Scenarium Livros Artesanais

4 – Sem palavras, sem verbos, sem elos

É ainda a minha lembrança e meu abandono. Os olhos que de tarde, cansados procuram seu rosto nas pessoas que passam apressadas. É a canção que toca nas ruas antecedendo o natal. A brevidade da minha espera. Mas é dor e cansaço – então deixo que saia de mansinho como quem não partiu – por isso, fico em silêncio e finjo não sofrer nas tardes mornas e nas madrugadas serenas, porque o ir tem a mesma magnitude do ficar. O ir é esse avanço no tempo para mudar o que já não pode ser. as escolhas são como as gotas da chuva e o voo do pássaro – necessários – para que a vida seja adiante, duas casas a mais na rua de cima. Duas perdas doloridas que esvaziam o peito e deixa essa sensação de lotação esgotada. É ainda o amor das lendas, das histórias não escritas, mas que não coube no final feliz. Sem palavras, sem verbos, sem elos.

Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

3 – Coração transplantado procurando resquícios do que já foi humano

Eva,

te contei que vi um ônibus inteiro de Evas? A banda cantava uma música estranha, mas o nome escrito na parte lateral do ônibus me lembrou você. O tum tum dos instrumentos musicais me fez lembrar seu coração.

Lembrei-me de que há quase um ano atrás você renascia e de sua história tão longa em sua vida curta de menina.. dias desses, eu a vi, atravessando a rua, de pés no chão e não resisti e registrei. Não consegui pegar o riso, nem seu olho curioso para viver.

Em algumas de nossas conversas você quis saber de quem seria o coração que você ganhou. E lembro-me de dizer que era seu, já que você ganhou – Seria de uma pessoa boa? alguém feliz? – de dentro do meu abraço respondi que essa seria sua missão na vida. Transformá-lo em um coração feliz e vendo seu riso, atravessando a rua de pés no chão.

Estou guardando as cartas que te escrevo para a gente ler algum dia, mas tenho certeza de que esse coração carregará a leveza do seu viver e trará dentro dele todo resquícios de humanidade que a vida te dará para além da rua de cima.

Um beijo carinhoso,
Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

* De acordo com o Ministério da Saúde, no primeiro semestre de 2023, foram realizados 206 transplantes de coração no Brasil, um aumento de 16% em relação ao mesmo período do ano passado 1. Além disso, a ABTO divulgou que, no mesmo período, foram realizados 4247 transplantes no país, sendo mais de mil de fígado e pouco mais de 200 do coração . Ambos os órgãos também bateram recorde histórico de transplante.
Ainda de acordo com a ABTO, no primeiro semestre de 2023, foram realizados 2.9 mil transplantes de rim no Brasil. Entre eles, meu irmão, que recebeu um rim e está em recuperação. O número de doadores efetivos no primeiro semestre deste ano em comparação com os anteriores foi o maior registrada nos últimos 10 anos. No entanto, mais de 40 mil pacientes estão à espera de um órgão. E destes, 92% aguardam por um rim, entre elas, minha irmã caçula, que sofre de insuficiência renal crônica.

COMUNIQUE Á SUA FAMILÍA QUE VOCÊ É UM DOADOR!

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

2 — seremos deuses de cada dobra escura

Luci,

te escrevo em uma madrugada já no dia 2 e aqui a gente “comemora” o dia dos mortos… eu ainda estou com a alma contando os dias em que meu pai virou morto, Luci. Tudo que posso te dizer é que cada vez mais eu odeio esses dias de calendários estranhos.

Fiquei horas na janela da casa dele vendo as galinhas d’angola e o animal parecia conhecer minha dor. Ficou intacta, quase inerte, ali, entre o muro e o telhado curto da casa dele a compor meu silêncio. Pensei na alegria de meu pai com esses seres pintadinhos – será que foi por isso que passei a adorar os poás? – e as perfeições nas suas penas. Para mim, era como se elas estivessem sempre preparadas para a festa, Luci… modelo anos 60. Tudo combinando.

Sabe, Luci, meu pai tinha o contato certo com os deuses… da água, do fogo, do ar, dos animais, do vento… de tudo quanto é coisa que podia ter deuses e para ele, conhecedor de tempo e de um Deus maior, ao maior aceno com a palavra, tirava o chapéu panamá e erguia os olhos aos céus. Eu achava isso de uma fé que muitas vezes fazia o sinal da cruz quando via meu pai fazer isso. Era como se uma entidade tomasse conta daquele homem tão forte, tão simples, tão pequeno diante do universo das coisas.

Desde quando falei para ele do seu pai, Luci, ele confessou uma vez, durante algumas de minhas visitas que ele passou a pensar nos estuques verdes da sua parede e sempre pensava se seu pai já estava comendo normalmente e se ele entendeu o recado do pajé… Meu pai tinha esse dom de ligar todas as coisas em uma só, porque segundo ele, Luci, todo universo é pleno.

O dia, já vai amanhecer, Luci e a angola entoa seu canto em um tô fraco tô fraco tô fraco incessante… as sombras ainda encobrem os galhos das árvores. Parecem os deuses do mal das histórias que meu pai contava. Seremos deuses dessa dobra escura, Luci? Te pergunto, porque já não tenho mais meu pai para perguntar.

Um beijo,
Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes  Obdúlio Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

Scenarium Livros Artesanais

1 – À beira das palavras… um gole de café.

À beira das palavras… um gole de café
(In)versos, Suzana Martins

Pai,

eu confesso que ensaiei mil palavras e busquei nas lembranças coisas sobre você. Uma das minhas irmãs disse que não esqueceria seu olho pequeno, com tanto discernimento para a vida… Já eu, não me esquecerei do café. Desde ao plantio até o líquido negro na xícara.

Lembro-me de que uma vez você exaltou a xícara – o café deve ser sorvido como se fosse o remédio para a cura, e para isso, o recipiente em que se bebe deve ser de igual valor. Seja na simplicidade ou no luxo. Tem de ser xícara – e desde menina, pai, o café me ligava a você. Assim como a chuva.

Quando descobri sua partida, chovia. Eu sabia que não teria você esperando com essa ansiedade de pai na porta… Mas os quase 1000 kms de distância me fez recordar uma vida inteira de cartas, de conselhos, de abraços e de gestos.

O cafezal em flor, o repassar nas fileiras contando os grãos, a colheita, o processo de secagem e depois, a torrefação, o moer e por fim, a alquimia de fazer o líquido. Ainda me lembro das borbulhas e do cheiro a invadir espaços.

Na hora de te entregar ao universo pleno, me fizeram dizer palavras, pai… e isso tudo funciona como um teatro. Era como se eu te escrevesse uma carta e ali falei com você como se brindasse sua vida.

Eu ainda vou te escrever várias cartas, pai e agora, não será mais o locutor da rádio local que lerá… será o vento que te levará minhas palavras e cada vez que minha xícara couber o café, meu gole inicial será sempre em sua homenagem. E meu coração terá sempre esse espaço dentro de todos os ensinamentos e memórias.

Te amo infinito,

Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes Obdúlio Ortega Roseli Pedroso e Suzana Martins

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

*Quero fazer crer que é tardíssimo, ou qualquer outra urgência que te acarinhe para longe

Leonor,

quando a tarde vai caindo e o céu ganha os tons laranjas da primavera no meu quintal – esse mesmo que te viu dançar em tardes iguais – eu penso é tarde, Leonor… muito tarde para que chegue alguma respostas das mais de mil cartas enviadas.

É tarde para esquecer também, já que algumas coisas chegam até mim com todo simbolismo que nos rodeou. As ruas do meu bairro com casas coloridas que você fotografou. Quero fazer crer que é tardíssimo, ou qualquer outra urgência que te acarinhe
para longe..

De vez em quando eu esqueço, Leonor… nesses momentos em que o tempo acontece fora do padrão dentro de mim… esqueço até da estação que me rodeia e a vida segue constante no ritmo de antes. Mas logo depois, alguma coisa me leva até seu nome – seja uma canção, um voo de ave, um sol ardente, a chuva tardia de verão, os lugares onde fomos e tudo volta de novo.

Sabe, Leonor, às vezes, parece tudo distante e ao mesmo tempo parece que foi ontem… eu ainda reviro o baú com suas coisas e vasculho as correspondências que o carteiro deixa na caixa de correios. Também escrevo cartas que não envio, como essa de agora, só reafirmando que ainda te espero.

Beijo meu,

Mariana Gouveia
Missivas de Primavera
Scenarium Livros Artesanais
* retirado do texto do livro Poética de Ana Cristina César

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – dos corações que vejo

“Ela me dava a mão e então nada mais faltava.
Bastava para que eu me sentisse bem acolhido. Mais que beijá-la, mais que dormirmos juntos, mais que qualquer outra coisa, ela me dava a mão e isso era amor”.

Mario Benedetti

Bambina mia,

acostumei-me a te escrever no dia 6 de cada mês… talvez, porque ninguém entenderia essa coisa estranha de ligar fotos com carta – ou missiva, como tu gosta de dizer – mas você sabe que em alguns momentos, imagens e palavras se unem em uma perfeição para além do que somos. Talvez, por isso, eu quis falar sobre o cuore… os que vejo aleatoriamente, são os cuores que meu olho alcança.

Já te contei, bambina, que meu olho vê coração em tudo quanto é lado? Era uma folha aleatória? Não! Vi um coração na secura do cerrado… os meus, dizem – que sou assim desde criança – que vejo coração em tudo que encontro.

A gente sempre brinca que coração é um músculo, mas para nós a palavra tem o ritmo do tum tum, mesmo quando ele absorve, em alguns momentos as lágrimas dos olhos. Ou quando a folha imita o choro da natureza nas gotas de chuvas. tanto eu quanto você amamos esse momento.

E as vezes, bambina, o nosso cuore parece metade… seja ocupado por alguém, seja cheio de saudades… confesso que sinto saudades – embora saiba que a palavra não te alcança – de tantos momentos com vocês. Dizem que nessa hora o cuore se ocupa com as lembranças dos momentos bons. Posso enumerar todos eles…desde o encontro no aeroporto ao café da manhã… desde a chegada, ao abraço de despedida…

Bambina, sabemos também que em alguns dias o nosso cuore parece estar em um quarto escuro – conheço essa solidão ou sentimento e tu também – e em outros é como se estivéssemos em uma escola de samba… Dá até pra ouvir as batidas.

Em outros momentos, é como se ele fosse pequeninho e um ser gigante tomasse conta dele. Já passou por isso, amore? Eu já! quando vejo o céu, a tarde, se apoderar das nuvens e o prenúncio de uma tempestade se aproximar, eu abro os braços e meu cuore chama pelo seu. Grito seu nome e preparo para os tuns-tuns… Seja em poesia, ou em cartas, o cuore sempre é o mote principal. Como hoje, que te ofereço o meu em forma de 6 fotos para retratar meus carinho.

Bacio,

Mariana Gouveia
Projeto fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna GuedesObdúlio Nunes Ortega Roseli PedrosoCláudia Leonardi

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

*É mais fácil depois de ter desembarcado tantas vezes.

Messias,

te escrevo nessa tarde de raios e trovões depois de ter ouvido sua voz em uma gravação contando histórias. A carta é uma homenagem à primavera e essa será uma estação diferente e me lembrarei dela enquanto viver.

Meu irmão, a poucos dias de você ter desembarcado mais uma vez, em uma cidade distante para o transplante dos rins, você me disse em uma ligação: é mais fácil depois de ter desembarcado tantas vezes. E vai ser a definitiva!

Você, que desde pequeno foi meu guardião me trouxe a esperança de que, depois de tantos anos dependente de uma máquina de hemodiálise uma doação te faria livre de novo para beber água – que era o que mais te fazia falta.

Quando você ler essa carta já estará fora da UTI, e em ampla recuperação. Quero mais uma vez declarar meu amor por você e do quanto sou orgulhosa de sua força e coragem. Sabemos que ainda será um caminho longo para percorrer, e que ainda há algumas etapas em que a fé será a motivação para esses dias.

Sei que como eu, seu coração está agradecido pela família do doador ter tido a coragem, em um momento difícil optar pela doação. E tenho certeza de que você honrará essa doação vivendo ao máximo e bem, como amor e alegria, como sempre.

São apenas cinco dias de rim novo… a concretização de orações e esperanças. Ainda temos nossa irmã que também espera uma doação. Assim, como você, tenho certeza de que, em breve ela também irá desembarcar no mesmo lugar, para a alegria ser completa… Mas, como você mesmo disse: é muito mais fácil depois de ter desembarcado tantas vezes.

Estamos te esperando, mas seja paciente com os dias que virão. Logo tudo estará bem de novo.

Te amo muito!
Sua irmã,

Mariana
Missivas de Primavera
Sceanrium Livros Artesanais
* retirado do texto o livro do livro poética de Ana Cristina César

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

*Há apenas um quadro, retrato fiel, um cenário que recorta a janela por inteiro.

Ana,

Até anteontem era inverno… o mais quente de todos os tempos – dizem as manchetes – e é primavera, Ana! Poderia te dizer que os dias correram ligeiros. Era primavera dias desses e já se vão 365 dias desde então.

Lembrei-me de que faz dias que não nos falamos. eu iria repetir a velha máxima sobre a correria dos dias, mas Ana, confesso que perdi as palavras para falar com você. Ficamos estranhas nessa jornada de tempos que falamos mais de coisas dos outros do que sobre a gente,

Devia dizer que a a lua está divina hoje, que os barulhos dos fogos me lembrou o fim de ano – que se aproxima – e agradeço pelos cães daqui não terem medo deles. Os fogos é em comemoração de um time que foi campeão em alguma das infinitas copas que existem por aqui.

O calor ultrapassou todos os recordes. Tivemos hoje 42º registrados lá pelas minhas 14:00hs. Você poderia imaginar isso, Ana? confesso que estranhei tudo isso. Nem venta no meu quintal. As folhas das árvores nem balançam, mesmo fazendo o tal assobio que minha mãe ensinou.

Há apenas um quadro, retrato fiel, um cenário que recosta a janela por inteiro, nesse fim de tarde quase noite de uma primavera perdida para nós. Há qualquer coisa assim, de vazio, de silêncios amargos, Ana… diria que é a vida. Suspiro e perco as palavras diante da janela enquadrada enquanto as resgas da noite chega.

Talvez, em um fim de frase dessa carta não programada eu declare que ainda te amo, mas que te deixei só muito tempo com as estrelas, e isso é imperdoável. Como pude esquecer algumas datas importantes para nós? Seria a idade chegando e o calendário deixando de ter a importância de antigamente?

É o amor parado, Ana! Sem movimento, assim como o quintal agora, em um calor intenso e nem venta. É o fim da espera, Ana, e o início de um recomeço seu por aí…

Como diz a frase lida em algum lugar que esqueci: rega o teu jardim, pinta as tuas flores, come as tuas framboesas... e quando sair de vez, não esqueça de pagar as luzes e

Beijo meu

Mariana Gouveia
Missivas de Primavera
Scenarium Livros Artesanas
* retirado do texto do livro Poética de Ana Cristina César


Scenarium 8 · Scenarium Livros Artesanais

Da florada à xícara fumegante

Nasci em uma fazenda de café e cresci ouvindo meu pai se preparando para a floração – era quando a terra se vestia de noiva. Ele dizia e seus olhos brilhavam e até hoje me pergunto se ele próprio não era o noivo à espera que elas florescessem.

Depois da floração, os frutos surgiam verdes e na retórica de meu pai era a época da esperança… como se vigiasse um tesouro ele passava à revista entre os trieiros dos pés de café.

Quando o fruto amadurecia os pés se preparavam para a festa. O vermelho cobria a entrada da fazenda. Como se fosse imagem de filme ou da noiva já vestida para a festa e todos se preparavam para a colheita.

A distinção dos grãos se fazia nos trieiros e dali saía para o experimento e garantir seu nome na qualidade do café que vendia. Ele mesmo torrava, moía e preparava a bebida que nos unia ao redor da grande mesa de madeira, debaixo do pé de sete copas.

Era um dos rituais que meu fazia. E se eu fechar os olhos posso sentir o aroma e a magia daquele momento.

Como um alquimista ele misturava o pó na água e media o tempo exato da fervura… na velha radiola ele ouvia a canção que falava do rei do café e a gente sabia que, naquele momento, com a aprovação do café coado, ele se sentia mesmo um rei daquele lugar. Nunca vou esquecer daquele brilho nos olhos dele.

O tempo nos levou para longe daquele lugar, embora alguns rituais permaneçam, hoje quem torra e mói o café – sob o olhar atento dele – é minha irmã. A velha xícara de ágata ainda é a mesma e o brilho no olho hoje retrata a saudade, embora ele nunca mais tenha falado sobre o cafezal, a radiola ainda toca o disco de vinil da sua canção favorita.

O que sei sobre o café devo a ele. A textura, o sabor e o aroma sempre me levam pelas mãos para aquele tempo da infância e juventude. Outras simbologias me ligam ao café. Ainda tenho o bule de ágata verde musgo e meu café é coado com o coador de pano que eu mesma faço.

Não é raro nas minhas tardes sentir o cheiro de café sendo coado na casa de algum vizinho e como se fossem puxadas por um fio, as memórias me trazem os instantes que me fizeram ser hoje o que sou… nessa hora, eu bebo a saudade em uma xícara fumegante lembrando do homem que hoje é apenas se intitula como meu pai, mas no fundo é ainda, o meu rei.

Mariana Gouveia
Coletivo| Scenarium 8
O Café dos Loucos
Scenarium Livros Artesanais

Colheita · Scenarium Livros Artesanais

Perdeu o significado das ervas…

o caderno que ganhou
era para anotar as espécies
– era o que o pai dizia –
Passou a escrever poemas nas linhas
– era a sua forma preferida de gozo
O dedo enfiado na terra.
A semear-se…

– no próprio coração! A coragem –
Nem era semente isso – alguém dizia
Mas, em muitas noites de lua,
enquanto todos iam colher as flores
para remédios nos campos
Plantava a solidão – nos vasos da cozinha

Pegava – com cuidado – a faca
Abria a semente –
entre a janela da varanda
e o caos interno

Sufocada com o dom que ganhara na infância não queria mais plantar!
Matou a semente com um só golpe.

Mariana Gouveia
Colheita
Scenarium Livros Artesanais