De fora do olho andante, o riso por detrás da loucura… ano após ano eu ia ali, fora da data convencional. Escrevia cartas póstumas para ela – que poderiam virar livro – em dias da semana alternativos, fugindo ou não da realidade. A foto ostentada em um porta-retrato vintage, com data de vinda e de partida. A vida, tão rasa, resumida em minha rota de desespero em noite de chuva. As perguntas, que ela, guardada para além do paraíso – como dizia meu pai – não poderia responder. Sempre pedi um sinal. Uma nuvem, um raio, um vento ou uma ilusão qualquer para acabar com a solidão da alma. O código decifrado na coluna: 7.D… As flores oferecidas em um lugar comum a todos. A luz da vela no quintal, perto da pedra de amolar, longe do olho andante do guarda, que conversava com os mortos, enquanto, na noite escura, a borboleta me dava o sinal de acolhida. A vida nascia, apesar das mortes e quando amanhecia tudo era tão normal, diante do olhar do guarda que me via e fingia que não, além das datas convencionais.
Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais
