Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Divago sobre o tempo e suas previsões malucas…

A ausência descrita na palma da mão. Foi ali, que aprendi a voar e descobri novos horizontes. Acabei por concluir que o céu era o limite. O muro era um pequeno detalhe para compreender as barreiras e superá-las. Divago sobre o tempo e suas previsões malucas… o guarda-sorte na rotina dos dias. Uma parede descreve poemas tortos… grafite louco de quem é lúcido por amar. O livro aberto tem o perfume além dos mapas. O oceano é imenso em suas lonjuras no meu quintal. A maresia não conhece a asa da joaninha que baila aqui. O milagre é aquilo que não é natural e era quase dizer que eu estava aqui enquanto você chorava. A cal molhada escondia seu nome onde escrevi poemas… tudo era torto enquanto as tvs liam retratos perdidos na vida. Alguém dizia que a sorte era adivinhada no primeiro sinal e eu não entendia o idioma de quem não conhecia a palavra amar.

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar Quintais
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Dos dias aleatórios de abril.

Costuro a palavra habitar no corpo, como moradia leve… um toque. O coração sendo trocado, de leve, por outro — uma válvula — que afinará as melodias em manhãs de pássaros nas árvores secas do quintal do vizinho. Que além das batidas insanas causará ruídos nas janelas abertas pelo vento. Que fará com que eu esqueça o amor que não deu certo, as perguntas inconvenientes, a mesmice plantada no olhar do homem da esquina. Um coração que viverá de noite, como se dia fosse e que tocará a alma do outro como única, no verbo amar. Costuro a palavra habitar e bordarei poesias soltas nos murais dos pontos de ônibus… sairei cantando o amor como rotina e esvaziarei o peito e dentro da mão, o voar virando pouso, mesmo que imaginário na solidão dos corredores de quem espera viver.

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar Quintais
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Desvios para atravessar os quintais · Meus Livros · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Estava escrito que haveria um decanato dentro desse período lunar.

Ph: Hanne Feldt

Rasgava a camisa branca a unha… o sangue marcava o passo, o caminho, a trilha por onde andou. O linho desenhado em motivos geométricos. O sistema solar fora de órbita. Continha a palavra sorte na mão.

Jogava as cartas para quem quisesse saber a previsão — do tempo — por que ela própria andava instável dentro das possibilidades de chuva.

Ainda ontem era outro dia e chovia. Hoje não!

Guardara a sete chaves a sombrinha. Pularia todas as poças no mundo da Lua.

Arriscava-se a nomear de novo esse dia… da dor. Estava escrito que haveria um decanato dentro desse período lunar. E muito embora nem fosse cheia, marcava o céu em seu dilema de satélite.

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar Quintais
Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Das tardes amarelas do meu quintal.

Bambina mia,

Agora a pouco choveu e a tarde que se desenhava nublada, de repente, amarelou. Eu já havia dito que o meu pé de ipê é brincalhão e não obedece de jeito nenhum as estações. Em pleno outono ele deu para florir de novo.

O ipê me lembrava sempre minha mãe, por causa de coisas que vivi na infância e as canções que remetia à flor ouvidas no velho motor rádio, mas agora, o ipê também me lembra você e sei que é recíproco. A gente atravessou 2024 para 2025 e de repente foi como se tivéssemos atravessado um século inteiro e o último mês pareceu uma eternidade… Falamos isso por telefone e é estranho retomar o caminho da escrita, ainda com a mobilidade reduzida, mas precisava te seguir nesse abril, para que mesmo à distância – mesmo com tantos te rodeando – você não se sinta sozinha.

Sabe, bambina, não preciso dizer do quanto quis atravessar nossos quintais e ficar em silêncio ao seu lado e nem de como nossas dores couberam uma dentro da outra… tentei te mostrar o lado de cá para te aconchegar no meu carinho do lado daí. Não consegui sair desse quadrilátero que se forma aqui, nem ver os planetas todos alinhados, mas vi um vagalume e chamei seu nome e grito ele bem alto quando trovoa por aqui.

É assim que a gente se encontra e se busca nos ritos entre nossos quintais… é assim que consigo te encontrar no meu cuore cada vez que penso em você… é assim que a gente fica esperando o amanhã,… queria estar junto, ao alcance das mãos, mas como a poetisa que vive em mim diz: e quem disse que é preciso estar juntos… para estar perto?

Bacio
Mariana Gouveia

Alice - Uma Voz nas Pedras · Lunna Guedes · Meus Livros · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – cult coffee and books

Quando surgiu o tema do projeto fotográfico 6 on 6 lembrei-me dos rituais de sempre… aqui, para acompanhar a leitura de um livro a companhia da xícara de café é sagrada.

Confesso que devido à cirurgia nos olhos – quase recuperada – e a alguns problemas de saúde o prazer de pegar um livro e ler tem sido bem pouco, ou quase nada. Minha lista de livros só aumenta e retomo essa atividade nos fins de tarde, sempre com minha xícara de café e um lanchinho.

O meu café é mais forte, e claro que aproveito para saborear alguns textos que amo…

Ou para relembrar momentos que me emocionaram…

esses momentos servem para reviver histórias que tocaram meu coração e por consequência…

dão sabor inigualável em uma tarde chuvosa… aceita uma xícara aí?

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo: Lunna Guedes, Claudia Leonardi – Obdulio Nuñes Ortega
Roseli Pedroso – Silvana Lopes

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Melhores momentos.

O coração tem em certos dias um orçamento incomportável
Gonçalo M. Tavares

Nunca gostei de fazer a tal retrospectiva de início de ano, nem de lista que sei que certamente não cumprirei, mas ao receber o tema do projeto fotográfico 6 on 6 feito pela Scenarium, achei que o tema veio a calhar, até mesmo para justificar minha ausência nos últimos tempos aqui no blog.

Na verdade, 2024 foi de certa maneira um tanto rude comigo. E seguindo o mesmo ritmo de 2023 com perdas familiares, 2024 também foi cruel nesse sentido, e não só isso. Também passei por uma cirurgia nos olhos e por isso, tive de me manter afastada de vários afazeres, entre eles, ler e escrever ficou restrito à apenas poucos minutos em mensagens de áudios e só.

Resolvi recolher dos últimos 6 meses os melhores momentos de leveza por aqui, e claro que só me mantive bem porque meu quintal me traz a companhia dos pássaros sempre e em alguns momentos de dores foram eles que me fizeram manter a sanidade e bem estar, mesmo em dias difíceis.

Às vezes, os melhores momentos de um ano inteiro ficam guardados na memória, em uma gavetinha para as noites insones ou para serem relembrados em rodas de amigos ou família. Meu pai sempre dizia que um ano nunca é bom de todo e nem ruim assim… Por isso, mesmo nos dias nublados, os pássaros alegraram meu lugar

Impossibilitada de sair e sem poder ler-escrever me atrevi a vigiar as aves dentro das estações, que embora estivéssemos entre outono e primavera tivemos na aminha cidade as temperaturas mais altas do Brasil. E uma das minhas alegrias era ver o banho do sabiá laranjeira e os sanhaços azuis – que mais ariscos, nunca me deixava gravar o banho – em uma “piscina” improvisada para se refrescarem.

Às vezes, alguns melhores momentos são só momentos mesmo e aquele instante dura para sempre na memória… como o pouso de uma ave na mão e o pulsar do pequeno coração se une com o seu e aquele instante fica.

Minha retrospectiva registra aqui os pássaros do meu lugar, talvez, diante dos dias complicados entre procedimentos e cirurgia a minha companhia foram eles, entre voos e pousos por aqui. Chiquinho é o meu beija-flor que nasceu aqui e já contei a história em vários posts.

Mas 2024 não foi só dores e momentos ruins não… nesse momento celebro também o transplante de rim de minha irmã caçula que já fazia hemodiálise havia 7 anos. Não tenho fotos dela para mostrar aqui, porque ela se recupera bem no Paraná.

O tempo passa tão rápido e logo estaremos falando de novo sobre melhores momentos, retrospectivas e lista de desejos… eu, fico aqui, com o carinho dos seres alados do meu quintal e desejo que seu 2025 seja de aconchegos, lindos momentos e de dias felizes. Ainda não estou liberada para estar aqui sempre, mas logo estarei. Até lá, esperem por mim e se cuidem.

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo: Lunna Guedes, Claudia Leonardi – Obdulio Nuñes Ortega –
Roseli Pedroso – Silvana Lopes

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Meu quintal

Bambina mia,

E chegou o último 6 on 6 do ano e o tema ganha meu coração, você sabe bem. Quintal me traz a palavra afeto e calma. Eu poderia te escrever mil cartas sobre meu quintal e retratá-lo em mil fotos também. Tenho muitos quintais dentro do meu quintal e te ofereço todos os dias um pouco deles. Há o meu quintal das borboletas, das joaninhas, das flores e suas trepadeiras exuberantes. Das aranhas fiandeiras, das rachaduras no cimento e até mesmo do muro que o cerca

Mas hoje, dou-te os meus pássaros – que você conhece tão bem – e seus voos ou pousos, porque afinal de contas o quintal é a morada e o desvio deles. É no meu quintal que meu pássaro de todo dia nasceu e escolheu morar. Chiquinho é esse habitante desse espaço cheio de flores plantadas para ele, além do seu bebedouro ficar sempre a disposição.

Sabe, bambina, algumas histórias e pássaros nos ligam… a gente já falou sobre isso e quando amanhece aqui, meu quintal recebe os pássaros famintos que vêm apenas de passagem. É como se meu lugar fosse o espaço para eles se apresentarem em cantorias e voos, além da comilança das frutas e rações que deixo para eles.

As muitas das nossas conversas acontecem no meu quintal, debaixo do pé de ipê, perto dos fios dos varais onde o bem-te-vi busca a segurança antes do voo para a árvore que abriga seu próximo ninho. Você se lembra de que eu te falei sobre o afeto dentro da palavra quintal, que li em um blog dias desses e dentro desse afeto você agora tem um quintal também e isso me enche de ternura.

E sabe o que é mais bonito em você ter um quintal para chamar de seu? É que a gente faz essa transição entre meus pássaros e os teus, minhas flores e as tuas, meus ventos e até minhas chuvas se interligam nas suas… O bem-te-vi cata aqui e em nossa conversa, o seu canta aí… e claro que entre o meu e o seu poderia ser rodeados de aspas, porque quem tem um quintal possui a liberdade plena de ver a vida ali, entre voos e uma folha caindo… a flor de maracujá se abrindo para no dia seguinte o fruto surgir.

Mais um quintal é sempre cheio de surpresas, bambina… seja nos pássaros novos que surgem, talvez trazidos por outros pássaros, ou mesmo seguindo a rota dos desvios que atravessam meu quintal, seja pelos rotineiros que trazem um galho para a feitura do ninho.

Ah, bambina, e você sabe que do meu quintal, um dos momentos mais felizes são os banhos do sabiá laranjeira que te mando em vídeo quase todas as vezes – lá vem mais um dos vídeos de Mariana… você deve pensar! Ainda há muitos pássaros para te dar, mas aqui só cabem as seis fotos… mas esses são os que te ofereço para além dos muros e de cada quadrilátero onde denomino de meu. É aqui onde me caibo nessa transição entre meu e o seu quintal para te derramar o afeto que a palavra me abraça.

Bacio,

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo: Lunna Guedes, Claudia Leonardi – Obdulio Nuñes Ortega –
Roseli Pedroso – Silvana Lopes

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Sexta, 29 — *a cidade envaidece inteira com a chegada do crepúsculo.

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — todo dia, de Suzana Martins

Bambina mia,

eu vigiei o céu hoje para te oferecer o crepúsculo, nesse dia tão seu. Sei que é o instante que mais gosta e sei também que a cor te toca. Lembrei-me de outros aniversários com você. Todos eles poderiam ser emoldurados e o auguri gravado em fita cassete para ouvir no toca fitas antigo do meu irmão.

Havia uma margarida vermelha na janela e o cheiro do bolo na sua cozinha inteira. Esse dia devia ser eternizado – anotei na agenda. Depois disso, o dia virou saudade nos anos seguintes. Eu ia querer muito caber no seu abraço nesse dia… mas os dias foram se costurando em avessos nesse ano a viagem foi adiada. E como de costume, escrevo uma missiva onde junto com as palavras vai meu cuore para você.

Na parte alta do bairro, onde sempre vou para fotografar a lua em noites de lua cheia eu gritei seu nome, bem na hora em que a manhã quase deixava de ser madrugada para se tornar dia. A última estrela acabou de sumir entre as nuvens e a cidade ao longe se vestiu com as cores crepusculares.

Sabe, bambina, eu ainda me espanto com algumas coisas que nos ligam de uma maneira única que parece que tudo foi traçado antes. Não posso dizer que é o destino, nem acredito em coincidências, mas percebi que nossos caminhos foram se cruzando em esquinas dentro de um passado meu e futuro seu, em fusos que nos fazem rir… e eu adoro ouvir sua risada.

A cidade envaidece com a chegada do seu dia e dessas cores dentro das palavras que você gosta. A meteorologia determina atenção em vários alertas coloridos. Será que haverá uma tempestade em sua homenagem? Te conto em uma próxima carta. De resto, te envolvo no meu abraço carinhoso com todos os desejos de bem viver.

Amo tu imenso!
Auguri!
Feliz aniversário!

Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Quarta, 27 — *O vento esparramou as nuvens na delicadeza do instante.

quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — da prosa de Mariana Gouveia

Já era o quarto dia quando te vi brincando com os meninos da rua de cima. Chapeando as pipas enquanto eles soltavam a linha.

O clept clept era para chamar minha atenção – pensei – e ao mesmo tempo, como se fosse tomado pela velocidade dos pés deles você esparramou as nuvens na delicadeza do instante.

Eu apenas ri e te chamei com um assobio – seguindo o ritual que aprendi com minha mãe. Eu te chamo, às vezes, quando o som oco do silêncio fica por aqui. Assobio e você chega… às vezes, tão manso que nem ouso falar seu nome.

Mas, acontece que, em algumas horas você atravessa o quintal de um jeito bravio que imagino ter te tirado de alguma brincadeira legal por aí…

(talvez) com os meninos da rua de cima, como agora.

Mariana Gouveia
Dia 5
In, Ao Vento de todo dia
Scenarium Livros Artesanais

Scenarium Livros Artesanais

Terça, 26 — *Retirar das retinas poeiras incrustadas

*quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia  – do texto de Nirlei Maria Oliveira

O cadeado abre a dor para o hereditário… o telhado abriga o pássaro gigante, no céu branco, ausente de nuvens e nem era noite de lua e no quadrante leste Saturno estava lá, em algum canto. Nem todo dia, o astro rege as marés, e nem coordena os desavisados ventos vindos do sul. Era para ser de chuva – o dia – mas, a previsão falhou no calendário. O bilhete no papel de parede dá o ar de indignação. Cadê os dias prometidos na busca da fé? Disfarçado de lugar comum – o pássaro – o vento alado ameaça voo e permanece… olho fixo no horizonte branco. A folha de papel pronta para a carta. O vento seco na estrada irregular… as cadeiras na calçada da vizinha vazias de presença nos ecos do nada. Era só rotina essas miudezas todas, enquanto a ave fica à espera da hora certa da fuga, com medo do voo.

Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais