* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia – do texto de Nirlei Maria Oliveira
Kha,
depois de tanto tempo, escrevo-te novamente. A gente se sabe dentro de silêncios, mas de vez em quando inventamos esses diálogos escritos em manhãs de sol ou noites estreladas. Quero dizer que estou com saudades.
O tempo aqui parece ter as mesmas asas dos teus pássaros e ontem vi um arco-íris que se formou para os lados do sul e salvei essa alegria para te contar. Mas hoje, o sol aquarelou o amanhecer em nuances que te faria dançar. Sei disso, Kha, porque li você em um verso dourado dias atrás que as aquarelas do sol dançam em seu corpo e agora quando vejo elas se formarem lembro-me de você.
Não há nada mais bonito que um sol nascendo, Kha… você afirmou isso para logo depois dizer que não havia nada mais bonito que uma noite de lua, ou nada mais bonito que o silêncio da madrugada ou a algazarra dos pássaros no amanhecer… cheguei a conclusão das belezas que te rodeiam em grau, números e gêneros de bonitezas… Descobri que é você o lugar mais bonito do dia.
Sabe, Kha, saudades são abraços, você os diz bem e essa carta serve para esse abraço além mar.
Beijo meu, Mariana Gouveia BlogVember via Scenarium Livros Artesanais
* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — habitudes, de Adriana Aneli
Bença, Pai,
Hoje me peguei revirando as fotos antigas do baú. Já faz mais de um ano que você se foi e fiquei com aquelas perguntas que a gente fazia um para o outro e que a gente mesmo sabia que não tínhamos respostas… Será que hoje você teria?
Você já viu a chuva daí, pai? E um arrozal pronto para colher? O cheiro do cafezal é o mesmo que o daqui? E o vento, pai…ele surge por esses lados daí? Às vezes, me pego pensando em cada pergunta que eu faria se pudesse. Mas, acho que a primeira seria sobre as estrelas. De que tamanho são? As cadentes são mesmo por causa de crianças brincando aí, nesse céu de meu Deus?
Será que você encontrou minha mãe e a abraçou como antes você fazia quando chegava da roça? E o Manoel, pai… já o encontrou com um capim no canto da boca? Tem capim aí? É verdade que o cheiro daí lembra o campo dos girassóis?
Sabe, pai, aconteceram muitas coisas depois que você se foi. Encontrei meus irmãos e caminhei de novo pelo sítio em despedida. Bebi o leite no curral que o Tuca tirou e fotografei vários cogumelos gigantes… até um tatu apareceu e permaneceu nos arredores até o dia que vim embora. Também comi a comida feita no fogão de lenha e ouvi pela primeira vez o som dos vagalumes em uma noite escura, pai… Gravei para Lunna ver e chorei sozinha para além dos currais.
Também ouvi de novo o riacho em sua cantilena alcançando as margens… de longe, os risos das crianças de agora, brincando de esconde-esconde. São esses ruídos, pai, que renovam minhas energias em momentos de saudades e de solidão. Você sente solidão por aí? Dá pra tomar o seu café igual era aqui?
Vou guardar as coisas no baú, pai e seguir a rotina do dia… Sabe que comecei a escrever essa carta hoje cheia de perguntas, porque de repente me perguntei onde você estaria. Acho que um dia, eu descubro essas respostas.
* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — habitudes, de Adriana Aneli
Luci,
Você disse que “Os capítulos bons da vida são sempre os mais curtinhos…” e em parte, concordei com você. Tenho tido alguns momentos curtinhos bons. Mas, em geral, acho que pertenço a um espaço maior. Horas cheias de conversas com minha bambina, um tempo longo conversando com as plantas e sabe, Luci, isso está me salvando depois de tantas perdas. Percebi que estou parada no tempo e depois de alguns meses pude começar a escrever de novo e hoje li você, assim de relance mesmo, para caber nas ideias novas que o pensamento pediu.
Quando você falou sobre ruas estreitas e suas lâmpadas acesas, em vez de abandonos, eu vi recomeços, reencontros e te vi um pouco no deus da sua escrita – fica desenhando inseto e flor, rabiscando as paredes do céu, perdendo sua eternidade confortável com as aranhas que moram no canto da sala. Seus domingos compridos – e eternos – emendam-se às segundas-feiras e Ele não termina nada que começa, porque tudo é eterno no tempo de Deus. Pega seus livrões e escreve à mão umas coisas a acontecer. Olha pra fora e continua a ser Deus das aranhas, das flores, dos insetos… – e acho que ele existe no meu quintal, que agora ganhou uma extensão em um bairro comum de São Paulo, Luci… eu queria te contar isso.
Os pássaros azulzinhos – sanhaços – que voam aqui cabem lá no quintal da minha bambina. E não é só isso não, Luci… as farfallas – como ela diz – sobrevoam as flores do maracujás de lá e até um casulo ela fotografou. Foi quando eu pensei que os desvios do meu quintal criou essa rota para não sentir mais nenhuma solidão. Hoje, até um beija-flor apareceu. De tão feliz com isso, dancei.
Os sabiás, Luci… os daqui ganharam uma piscina feita de uma saladeira colorida que nunca usei de verdade para saladas. Você nem imagina a festa que eles fazem – e claro, que brigam também pelo espaço. E lá no outro quintal, para além dos quilômetros que nos separam, eles também se expõem em cantos e voos rasantes, entre fugas de gatos.
A vida é assim, Luci… cheia dessas delicadezas e afetos… deve ser para compensar algumas coisas que acontecem fora de nosso controle. Como agora… o sol se encosta em tons de despedida nas flores do meu lugar, mas lá, já anoiteceu. De suas palavras, veio a nova ideia e te escrevi… fiquei pensando em como você tira os acentos da melancia… eu não tiro nem as sementes. Acontece que para mim, os dias aqui sempre começam com o buongiorno dela e termina com o bacio. Te escrevi só para te dizer isso. Mas, já adianto que ela também vai ler sua carta., porque acho belo isso e como você mesma disse: A beleza é um momento de desatenção.
Beijo meu, Mariana Gouveia BlogVember via Scenarium Livros Artesanais
* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia– do texto de Lunna Guedes
Ph: Pinterest
Anteontem, quando fiquei sabendo do voo do pianista Arthur Moreia Lima revivi minha infância. Meu pai, em sua simplicidade, adorava a música clássica. O velho motor rádio fazia com que ele se transformasse durante um programa nos anos 70.
Quando mudamos para a cidade ele me matriculou com a melhor professora de piano do lugar. Durante um bom tempo, lá ia eu, atravessar a cidadezinha, com suas ruas cinzas, de paralelepípedos, como se fosse enviada para o castigo. E vivi grande parte daquilo entre sonatas e adágios. Arthur era o pianista preferido do meu pai. Era espetacular vê-lo, em sua cadeira de balanço agitar os braços no ritmo do prelúdio 23.
Recordar esses momentos foi como atravessar de novo aquela rua comprida e suas casas de cada lado, até a casa de d. Margarida. Sentar-me na cadeira ao lado dela e torcer para não errar a partitura. Era um ritual mágico e lindo. Muitas vezes via meu pai olhando escondido na janela. Não sei se era apenas para vigiar e descobrir se eu tinha ido mesmo à aula, ou se ele apenas queria me ouvir tocar.
Escrevi sobre isso aqui, mas de tudo que me lembro e me enternece ainda hoje foram os paralelepípedos acalentando meus pés, na rua que hoje acho tão pequena e na época, era gigante. As tias, nas janelas, sobre as cortinas querendo saber se aprendi muito ou não. Os irmãos a zombar do meu caderno de partituras em uníssono agitando os dedos como se fossem os maestros de uma brincadeira sem fim.
Arthur, Bach, Mozart e Chopin cabiam nos sonhos do meu pai como se fossem amigos íntimos. Era como se o rádio o levasse para dentro das teclas e as sinfonias transformava o homem simples da roça em um conhecedor do erudito.. E por ele até tentei, mas minha parte musical não avançou muito, mesmo com o piano herdado da professora.
Hoje, nessa data em que homenageamos os mortos, a rua e suas casas me receberam de novo – nas memórias guardadas no peito. Embora, eu não tenha aprendido a tocar piano, desejei me deliciar para homenagear o artista que tanto encantou em muitas noites serenas, o meu pai.
Mariana Gouveia BlogVember via Scenarium Livros Artesanais
* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — todo dia, de Suzana Martins
Ph: Omerika
Conheci alguém que estava feliz no último dia de fevereiro. O que há de tão alegre nisso? – pensei. Para mim, fevereiro é apenas o mês mais curto do ano e por generosidade, alguém acrescentou um dia a mais a cada quatro anos como forma de nos recompensar. E parece que bastou para alguém ser feliz com isso.
Eu costumo me lembrar dessas histórias em noites de insônias. Me vem à memória o riso – abstrato – dela, por saber que era ano bissexto, na folhinha… O ultimo dia de fevereiro e pronto, o depois – cheio de reticências – aparece, como por encanto. Um raio de sol que entra pela fresta da janela. Algo lindo de se ver.
Tão lindo como os azuis das hortênsias nos vasos gêmeos da varanda ou como as flores do ipê que se abriram após a chuva cair depois de uma seca que se prolongou por mais de cento e cinquenta dias. O cerrado queimou-se.
Descobri nas fotografias guardadas… florzinhas azuis. Foram tiradas em uma manhã de outono. As estações se transformam no meu quintal. Em dias de chuva, à noite, os pirilampos não vem. Pela manhã, as cigarras cantam.
A morte andou rodeando a minha realidade, por esses dias. O luto predomina em ausências que, às vezes, sempre foram ausências. Li diários antigos escritos como se fossem mapas de ruas sem saídas e me lembrei da sua linguagem abstrata e acabei perdida nas memórias aleatórias.
Alguém disse que eu tinha que salvar o vento… sabe o que fiz? O engarrafei…
Mariana Gouveia BlogVember via Scenarium Livros Artesanais
o calor abrasador transforma minha cidade em um lugar infernal. Como você já sabe, estou impossibilitada de escrever devido alguns procedimentos em meus olhos e já faz algum tempo que não leio nenhum livro. Portanto, as fotos aqui já foram feitas há algum tempo. E claro que eu vou usar mais as páginas dos meus livros.
Eu ainda fico boba quando vejo meus livros publicados e quando tiro uma ou mais fotos deles – e ou de alguma pagina específica – repito a pergunta de sempre: fui eu mesma que escreveu isso?
Claro que amo fotografar as páginas de outros autores… e misturo-me nos poemas como se fossem meus.
Mas devo dizer que além dos poemas, poesias, prosas o que a Scenarium nos proporciona além do livro costurado em fitas de cetim, as gravuras transformam as páginas dos livros em arte pura. Gosto muito disso!
Eu já te contei que a primeira página que li de um livro veio avulsa nos livros que a gente recebia de doações na fazenda. Ainda me lembro da história… nunca consegui encontrar o nome do livro. Um dia, conto sobre isso.
Bambina, de todas as fotos de páginas que vi por aqui e escolhi ao acaso, as que recebi de leitores, com marcações especiais me comovem. Não poderia deixar de colocá-las pelo menos duas aqui.
Você pode imaginar como mio cuore se fez feliz por causa dos cuores desenhados na fotografia da página… é ou não é uma doçura? Para uma escritora, isso vale muito mais do que qualquer prêmio. E devo isso à Scenarium e a você. Grazie por tanto!
ais além dos sonhos repousa uma palavra que nos acalma depois das grandes chuvas. é como se no chão se abrisse uma enorme janela; um tapete como passagem para outros mundos. o afecto. as aprendizagens. a lentidão da comida. tudo, tantas vezes, cabe na palavra quintal. Ondjaki
Bambina mia,
Depois que “ouvi” sua missiva confesso que quebrei o resguardo dos olhos e fui ali procurar o tema delicioso para caber mais no lugar redondo de suas palavras. Te contei que quis muito pendurar em um quadro seu áudio. Pena que AINDA não posso fazer isso. Mas, voltando ao assunto do tema, durante minha busca eu achei outro texto do mesmo poeta que eu já admirava, e um título me chamou atenção para o afeto dentro da palavra quintal, e de quintal você sabe que entendo. E claro, que minhas manias literárias cabem na palavra quintal e afeto. Meu quintal sempre serviu de amparo-cuidado-afago-ombro em dias difíceis e também companheiro em minhas leituras e arte.
Sempre que folheio um livro estou acompanhada de xícaras… seja com café, água, sucos e café. Logo para além da varanda, entre uma busca e outra de livros ganho companhias de asas… sejam de farfallas – como você diz – ou de aves. Geralmente, é no meu quintal que nossas conversas acontecem. É nele que te mostro a mágica de asas, de flores, de folhas, de poder escrever e até minhas lágrimas em momentos de dores.
Você sabe que é ali – ou aqui – debaixo do meu pé de ipê que nossos diálogos viram horas e horas de trocas… e é também onde recolho as folhas que servem de marcações de páginas dentro das histórias que leio. Tem aquelas que guardei para te entregar pessoalmente, a que se quebrou dentro do poema que amo tanto… As que vieram pelo vento e nem nasceram aqui, mas de algumas forma se misturam com as folhas dos livros que leio.
Sabe, bambina mia que também me peguei pensando se nosso encontro já estava programado em alguma esquina ou se fui eu que te encontrei entre os tantos atalhos que pego na vida… acho até que já te falei sobre isso e já te conto sobre uma outra mania minha que vai para além do meu quintal… esparramo os livros na cama e vou levando-os para o quintal. É onde leio algumas passagens de poesia para os pássaros.
Outra mania literária – ou sei lá que nome dou – é colher as flores que se desprendem dos galhos, seja pelo vento, ou força da natureza mesmo para secarem entre as paginas. Algumas se transformam em matéria prima para meus artesanatos. Outras, ficam ali, pousando na poesia escolhida como se fizessem parte da mesma.
Até nos dias frios eu me atrevo ficar um pouco ali, repetindo a velha mania de dividir com meu pé de ipê um afeto com uma xícara de chocolate quente – que você bebe mais do que – e um livro. Ainda não encontrei no meu lugar uma livraria que coubesse minha alma ou algum sebo. O único que me cabia desapareceu pós pandemia. Foi depois dela que minhas manias passaram a ser vivenciadas aqui.
E como você mesma disse que estamos muito para além dos planetas e tempo eu misturo a literatura que me abraça com toda arte que possuo nesse quadrilátero dos meus muros. Uma xícara de café, um livro seu, uma aula programada para as meninas que cuido, uma omelete ganha ares de biblioteca aqui. As livrarias daqui, bambina, tem as mesmices de sempre, com os livros convencionais, feitas apenas para que o leitor entre, compre seu livro e vai embora. Ainda assim, minhas manias sempre atravessam esses muros e vão para além das ruas – ♡ – e pousam nas palavras do poeta lá de longe, mesmo que não tenha mania nenhuma:
(…)
é como se no céu se abrisse um enorme chão, sem tapete de passagem para outro mundo. às vezes penso que ouvi uma voz sussurrar: foi o afecto quem inventou a palavra quintal. tudo, tantas vezes, dentro da palavra quintal.
Grazie mille! bacio, Mariana Gouveia Projeto Fotográfico 6 on 6 Scenarium Livros Artesanais Participam comigo: Lunna Guedes – Silvana Lopes – Obdúlio Nunes Ortega – Claudia Leonardi – Roseli Pedroso
Quando o amor atravessou o quintal, ele era quase alado. Dava pulos no peito e voava para além das árvores. Depois, com o tempo – e só o tempo compreende essas nuances – ele foi esparramando suas raízes, com suas gavinhas, como se fosse abraço e hoje, já mora aqui… De vez. Acho que para sempre. Em alguns dias, como o de hoje… muda o nome para paixão, só para alterar a rotina dos batimentos dentro do peito.