* quote extraído do Coletivo Ao vento, todo dia — habitudes, de Adriana Aneli
Luci,
Você disse que “Os capítulos bons da vida são sempre os mais curtinhos…” e em parte, concordei com você. Tenho tido alguns momentos curtinhos bons. Mas, em geral, acho que pertenço a um espaço maior. Horas cheias de conversas com minha bambina, um tempo longo conversando com as plantas e sabe, Luci, isso está me salvando depois de tantas perdas. Percebi que estou parada no tempo e depois de alguns meses pude começar a escrever de novo e hoje li você, assim de relance mesmo, para caber nas ideias novas que o pensamento pediu.
Quando você falou sobre ruas estreitas e suas lâmpadas acesas, em vez de abandonos, eu vi recomeços, reencontros e te vi um pouco no deus da sua escrita – fica desenhando inseto e flor, rabiscando as paredes do céu, perdendo sua eternidade confortável com as aranhas que moram no canto da sala. Seus domingos compridos – e eternos – emendam-se às segundas-feiras e Ele não termina nada que começa, porque tudo é eterno no tempo de Deus. Pega seus livrões e escreve à mão umas coisas a acontecer. Olha pra fora e continua a ser Deus das aranhas, das flores, dos insetos… – e acho que ele existe no meu quintal, que agora ganhou uma extensão em um bairro comum de São Paulo, Luci… eu queria te contar isso.
Os pássaros azulzinhos – sanhaços – que voam aqui cabem lá no quintal da minha bambina. E não é só isso não, Luci… as farfallas – como ela diz – sobrevoam as flores do maracujás de lá e até um casulo ela fotografou. Foi quando eu pensei que os desvios do meu quintal criou essa rota para não sentir mais nenhuma solidão. Hoje, até um beija-flor apareceu. De tão feliz com isso, dancei.
Os sabiás, Luci… os daqui ganharam uma piscina feita de uma saladeira colorida que nunca usei de verdade para saladas. Você nem imagina a festa que eles fazem – e claro, que brigam também pelo espaço. E lá no outro quintal, para além dos quilômetros que nos separam, eles também se expõem em cantos e voos rasantes, entre fugas de gatos.
A vida é assim, Luci… cheia dessas delicadezas e afetos… deve ser para compensar algumas coisas que acontecem fora de nosso controle. Como agora… o sol se encosta em tons de despedida nas flores do meu lugar, mas lá, já anoiteceu. De suas palavras, veio a nova ideia e te escrevi… fiquei pensando em como você tira os acentos da melancia… eu não tiro nem as sementes. Acontece que para mim, os dias aqui sempre começam com o buongiorno dela e termina com o bacio. Te escrevi só para te dizer isso. Mas, já adianto que ela também vai ler sua carta., porque acho belo isso e como você mesma disse: A beleza é um momento de desatenção.
Beijo meu,
Mariana Gouveia
BlogVember via Scenarium Livros Artesanais


Mariana, a segunda trouxe a chuva e o seu texto afetuoso. Obrigada, voz potente que vem Cuiabá nos alentar. Aconteça o que acontecer hoje, nada, nada mesmo poderá me ferir. já tenho dois antídotos no jeito, de sua autoria: “fiquei pensando em como você tira os acentos da melancia… eu não tiro nem as sementes” / e de Luci: “A beleza é um momento de desatenção”. Agradeço uma vez mais por tanta delicadeza de sua parte!
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Eu me aconcheguei em seu abraço 🤗 grata por tanto.
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