Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Sexta, 15 — Hoje atravessei a cidade sem interrupções.

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — todo dia, de Suzana Martins

Ph: pinterest

Pinto o horizonte de dourado no seu destino… a noite e a imensidão das rotinas das horas. Vi a esperança vestindo colorido pelos olhos de uma poetisa. O quintal desenha vento nas plantas que restaram depois da chuva… A natureza detalhada em gotas na transparência da alma depois de molhar o jardim. O horizonte era opaco ainda agora enquanto a lua é esse desaforo na janela lateral de qualquer lugar. As pétalas das flores sendo pouso para o agora. Para além dos céus e o mar era espera. Dentro da gota era mar, o ritual do pouso. A vida tem esses instantes delicados. Os meridianos acusando saudade indecifrável do que não vivemos. A noite tem a esperança da vontade, tatuada sobre a pele – flor – que nunca foi tocada, mas que a mão conhece cada linha, cada pinta e que pelo silêncio, a vida se torna esse respirar de amor.

Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais

Scenarium Livros Artesanais

Quinta, 14 —  *suspiro dobrado no balanço do vento 

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — da prosa de Rozana Gastaldi Cominal

Havia um vento morno vindo do sul. Trovejou ontem e raios rasgaram o céu. O cheiro de terra molhada invadiu o ar e a chuva veio bravia. A vida é feita desses instantes que ninguém escreveu. Uma janela aberta e um rio invade o quintal. Árvores com as raízes à mostra e as paredes cinzas ofuscando o clarão dos relâmpagos. Ouço uma melodia que me traz a sensação de que nasci agora. A tempestade fazendo a mão para indicar caminhos. Tudo é escuro na noite lá fora. Os poemas espalhados na lama como sementes. Quem sabe amanhã não nascerá as palavras da atitude. Às vezes, o silêncio é essa goteira que pinga sem parar. Essa luz que insiste em ser acaso… a noite, o nada e o vento.

Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Quarta, 13 — *Onde fica o lugar em que o vento faz a tal curva?

quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — da prosa de Mariana Gouveia

Flor,

Ontem, antes da chuva, eu vi a poesia se compondo em galhos e brincando de vento. Ouvi o céu gritar e rugir como se dissesse ao universo sobre o poder que ele tinha.
Vi os raios iluminarem o céu e lembrei-me dos rituais de minha mãe antes da chuva. Ela cobria todos os espelhos da casa e fechava as janelas. O medo no olho, as orações nos lábios. Também era poesia isso… Vi tantas vezes a poesia nos rituais de minha mãe.
Mas, ontem, eu vi a poesia se compondo pouco antes da chuva, e quando choveu, lembrei-me de você e de como um dia você se fez poesia no meu quintal dançando na chuva. Queria que soubesse que dobrei os tsurus e guardei no pote onde guardo todos os outros que não te entreguei.
Quando a chuva parou as lembranças se foram lá para onde o vento faz a curva e sonhei com você.

Feliz aniversário!

Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais

Scenarium Livros Artesanais

Terça, 12 —  *Lembrar de nomear as coisas no caderno de anotar maravilhamentos

*quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia  – do texto de Nirlei Maria Oliveira

Desde pequena sempre fui apaixonada por cadernos. Usava-os – e ainda uso – para tudo. Embora a tecnologia tenha trazido algumas facilidades, não abro mão de escrever no caderno.

Aqui, já foram transformados em diários, agendas e até serviram de anotações para listas. Lembrei-me de meu pai que anotava as coisas que tinha de fazer durante o dia, o mês e até mesmo o ano. As ofertas de vendas dos produtos da fazenda, as qualidades especificadas em letras miúdas e até as datas de nascimento dos sete filhos, incluindo hora, dia, mês, ano, signo e de como estava o dia.

O caderno dele ficou perdido em algum baú, que vou tentar encontrar quando voltar lá, mas ainda tenho os primeiros cadernos de meu filho, com suas capas coloridas e sua letrinha ainda em estado de aprender.

Guardei na época para que ficasse registrado momentos simples da vida dele e que para mim era um tesouro. Sempre foi.

Os cadernos me acompanham para as cartas, para as notas que surgem durante os afazeres do dia a dia e para anotar os maravilhamentos que fazem parte do meu lugar.

E você, ainda usa o caderno para registrar momentos? Me diz aí…

Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Segunda, 11 — *O som da xícara de café sobre o pires

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — habitudes, de Adriana Aneli

Bia,

a tarde corre ligeira por aqui e um vento morno briga com a estação das flores. Logo será verão e aquela história da bolha de calor por aqui, ainda não passou. Li sua carta enquanto bebia o café da tarde e buscava imagem para o texto de hoje.

As suas palavras foram como um abraço além do outro lado do mundo… parece que foi ontem que eu te alcançava na rua de cima e contávamos estrelas na calçada alta… lembra-se? Ainda me lembro de sua risada cozinha afora enquanto preparava a mesa, com a xícara transparente e seu pires no formato de coração.

A vida é engraçada, Bia… de todos os sonhos que você tinha o mais impossível aconteceu. Hoje você cruza as ruas de Tóquio e me traz lembranças de Kaori e Seiko e com isso meu coração se enche de ternura. Recebi a foto da cerejeira do lugar onde eles fizeram morada e sabe, Bia, ter você aí tão perto dela e dos seus me faz sentir a leveza da vida que sua avó viveu.

Ph: Sakura

O café esfriou, a noite chegou e eu tenho de ir ali, cuidar dos olhos. Logo a gente se fala e diante de todas essas levezas e saudades te abraço.

Beijo meu,
Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais


Afetos · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Domingo,10 — *Flores que nascem resistentes nos muros e nos quintais

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia  – do texto de Nirlei Maria Oliveira

Todo mundo deveria ter um quintal… falei isso com Lunna – mia bambina – nas conversas rotineiras que mantém meu lado lúdico ativo enquanto os olhos não podem ler.

Comentei isso depois de “vê-la” encantada com as frutas que rudemente esborrachava no chão. Quando ela retratou o sabor das amoras e das uvaias e a hortelã encontrado em meio a uma moita de samambaias eu voei para além dos meus muros e corri para o futuro quintal dela. Uma cadeira encostada na parede branca, os ladrilhos formandos caminhos entre as árvores… eu vibrei.

Ela já não era mais peregrina do meu lugar e quando falávamos de quintal, ela estaria repleta de afetos que só um quintal emana. Seríamos ponte entre o meu quintal e o dela. Já imaginou uma rede de pontes interligando quintais vida afora? Além de ruas de cima ou esquinas da rua debaixo? É como se uma janela abrisse e o cheiro de chá exalasse seus aromas entre meu capim limão e o hortelã miúdo dela.

No meu quintal os cães implicam com os gatos… no dela, o gato estranha o povo recém-chegado onde antes o lugar era só dele… e a vizinha mexeriqueira busca contato logo com quem prefere os animais a pessoas.

Todo mundo deveria ter um quintal. Nem precisava ser grande, ter horta, pedrinhas brancas mostrando caminhos de estufas onde as orquídeas soltam suas folhas e a baunilha exala seu cheiro peculiar.

Mas deveria ter pelo menos um pé de jabuticaba – ou alecrim plantado em vasos grandes ou no chão mesmo, rodeados de vinca e suas variadas flores.

Hoje, com as moradias – em sua maioria – fixadas em edifícios enormes e o paisagismo predominante em folhagens, um quintal traz a poesia de manhãs mornas, de folhas recém caídas e o sussurro do vento. E tem os pássaros – que muitas vezes ela nem sabe o nome… só que é grande e outros que cantam nas madrugadas daqui e de lá.

No meu quintal, há um desvio onde pássaros e borboletas cruzam em suas rotas rumo ao céu. No dela, o pássaro metálico cruza em meio ao cinza e o verde – agora tão dela quanto meu.

Você ouve o som das flores? Quando as pétalas roçam umas nas outras o som das flores ecoa…, mas isso, só consegue ouvir quem tem um quintal.

Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Sábado, 09 — *Alcanço o balanço… plantado no quintal de casa.

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia – do texto de Lunna Guedes

Bambina mia,

não tenho balanço no quintal, mas já tive, assim como você, lá na infância e via o mundo do alto quando chegava minha vez, depois dos outros irmãos. Acho que para mim era diferente do que para eles. Eu voava até bater o pé no galho da mangueira e meus pensamentos voavam para além da estradinha que serpenteava o rio.

Depois disso, o balanço se transformou em memórias gostosas que sempre arranca risos em conversas com os irmãos, quando lembramos dele. Dessas memórias me lembro do cheiro da malva seca e do cheiro das flores de manga… e em nossas conversas o balanço – teu, lá da tua infância – sempre me causa ternura. Já reparou como nossas histórias se atravessam? Como agora, onde um desvio no meu quintal me leva apara o seu.

Acho isso lindo, assim como acho lindo quando nossos pensamentos se ligam à tempestades ou chuva mesmo – e garoa – e a lua e os poemas… o sabiá laranjeira, o beija-flor e até as farfallas…eu não saberia explicar e nem quero… quero apenas sentir essa conexão com todas as cores da inveja – ops – assim como o vento, as folhas, a madrugada e as canções de Léon.

Quando meu quintal invade o seu acho a mais extraordinária das aventuras. Quase sinto o cheiro da flor de maracujá, porque o canto dos pássaros consigo ouvir quando falo com você.

O ipê não comporta um balanço, senão já plantaria um só para te alcançar plena de voos, mas alegra-me saber que agora acorda com os pássaros como eu e o chá de hortelã que faz para tu e o tuo bambino também chega até aqui na doce forma de compartilhar.

Aceita um xícara?

Bacio,
Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Sexta,  08—  *Esquecida nos adjetivos que desenhei no poema do teu caderno vazio

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — todo dia, de Suzana Martins

Ana,

às vezes, só às vezes, eu esqueço do combinado e volto a pensar em você… hoje mesmo, a lua está divinamente ligada à Marte em linha reta e não teve como não ligar você e o universo pleno de memórias suas.

Já te contei que te vejo nas minhas ruas e até te chamo pelo nome para depois descobrir que era apenas alguém parecido… uso a desculpa do olho em conserto para não usar a vontade do coração. Soletro seu nome duas vezes seguidas para justificar essa ausência.

Como regular a saudade no corpo, Ana? Como esquecer dos poemas que declaramos juntas e que não coube mais na sua letra em memória de mim, feitos ainda em um testamento falso de que apenas isso finalizaria uma história dividida entre dois países, em um caderno vazio… dentro das ruas e vilas que você me levava pelas mãos mundo afora.

Em tempos de remake, a nossa história virou um livro… dos mais lindos e eu fiquei por dias na soleira da porta te esperando para te contar… mas, o silêncio, esse vazio no universo todo parece o poema do teu caderno branco e não houve ecos, mesmo que eu gritasse.

Foi assim: você nunca mais regressou e eu deixei recados escritos às pressas para caso você voltasse, mesmo sabendo que não… por isso, Ana, leva com você a canção que cantamos juntas e que esqueci a letra, leva também as manhãs mornas e deixa comigo só a lua e suas fases inconstantes, assim como essa saudade, as lembranças e a poesia.

Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Quinta, 07 — *São vigilantes discretos, prendem os pesadelos no embornal até o nascer do sol 

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — da prosa de Rozana Gastaldi Cominal

Dine,

hoje lembrei-me tanto de você pequena… vasculhei as fotos e te envolvi no mais puro amor… aquele amor de uma mãe que não pariu a filha, mas sabe-a no coração.

Choveu o dia inteiro e confesso que daria tudo para tirar de você essa dor, esse medo, esse mal. Não posso, Dine… Mas dentro de nossa fé sabemos quem pode pegar tudo isso com as mãos e transformar em aprendizados e certezas. Milagre é uma palavra que existe em nosso dicionário e nós acreditamos nela. Acreditamos em Deus e em anjos.

Alguns anjos não dormem… são vigilantes discretos. Não tiram as dores, nem conseguem mudar o curso do destino… mas guardam os pesadelos noturnos em embornais para o amanhã acontecer em alento. O amanhã será sempre feito de renovação, de esperança.

Sei que essa nova caminhada será difícil… e que os caminhos serão tortuosos, mas também sei que você terá tantas pessoas te apoiando e caminhando junto com você… a gente – todos que te amam – estarão em todos os instantes te envolvendo no mais puro amor e tudo será mais fácil.

Você conhece o sinônimo da fé e do quão poderoso é o Pai. Ele não abandona os filhos e em momentos difíceis Ele nos carrega nos braços. E com fé nessas palavras, já te vejo curada e bem.

Te amo sempre!
Beijo meu,
Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Quinquilharias

Quarta, 06 — *Só pensei nas delícias dos nossos dialetos.
* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — da prosa de Mariana Gouveia

Bambina mia,

desde que li a palavra quinquilharias para o desafio do projeto fotográfico 6 on 6 fiquei imaginando como a palavra me alcançaria e claro que tive que aproveitar o projeto do blogvember e transformar dois em um. Então, bambina, só pensei nas delícias dos nossos dialetos intercalando entre nossos quintais. Quinquilharia é uma das palavras que mais gosto… acho lindo a sonoridade assim como acho lindo essa nega maluca e os tachinhos de cobre que eram de minha bisavó, depois de minha mãe e agora são meus. Estavam em uma caixa guardados entre outras quinquilharias e limpei para a foto. Vai me dizer que o latãozinho de leite não é lindo!!

A minha coleção de conchas, que ganhou morada em um vidro no fundo do armário também fazem parte do meu acervo de trecos e quinquilharias. E tenho certeza – ok? – de que você concorda comigo de que nossos baús, caixas, gavetas e vidros e dialetos não se maravilham em manhãs de diálogos e instantes, dentro das palavras que escolhemos e gostamos.

Mas, bambina… pasme! Na caixa de papelão com os “relicários” da família sob meus cuidados – ou quase – achei essas armações que eram de um ex cunhado… e que serão devidamente devolvidas amanhã. Foi um achado mesmo, e nem sei como vieram parar na parte obscura do baú… Essas sim, ganham a versatilidade do nome quinquilharias…

Entre as minhas lindas-tristes tralhas velhas estão algumas encomendas que as clientes nunca vieram buscar, do século passado – ohhh!!! – e parte do acervo do curso de artesanato que dei para mulheres em situação de vulnerabilidade. Ganharam abrigos no canto do baú e volta e meia algum deles consegue ser adotado como presente para alguém.

Sabe, bambina, não vou negar que minha quinquilharia preferida é essa mala. Era do meu pai e para evitar brigas, antes que ele partisse me deu, porque sabia do meu amor por ela. O forro interno ainda é o tecido original. Data de antes de eu nascer… A mala deve ter carregado sonhos, as camisas de linho de meu pai, o embornal que ele levava nas viagens para a cidade para trazer pão e tantas saudades. Eu sempre a disputei entre outras quinquilharias que ele prezava como tesouros. Hoje, ela guarda memórias, que também fazem parte das minhas quinquilharias e se misturam com as suas em um dialeto só nosso.
As bonecas e principalmente, a Frida, eu que as fiz… lá em meados de alguma adolescência e ficaram guardadas como modelos. Dormiram até ontem na mala quando as acordei para a foto.

Essa bandeja simples traz o início de uma menina que sonhava em escrever e levar as palavras mundo afora. Debaixo do pé de sete copas, a menina aprendia a emoldurar palavras, tecer linhas e escrever sonhos. Talvez, o universo já havia preparado tudo para que a minha rua cruzasse com a sua e os nossos quintais se interligasse da melhor forma, dentro do cuore.

Ti voglio bene!
Amo tu!
Grazie per tutti!
Mariana Gouveia
Post parte do projeto fotográfico 6 on 6
Lunna GuedesClaudia Leonardi Obdulio Nuñes Ortega – 
Roseli Pedroso – Silvana Lopes
e BlogVember via Scenarium Livros Artesanais