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Sábado, 2 — *Espio o meu mundo…uma rua cinza com casas dos dois lados…

* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia – do texto de Lunna Guedes

Ph: Pinterest

Anteontem, quando fiquei sabendo do voo do pianista Arthur Moreia Lima revivi minha infância. Meu pai, em sua simplicidade, adorava a música clássica. O velho motor rádio fazia com que ele se transformasse durante um programa nos anos 70.

Quando mudamos para a cidade ele me matriculou com a melhor professora de piano do lugar. Durante um bom tempo, lá ia eu, atravessar a cidadezinha, com suas ruas cinzas, de paralelepípedos, como se fosse enviada para o castigo. E vivi grande parte daquilo entre sonatas e adágios. Arthur era o pianista preferido do meu pai. Era espetacular vê-lo, em sua cadeira de balanço agitar os braços no ritmo do prelúdio 23.

Recordar esses momentos foi como atravessar de novo aquela rua comprida e suas casas de cada lado, até a casa de d. Margarida. Sentar-me na cadeira ao lado dela e torcer para não errar a partitura. Era um ritual mágico e lindo. Muitas vezes via meu pai olhando escondido na janela. Não sei se era apenas para vigiar e descobrir se eu tinha ido mesmo à aula, ou se ele apenas queria me ouvir tocar.

Escrevi sobre isso aqui, mas de tudo que me lembro e me enternece ainda hoje foram os paralelepípedos acalentando meus pés, na rua que hoje acho tão pequena e na época, era gigante. As tias, nas janelas, sobre as cortinas querendo saber se aprendi muito ou não. Os irmãos a zombar do meu caderno de partituras em uníssono agitando os dedos como se fossem os maestros de uma brincadeira sem fim.

Arthur, Bach, Mozart e Chopin cabiam nos sonhos do meu pai como se fossem amigos íntimos. Era como se o rádio o levasse para dentro das teclas e as sinfonias transformava o homem simples da roça em um conhecedor do erudito.. E por ele até tentei, mas minha parte musical não avançou muito, mesmo com o piano herdado da professora.

Hoje, nessa data em que homenageamos os mortos, a rua e suas casas me receberam de novo – nas memórias guardadas no peito. Embora, eu não tenha aprendido a tocar piano, desejei me deliciar para homenagear o artista que tanto encantou em muitas noites serenas, o meu pai.

Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais

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