Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

13 – pequenas partículas penetram em propriedades particulares

Rozana, minha flor,

sei que você não sabe, mas eu sempre tenho um pé de algodão no quintal e te confesso que ele é muito instável. Não aguenta um vento mais forte e vrauummmm… cai… com raiz e tudo e sabe porque te falei sobre isso? Por causa das partículas…

A foto que emoldura o texto eu fiz onde no mesmo galho há a flor e o capucho, e como o pé de algodão está ali por causa das folhas – que é um antibiótico poderosíssimo – eu replanto sempre que ele sucumbe. A semente, é do sítio do meu pai e assim, vou replantando memórias.

O capucho solta fiapos que se desprendem e os sabiás levam para o ninho, Rozana… eles catam tudo que é leveza pelo quintal e levam bico afora para se preparem para os tempos difíceis…

É lá, no ninho que eles aproveitam das levezas daqui e dos fiapos que caem no chão. Lembrei de te contar isso quando li seu poema…

Um beijo,

Mariana Gouveia
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Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Ortega 

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

12 – — minha língua sente o teu sabor e a sensação de fome se amplia

Ph: Mathilde R. Photography

Leonor,

resgatei do baú uma carta que te escrevi anos atrás. Na carta, bem antes de eu ficar sem notícias e respostas tuas, eu dediquei meu amor a você. Era dos mais bonitos – você diria – e eu nem me toquei que ali já havia sinal de fim.

Nas letras escritas no papel decorado eu falava sobre as madrugadas mornas onde nos amamos sob a luz da lua e de como a textura de sua pele atiçava minha fome.

Leonor, você dizia que eu inventava um amor bonito e que a gente inventava o instante e o que me comove é saber que mesmo depois de tanto tempo a sensação ainda é a mesma. Você está aqui, ali, nas letras, nas lembranças e na memória.

Confesso, que fico esperando que as frases que todos falam de que o tempo cura tudo faça efeito aqui, por enquanto, te encontro em cada esquina, como dizia Cesariny e te vejo em cada uma das pessoas que passam por mim.

Quando me perguntam de você eu invento viagens, doenças de algum parente seu para justificar sua ausência e justifico para mim mesma que ainda tem muita coisa que a gente não viveu juntas e eu já tenho a lista de todas elas para te mostrar quando você voltar.

Dou-te o poder, como sempre de decidir isso.

Mariana Gouveia
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Lunna Guedes – Obdúlio Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

das coisas breves · Scenarium Livros Artesanais

11 – Pretérito imperfeito oblíquo de um caos que nunca chega ao fim

Os caos se instalou por aqui hoje. Na alma, no quintal e nos arredores… ainda dorme em algum canto do muro.

Morreu uma estrela ontem. O dia começa com horário atrasado dentro do tempo. Era às vezes asas no quintal. Um menino que voa vem dar o bom dia e de noite quer colo de asa. A morte da estrela não afeta o voo da ave que beija e nem causa efeito no afeto que ele busca em minha mão. Quando ele foge do vento no quintal e não encontra árvores no lugar – que o vento levou – cabe na mão dentro do abraço. O menino é um ser de asas em mim. O menino é um ser de voo na sala. E quando um dia se torna intrigante, doído e fora da lógica ele é um sopro de amor mesmo com estrelas morrendo no céu.

Mariana Gouveia
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Das rotinas · Scenarium Livros Artesanais

10 – Planos e projetos que não saem do papel

Parece que as folhas que vejo pelas ruas não perdem a leveza do toque. Enquanto caminho penso em outras folhas – as que não escrevi – e nos planos e projetos que não saíram do papel. Faltam poucos dias para o início de um novo ano e mesmo não tendo feito uma lista, haviam notas mentais de coisas que foram ficando para trás. Deixaram de ter a importância devida ou outras mais urgentes, se impuseram como prioridade Os pássaros ignoram esse tempo dentro da vontade de voo e eu me encanto com o pátio rosado da universidade, com as flores do ipê temporão. Quase cheguei a catalogar cada folha dele, que se tornava miragem em outros meses que não esse. Olho para a árvore agradecida e abraço o tronco da árvore que amanhã não terá mais nenhuma flor. Todas irão se desgrudar dela e o vento levará a flor empurrando–as em direção ao muro, com seu grafite feito pelo menino que fez a minha tatuagem como se desenhasse um dos meus bordados. Ainda tenho uma bala de doce de leite na bolsa e a palavra doce me abraçará amanhã. Talvez, você volte com a saudade amarrotada, desdobrando meus envelopes rasgados feito tsurus de papel. Talvez, desses envelopes saia um coração laranja. Talvez essa seja a carta de duzentos gramas de palavras, caso a saudade aperte. Talvez o ônibus se atrase e eu possa acompanhar o movimento da flor rosada a dobrar a esquina da rua de cima. Talvez a senhorinha que me chama de anjo – a que pega o ônibus na saída do bairro – para qual eu ofereço o banco acha graça de descobrir que escrevo poemas…  ri quando me pede autógrafo em um livro meu que achou por aí. Talvez. Se eu dissesse amanhã que a previsão do tempo seria uma procissão de estudantes com cartazes de protestos e que eu me encantaria com as borboletas nas flores do ipê que dourou a rua de cima e que deixei um livro no banco do ônibus e quem achou foi justamente a senhorinha que me chama de anjo, você diria que eu pintei um dia feliz? Descobri numa outra rua que a calçada era forrada com as flores rosas, do mesmo ipê que fotografei outro dia e que perguntei infinitas vezes onde vão parar todas essas ruas que a gente não cruza e essas árvores que dão sonhos e histórias que nunca te contei… histórias desses corredores onde a dor é quase bonita diante da força de cada um que escreveu a frase: venci. Em letras coloridas e risos fáceis de quem perdeu o cabelo e nunca perdeu a fé. Eu diria que eu apenas tive impressões do dia seguinte. Sem planos e projetos. Apenas um dia de cada vez.

Mariana Gouveia
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Lunna Guedes – Obdúlio Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

09 – sombras dançarinas ondulavam pelas paredes

Minha menina nuvem,

eu queria tanto estar aí, mesmo que em silêncio, no cantinho dos cães para calar meu desconforto nesses dias. Acho que seria meu refúgio – daqueles que a gente tem na infância – que me acalmaria ou me deixaria nessa luxúria da solidão.

Ontem, quando cheguei, havia um casulo no batente da porta, Su! Já imaginou isso? Deixei a porta sem fechar e me enchi de coragem para atravessar a noite e vigiar para Yoshi não passar por ali. Você, talvez diria: não, Mari, tu não fez isso! E eu diria, que sim! E devo confessar, Su, que as sombras dançarinas pela manhã, marcavam a parede com as asas de quem se libertou.

Como você, eu também gosto dos detalhes e mesmo já estando acostumada ver borboletas parir em meu quintal, eu vibrei vendo a madrugada se desenhando no céu…

Sou canceriana, Su – tu sabes – mas fujo do convencional de choros, de lamentos, inerente ao signo… mas, o destino ou sei lá o que foi bateu duro e em alguns momentos é preciso suspirar e encarar o que não pode ser mudado.

Como se muda o nascer e morrer de alguém? Quem entende a natureza das coisas? Como eu acredito em tudo que é força do universo, Su, apenas acato aquilo que é natural, mesmo não sendo ao meu coração.

Antes de encerrar essa carta em que te abraço e agradeço e te mostro o quanto a vida me é generosa, a parede se desenha em asas e com ela te sopro ventos de amor e alguma nuvem dissipará qualquer sombra em teu caminhar.

Mesmo porque, Su, a vida continua nascendo em meu quintal e as nuvens também e meu pai diria: a vida continua e os nascimentos não podem parar porque o mundo pararia.

Beijo,

Mariana Gouveia
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Lunna Guedes – Obdúlio Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

PS: Ah, esqueci de colocar a nuvem da minha noite quando chamei seu nome no quintal.

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

8 – e meu movimento primeiro é passear pelas ideias matinais

Querida Esther,

queria te dizer que já vi um jasmineiro sobre a chuva, mas foi em quintal alheio e confesso que já fazem alguns dias. Aqui, o sol e seu calor abrasante tem batido todos os recordes nos termômetros das ruas onde passo quando vou ao trabalho.

O meu companheiro tem me ajudado muito com o regador sobre minhas plantas e tenho certeza de que meu quintal sente saudades imensas da chuva. Eu também. Já te contei que o cheiro que ela exala quando cai sobre a terra seca se chama petricor? Acho tão lindo isso! Antes de descobrir isso, eu amava a essência sem saber o nome e chamava de cheiro de terra molhada. Mas, saber o nome deu um charme especial para essa fragrância.

Faz tempo que eu queria te abraçar e faço isso hoje, nesse dia seco e quente. Li você falando sobre como a vida é por um triz e tudo é muito frágil. Você perdeu o amor da sua vida e eu perdi a mãe do meu amor e meu pai. Duas perdas duras em menos de 15 dias e me recorro ao seu texto sobre o jasmineiro e fui buscar Chiquinho em seu banho matinal na última chuva.

Sabe, Esther, amo ver ele se projetar em minha volta logo que amanhece e meu movimento primeiro é passear pelas ideias matinais ao redor dele. O dia nem nasceu e ele já me chama na porta da cozinha e lá vou eu me derramar de amor por ele, assim como você com seu jasmineiro.

Como você mesma disse: uma coisa é um jasmineiro e a outra é o Universo, bilhões de constelações e planetas e satélites e etc. Galáxias, buracos negros e luas e sóis. Mas se não houver um jasmineirozinho para este perfume, de que vale a vida, de que vale tudo? Essas guerras… um jasmineiro abrirá ainda uma flor lá na Faixa de Gaza, em Israel ou na Ucrânia? Tomara. E eu completo, Esther, tomara que um pássaro qualquer sobrevoe esses lugares entre a flor branca de seu jasmineiro e leve pelo menos a esperança de dias melhores, mesmo que não seja um beija-flor como o meu. Tomara!

Um beijo grande,

Mariana Gouveia
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Lunna Guedes – Obdúlio Ortega Roseli Pedroso

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

7 – embolei as ideias fiz um nó depois desatei

Ana,

tenho pensando em você nesses dias e fui visitar nossas memórias em cartas escritas. Fiquei pensando em quando e onde nos perdemos? E confesso que não achei resposta. Tem coisas que simplesmente acontecem, né? É como se tivesse escrito pelo destino que seria assim.

Quando as coisas acontecem ficamos buscando respostas prontas e esquecemos de momentos, que por algum motivo durou o tempo que durou. Meu coração ainda te cabe no instante de afago, de lembrar de tudo que vivemos, das palavras que falamos e você é importante em minha vida.

De repente, algum coisa deu errado, embolei as ideias fiz um nó, depois desatei… o ficar longe não é impedimento de ficar perto e a gente viveu tudo de maneira tão especial que uma vai estar sempre na vida da outra. Seja em qualquer lugar, até nas poesias… te deixo ir com a certeza de que ficar será muito penoso para nós. Te deixo ir com a certeza de que saberá que estarei aqui, par qualquer momento que precisar…

abraço carinhoso,

Mariana
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Lunna Guedes – Obdúlio Ortega 

Scenarium Livros Artesanais

6 – entre sucessivos solavancos projetam veias de anil

Ph: Pinterest

Entre as nuvens e as estrelas, clareia a pele com o efeito da dor. Os cabelos ralos diante do espelho cria ondas em reflexos onde não me reconheço. Sou como a mulher da noite – que vagueia – de janela em janela, o riso molhado na loucura exposta – e a pele – a declamar ausência.
Na penumbra a ecoar o silêncio que só as flores lilases conhecem. Alguém disse um dia que a loucura é lilás e desbota na lucidez da dor.
As mãos a desenhar presença nas sombras da parede – monstros – que me atacam e acionam a alavanca do medo, entre sucessivos solavancos projetam veias de anil.
O último pássaro a ecoar dentro da noite e o universo parecia definir cantata para a solidão.
E ainda tenho a caneta lilás com a qual desenho as flores e a língua muda que não consigo traduzir enquanto fechei a palavra chave que havia aberto o mural do jardim através do silêncio. 

Mariana Gouveia
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Lunna Guedes – Obdúlio Ortega  

Das palavras das cartas · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – anatomia dos passos

Bambina mia,

escrevo-te em um dia mais quente do que os dias quentes por aqui. Está tudo fora do normal e a anatomia dos meus passos buscam sempre os pés no chão. Nem venta por aqui e busco caminhar na calçada fria da rua de cima – onde os flamboyants vestiram as ruas com suas flores – para sentir as pétalas frias na calçada antiga.

Às vezes, bambina, meus passos recebem visitas ou viram pousos em direções feitas no meu quintal… parece que sigo o instinto da anatomia das asas e não dos passos… é quando sinto leveza.

Ou me delicio com os afagos caninos dos passos parados de Yoshi e Lolla… É como se combinassem a pose…

e o instante fica registrado em fotos e na memória… quando me junto a eles no instante em que percebo o momento…

em alguns dias, bambina, meus passos me levam para a companhia do rio… menina que cresceu na beira do rio se encontra e se encanta com a água a molhar meus pés de mulher.

Mas, há um momento de acolhimento em que meus passos ganham anatomia dos contornos do meu companheiro. É quando me sinto segura e certa de qual caminho devo percorrer.

Bacio,
Mariana Gouveia
Projeto fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso – Cláudia Leonardi e Silvana.

Colcha de Retalhos · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

5 – … ela pensou que algumas viagens são mais partidas que chegadas

Ph: Brooke Shaden

Voltei ao seu quintal, e a sua presença é tão forte ali, que nem parece que se foi. As flores continuam perfeitas e as árvores em sintonia cantam a canção do vento que você dançava.
Parecia que estava ali. Passei por entre os azuis das Hortênsia que você ganhou de alguém.
O pé de amora está no auge e na exuberância – palavra que você repetia para qualquer coisa fora do comum – das frutas. Até parece que sua risada está ali, e a essência da geleia que você fazia parece encher o ar.
Geléia de amora é para amar, Maryann! – você dizia!

Minha missão era esvaziar a casa de suas coisas, de você. Mas vim embora com todas as lembranças. O diário que me continha em cada dia, a toalhinha de crochê que foi um presente há alguns anos atrás. Conto um mês hoje, e logo serão dois, 11. Logo será ano e volto do seu lugar com a imagens das poesias escritas no seu quarto onde a vida flutuava em você.
Qual planeta você habita hoje? Qual emoção te move nesse plano além do olhos?
– Marte é logo ali, Maryann! Basta bater no calcanhar três vezes e dar um pulinho que você já embarca.
Acho que perdi o jeito! Vejo Vênus, Órion, vejo todas as estrelas. Não vejo Marte.
Marte, hoje mora dentro de mim.

Mariana Gouveia
In, Colcha de Retalhos
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Lunna Guedes – Obdúlio Ortega  e Suzana Martins