Das palavras das cartas · infinitamente · Scenarium Livros Artesanais

Segunda, 25 — *Samambaias despertam em vasos que não lhes pertencem

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — habitudes, de Adriana Aneli

Ana,

Ontem fui de novo na sua rua e fiquei me perguntando se existe ex rua ou se apenas a denomino como a rua que não quero passar. Dessa vez, não ia adiantar dar a volta em duas quadras, porque eu tinha de levar documentos para o moço que comprou sua casa.

Percebi que perdi a conta dos anos que passaram… a cerca ainda está desbotada e desconfio que ele não pintou nenhuma vez desde que comprou. Enquanto eu aguardava ele encontrar a chave do portão meu olho avançou quintal afora… me pareceu que ouvi sua gargalhada lá no fundo… ao invés das hortênsias, no vaso branco que plantei, samambaias pendem dele… inquilinas indesejadas – penso eu – e a cerejeira está seca – penso que de saudades tuas – e ele explica desajeitado que a árvore morreu do nada.

Alguns badulaques que deixei lá me foram entregues em uma caixa… as argolas que prendiam as cortinas laranjas, alguns papéis – que segundo ele, estavam em gavetas e caixas no fundo do armário. Enxerguei sem querer seus anõezinhos e a Branca de Neve num canto do muro e o sapinho… ah, o sapinho…

Sabe, Ana, não sei onde está agora. Qual universo te possui… vejo Marte e lembro-me de você. Confesso que andei meio avessa ao céu noturno nos últimos anos… e não falo disso com tristeza não. Falo disso como se com isso pudesse te libertar de vez para seus voos além das nuvens…

Lembro-te cada vez mais longe, mas em dias como hoje, onde meus olhos perderam a noção de ver, te vejo ali, amiúde, no vaso branco e as samambaias invasoras em um lugar que nunca foi delas.

E ainda com as pupilas dilatadas escrevo seu nome no vidro embaçado da janela pensando o que fazer com essa saudade quando pronuncio seu nome.

Mariana Gouveia
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Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Domingo, 24 — *Eu sou uma verdadeira marinheira,  olhar atento, no barquinho que vai pelo fluxo da água.

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — da prosa de Rozana Gastaldi Cominal

Ph: Anja Stiegler

Quebrou o espelho de mar, faltou o ar da maresia. Os peixes perderam o medo da ave marítima – me tornei alma errante em um céu de falta – com medo de esquecer seu nome repito todo dia quando acordo – rezo ele ao meio-dia – e resmungo ele na noite, quase em sono, sonho. Conto minha história em poesia diária. Esse rasgo de água, que me engasgo cada vez que bebo. Uso o amor como se fosse a origem da sede. Devo confessar que quase morri de abstinência.  Isso de falta devia ser proibido mesmo… quebrar essa regra devia causar afogamento no mesmo mar. Meu rio não conhece outro destino que não seja o de ir ao encontro do mar. Eu sou uma verdadeira marinheira, olhar atento, no barquinho que vai pelo fluxo da água. Sabe a sal a lágrima que cai. As orações saem como se fossem declarações. Vivo mil anos em uma hora. Tudo esse tempo obscuro que a hora asfixia no vento. Vivo como peixe de aquário que sonha a liberdade da correnteza. A regra da manhã é a pele descamando de amor.

Mariana Gouveia
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Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Sábado, 23 — *O vento trouxe nuvens, na noite de ontem.

A espera é esse bilhete de papel na parede, o desenho opaco do coração que rabisquei e que o tempo desbotou. O vento trouxe nuvens, na noite de ontem. A roupa no varal a dançar com o vento. Deveria te escrever essa carta. Falar do tempo que muda constantemente. O pé de romã brotou. Os musgos tomaram conta da parede do canil. A erva doce exala de alguma cozinha por perto. Penso em chá. A tarde amarelou depois da chuva; lembrei de outras cartas que rasguei sem enviar; o homem da reciclagem apareceu. Falou de saudades que não o deixou trabalhar. Suspirou dentro da madrugada passada – ele contou – chovia. A cor que acolhe a noite tem os tons que aquece o peito. Devia caber na alma essa solidão. Fujo apressadamente dos raios que envolve a noite. Cuido dos insetos para que não molhem. Um ninho deles inteiro foi salvo enquanto chovia. Por um instante, penso que a vida é esse aconchego que enxergo ali…

Mariana Gouveia
Scenarium Livros Artesanais

Scenarium Livros Artesanais

Sexta,  22 — *Hoje atravessei a cidade e encontrei vestígios meus nas sombras projetadas pela cartografia urbana.

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — todo dia, de Suzana Martins

O calor no rosto me leva para outra cidade – aprisionaram o vento dentro da intensidade da palavra – foi uma cerimônia bonita. O rio e os envelopes rasgados. O canto da ave num dia triste. A febre e a ilusão do delírio. Havia qualquer coisa de estranho no objeto bordado. O pássaro desenhado como se lembrava na memória obscura da pele. O toque da pena a dimensionar o voo. Dizia que sem pressa devia partir. Ou esperar. Ou ir e voltar – esquecia da última frase da carta. Mas sentia na ponta dos dedos, apenas essa solidão esférica. De cidade vazia e de rio longo e serpenteado perto das margens de onde avistava os papéis que não enviara a rodar, como se fosse de encontro ao mar. Como se morresse de fome e sede – e não havia nada para matar a fome. A vida seca, úmida de alma. Invento as escalas do mês. O mundo acontece dentro do milagre. O ausente fica lindo assim distante. O voo não dado é o que me leva a querer esse cheiro terrestre infinito… onde o vento apenas se finge de sopro.

Mariana Gouveia
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Quinta,  21 —  *Cuidado, anjo de asas quebradas!  

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — da prosa de Rozana Gastaldi Cominal

De perfil a história é mais triste… os corredores ficam mais compridos e as janelas laterais nem conhecem a canção que fala dela… na sala de estar, os mortos em porta retratos ao lado das porcelanas empoeiradas e os vasos de flores de plásticos a murcharem em promessas sem perfume. De perfil, a moça de branco alonga a saia e os sapatos fazem barulho dentro das horas. são sete portas até o alívio final. A veia a sangrar pela cura – que matava, se deixasse – que pingava em conta-gotas no refrão do tic – tac do relógio na parede cinza ocre ou ocre apagado sem cor… de perfil, os dias acontecem diferentes dos outros dias e a fase da lua inicia o ritual de esperar o dia de amanhã.

Mariana Gouveia
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Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Quarta,  20 —  *Pensei em como a vida tem esses momentos de delicadezas

quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — da prosa de Mariana Gouveia

Colhi docilidade no dia. Rumores de amores e risos. Há dias em que a felicidade é um bombom recheado de amor. Cabia vontade dentro dos corações estampados nas coisas e havia cantos de aves no quintal. A velocidade das horas vindo com o vento que mudava o sentido das folhas. Sentiu a beleza na respiração do amor.

Mariana Gouveia
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Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Terça, 19 — *Limpar os pés na soleira da porta na casa da infância. 

*quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia  – do texto de Nirlei Maria Oliveira

Embora começasse outra estação, e como os livros diziam que começavam o equinócio do outono, para nós ainda era a estação das águas, porque a chuva persistia nos dias e a água tomava conta de todo lugar. As gotas pareciam brincar com a natureza e a enchente sempre acontecia nas margens onde o rio beijava as matas. Sabíamos que a natureza cumpria seu papel de estio-chuva-estio… Às vezes, chovia a noite toda e o barulho das gotas a cair no telhado era um convite para o sonho… Em outros dias, a chuva durava dias inteiros e ficávamos presos dentro de casa…O cheiro do chá a invadir os aposentos… os irmãos a inventar brincadeiras e o céu a derramar bênçãos dentro da presença da estação.
Outono só nos brindaria em instantes nos meses seguintes e só aí, o vento nos beijariam em sopros com a amenidade do tempo.

Mariana Gouveia
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das coisas breves · Scenarium Livros Artesanais

Segunda, 18 — *A casa é o corpo que habito

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — habitudes, de Adriana Aneli

Ph: Steve Gindler

O retrato fosco na estante, junto com as porcelanas empoeiradas… os livros mudos, sem que uma página sequer fosse lida. O corpo, intacto, como se não tivesse sido tocado também. Tentou se lembrar da última vez.

A sombra da mão estampada na parede lembrou os risos das irmãs em uma adivinhação antiga. A mesma voz a ecoar saudades em um sussurro constante. O corpo cede ao chão frio, como se fosse sombra também, sem memórias do que já viveu.

As coisas todas mudas – as paredes, as cortinas, as portas. Um vento assovia lá fora. É o único som que ecoa fora desse corpo. Buscou na lembrança o dia de hoje. Não soube… as datas fugiram com todas as coisas dela. O corpo sem endereço é a casa. A casa é o corpo que habito.

Mariana Gouveia
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das coisas breves · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Domingo, 17 — *Os raios e trovões dialogavam com o vento como se estivessem discutindo.

Foi numa noite dessas que ouvi seu chamado.
Parecia assustador. Levantei e fui pé ante pé
para não acordar ninguém.
Apenas o cão mais novo seguiu comigo.
Você rugia como se algo estivesse em perigo.

O cão se aconchegou junto a mim enquanto as nuvens
escuras se agigantavam em cima do meu lugar.
Os raios e trovões dialogavam com você
como se estivessem discutindo.
A sua voz parecia gritar e pensei nos dias em que fico
assim, intolerante ao que me assusta.

O momento me fascinou – confesso – e abri os braço para
também fazer parte de tudo aquilo. Uma tempestade
que nem a moça da previsão do tempo conseguiu prever…
foi quando dançamos juntos eu e você,
sob a canção dos raios
e trovoadas em uma noite insana de abril.

Mariana Gouveia
Último dia, 7
In, Ao Vento de todo dia
Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Sábado, *16- A estação do momento nunca combina com as datas do calendário dos homens-ocos…

De fora do olho andante, o riso por detrás da loucura… ano após ano eu ia ali, fora da data convencional. Escrevia cartas póstumas para ela – que poderiam virar livro – em dias da semana alternativos, fugindo ou não da realidade. A foto ostentada em um porta-retrato vintage, com data de vinda e de partida. A vida, tão rasa, resumida em minha rota de desespero em noite de chuva. As perguntas, que ela, guardada para além do paraíso – como dizia meu pai – não poderia responder. Sempre pedi um sinal. Uma nuvem, um raio, um vento ou uma ilusão qualquer para acabar com a solidão da alma. O código decifrado na coluna: 7.D… As flores oferecidas em um lugar comum a todos. A luz da vela no quintal, perto da pedra de amolar, longe do olho andante do guarda, que conversava com os mortos, enquanto, na noite escura, a borboleta me dava o sinal de acolhida. A vida nascia, apesar das mortes e quando amanhecia tudo era tão normal, diante do olhar do guarda que me via e fingia que não, além das datas convencionais.

Mariana Gouveia
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