de tarde, manhã ou noite de estrelas. Nesse lugar dela, lá fora pode ser qualquer hora.
Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Ortega

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