* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — todo dia, de Suzana Martins
Conheci alguém que estava feliz no último dia de fevereiro. O que há de tão alegre nisso? – pensei. Para mim, fevereiro é apenas o mês mais curto do ano e por generosidade, alguém acrescentou um dia a mais a cada quatro anos como forma de nos recompensar. E parece que bastou para alguém ser feliz com isso.
Eu costumo me lembrar dessas histórias em noites de insônias. Me vem à memória o riso – abstrato – dela, por saber que era ano bissexto, na folhinha… O ultimo dia de fevereiro e pronto, o depois – cheio de reticências – aparece, como por encanto. Um raio de sol que entra pela fresta da janela. Algo lindo de se ver.
Tão lindo como os azuis das hortênsias nos vasos gêmeos da varanda ou como as flores do ipê que se abriram após a chuva cair depois de uma seca que se prolongou por mais de cento e cinquenta dias. O cerrado queimou-se.
Descobri nas fotografias guardadas… florzinhas azuis. Foram tiradas em uma manhã de outono. As estações se transformam no meu quintal. Em dias de chuva, à noite, os pirilampos não vem. Pela manhã, as cigarras cantam.
A morte andou rodeando a minha realidade, por esses dias. O luto predomina em ausências que, às vezes, sempre foram ausências. Li diários antigos escritos como se fossem mapas de ruas sem saídas e me lembrei da sua linguagem abstrata e acabei perdida nas memórias aleatórias.
Alguém disse que eu tinha que salvar o vento… sabe o que fiz? O engarrafei…
Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais
