Cadeados Abertos · Das palavras das cartas · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Carta ao meu pai aos cuidados das lembranças

juara

Choveu essa noite, pai. E enquanto assistia a chuva a cair, o cheiro de terra molhada me carregou para a infância. Virou quase abril esse dia que antecede junho.

É seu aniversário amanhã, pai, e a chuva benze o dia para que seja abençoado também. Sabe aquele cheiro que exalava quando as primeiras gotas caiam e a roça de toco ganhava o respirar para acolher sementes? Senti o mesmo cheiro aqui. Deve ser o céu a te brindar mais um ano. Perdi a conta dos dias que não chovia, talvez por isso, o barulho das gotas no telhado tenham me levado para dentro das lembranças. Quase me envolvi no paletó de flanela com florzinhas miúdas. A sensação é plena, pai, e, embora já tenha passado tanto tempo, eu ainda sinto tão forte os instantes vividos, que é como se fosse um filme a desenhar as lembranças diante dos meus olhos

O fogão a lenha a crepitar ardência e o cheiro do café coado na hora acordada nossa fome e todos os sentidos. Hoje os cabelos brancos emolduram seu rosto e distância não me permite o abraço de perto. Ligo o rádio e ele toca suas músicas, enquanto as gotas suavizam e um céu alaranjado anuncia mais uma vez essa coisa insistente de quebrar as previsões.

A canção me traz o encanto da terra e, nessa hora meu coração te abraça. Posso dizer que o tempo não parou, pai, e o seu radinho de pilha intocável, a nos contar histórias e nos ligar ao mundo. Lá fora, o dia pinta diante de mim a cena que revivo e quase chego a sentir o cheiro de relva molhada, enquanto os animais se preparam para o dia que vem chegando.

Engraçado que a gente não manda nas lembranças e a vida acontece dentro delas. Sempre quando chove me lembro do cheiro da horta, onde colhíamos os legumes fresquinhos. Essa sensação é tão estranha que é como se eu estivesse com um livro aberto e as imagens aparecessem em minha frente.

Meu encanto pelos cavalos, as borboletas e aves é como se fosse um presente seu, em seu amor pela natureza e sua força diante do trabalho. Como nesse dia deixar de te escrever e dizer do meu amor, embora saiba disso sempre. Estamos marcados pela sua força e vontade de viver. A vida te deu momentos difíceis, mas a maneira de ainda cultivar a fé e levantar os olhos ao céu em agradecimento, é o mesmo sempre; e é com esse gesto que dedico minha oração a Deus.

Feliz Aniversário,

Daqui, de onde as lembranças me abraçam, te beijo

Mariana Gouveia
In Cadeados Abertos – Diário das Quatro Estações
pág. 171
Editora Scenarium Plural

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Carta à mia bambina aos cuidados de Fevereiro

Carta à mia bambina aos cuidados de Fevereiro

 

“No cotidiano
sou nuvens
Às vezes, choro
N’outras, eu
chovo”
Elke Lubitz.

Ah, bambina! Fevereiro chega como previ e detalhei para você mais cedo. As trovoadas trazem você aqui para o meu quintal. Já choveu tanto e agora, entre o espaçar das nuvens vejo o sol brigar com as gotas que caem. Parece até que eu estava te esperando e você veio. Desde ontem você anda rondando meus pensamentos. A tempestade me trouxe seu nome quando cantei a canção que lembra você.
Busquei alguns temas que enviou e passei a andar por eles, descalça, para que a magia aconteça aqui dentro.
As aves festejam que só, esse tempo. Cantam, me espiam e ficam ali, a sentir a chuva enquanto eu me encanto.
Com esse tempo, meu quintal ganhou mais presença. De cores, de amor e de flores. Há plantas novas a enfeitar a parede lateral. Jasmins pequenos que durante a noite exalam o perfume – exótico – de uma noiva. Explico. As flores nascem em forma de buquê e toda vez que olho para elas, me lembro do buquê da noiva. Bobagem minha.
Os trevos estão que é flores só. E a Maria-sem-vergonha não para de florir. O jardim está em plena pompa. Pronto para a festa diária que faço aqui.
Como posso considerar verão se o mês que passou foi todo primavera?
Bambina, as novidades abraçam meu coração em uma forma doce de amor. A vida me trouxe maresia de presente e vivo lendas mitológicas no meu quintal. Sou que é chuva em dia de sol, como agora. Até pareço personagem de uma história e se existe um estado de felicidade, estou dentro dele.
Fevereiro chega e eu já quero antecipar os dias. Talvez eu seja uma das poucas que pularia – olha que contradição – esses dias de Momo. Me dá preguiça.
Atravesso a rotina do dia. E já vivo Alice plena. E você sabe do que falo. E com isso, te abraço no doce agradecer por você na minha vida. A leve impressão de estar aí, seja no voar de uma farfalla ou em uma joaninha na roupa do teu menino me dá a certeza de que longe não existe entre nós.

Amo tu!
Grazie mille

Bacio,
Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta de amor explícito

carta de amor explicíto

Querida A.

É quase um absurdo amar e apaixonar – me dizia meu professor de teatro – cometo esse absurdo duas vezes. Amo Thereza e sou apaixonado por Ana.
Estávamos ensaiando um monólogo – A menina do tapete e o menino do girassol, onde eu lia algumas cartas no palco no desenrolar da peça.
Apenas no dia da estreia é que descobri que as duas era a mesma pessoa. Ana Thereza e que a peça foi uma declaração de amor para ela. Era um amor especial.
Eu sempre repetia a ele que queria um dia um amor daqueles para mim, porque havia uma magia quase transcendental entre os dois. Presenciei dias seguidos a química que havia ali.
O tempo nos levou para caminhos diferentes e o teatro ficou só no sonho mesmo, apesar do sucesso da peça. E de Theodora, a personagem, ficar gravada em mim, desde então.
E hoje, eles vieram em minhas lembranças pelo simples motivo de sentir aquela mesma magia e venho declarar a você meu maior absurdamente amor explicito.
Primeiro você me trouxe o encanto em buquês de poesia e coração. E a sensação de amplitude foi tomando meus espaços todos e quando percebi já era você por inteira. Em palavra, corpo, alma e desejos.
Com você eu dancei na chuva. Pulei ondas. Em um corredor esplêndido, fez meu rio virar mar e me deixou plena de maresia.
Saí pela noite a desenhar estrelas em seu corpo e vez por outra embriagar de paixão. Absurdamente.
Embriagada, eu conheci a felicidade em teu riso molhado dos meus beijos. A boca estava ali, ao alcance do toque. Bastava fechar os olhos e sentir.
Embriagada, eu sentia tuas mãos a me buscar e nesse momento, o prazer era dos mais extraordinários que vivi. A palavra é essa, querida. Extraordinário amor.
Com você conheci caminhos nunca antes percorridos e neles me perco para me achar de novo dentro de você nesse desalinho mágico de viver o amor, onde descubro que tudo que vivi até hoje, foi para respirar esse momento pleno.
As minhas manhãs ganham o encanto do seu nome e minha tarde enrola na saudade sentida, até cair de novo em seus braços em fim de tardes ensolaradas e noites de chuvas.
As estações vivem todas aqui, dentro de mim. Quente, frio, calor, desejos, flores e cores deslumbrantes com as quais você me pinta. E há um canto nascente dentro da minha alma onde pinta estrelas no meu céu. Esse mesmo céu onde voo para pousar em sua boca e seu corpo, meu amor.
E por onde passo derrama corações sobre meus pés.
É infinito esse sentir e não é de agora. Já era desde sempre e será. Porque o o extraordinário foi feito para ser sempre.
E assim, te amo todos os dias na delicadeza dos instantes. Na borboleta que faz amor com a flor e se encanta pelo cheiro. Te amo na chuva que cai, no sol e no mar onde me envolve no mais doce viver.
Se isso se chama felicidade então eu a vivo plena todos os dias.

Eu te amo em todos os idiomas existentes e até naqueles que eu inventar.

Beijo meu,

Mariana

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Carta à bambina aos cuidados do amor

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Bambina mia,

Aqui o dia amanheceu nublado e esse tempo me faz lembrar você.
Na madrugada, trovejou. O céu parecia festa de ano novo. Os raios lembravam os rojões e os trovões, os fogos. Confesso que detesto fogos e rojões – por causa dos cães – mas, hoje, foi essa impressão que tive. E ocorreu-me o pensamento de que o céu fazia festa para você.
Pareceu Maio e seus trovões que você ama tanto e quando o dia clareou uma garoa fina cobria o quintal e minhas flores ficaram com aquelas gotículas que parece suor na pele.
Saí para caminhar um pouco e te levei comigo – sempre levo – mas hoje, foi especial.
Fui despejando em cada passo, palavras para que o universo ecoasse e levasse até você meu carinho.
Refiz nossas conversas e nossos silêncios – às vezes – e pude constatar mais uma vez o quanto sou abençoada. Sua presença em minha vida me torna melhor.
Cada vez que lembro de você é como se fosse uma continuação de um encontro que já houve antes mesmo de nos encontrarmos. Não queira explicações sobre isso. Não poderia explicar.
A sesnsação que tenho é de você na minha vida desde sempre e é com essa sensação plena de abraço que te envolvo no meu carinho, hoje, mais do que nunca.
Sorvo o chá enquanto penso em Jane Austen, autora que você adora e é com uma frase do livro Razão e sensibilidade que te abraço:
“Seus olhos erravam por aqui, por lá, por toda a parte, maravilhados. Ela viera para ser feliz, e já se sentia feliz..”

Che tu sia felice!
canterò per te la canzone che mi ricorda di te:

“Only you can hear my soul, only you can hear my soul

Luna tu
Quanti sono i canti che rissuonano
Desideri che attraverso i secoli
Han solcato il cielo per raggiungerti

Porto per poeti che non scrivono
E che il loro se non spesso perdono
Tu accogli i sospiri di chi spasima
E regali un sogno ad ogni anima
Luna che mi guardi adesso ascoltami”

baci mille

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Carta à bambina com aromas de café

Carta à bambina com aromas de café.

Hoje, o dia amanheceu normal. Se bem que comigo nunca nada é normal. O bem-te-vi pousa na árvore e eu canto sempre a canção que me lembra a ave.
Repito com ele o “bem-te-vi-eu-que-te-vi e o dia ganha a normalidade na rotina.

Ainda antes era agosto e a fumaça cobria meu céu e a ansiedade banhava meu coração e daí o abraço se deu e a alma que antes já sabia o sabor, ganhou cheiro de cartas abertas, cadernos lidos, livros apreciados.

Você, bambina, que já era de cuore, se transformou raiar de paixão. Pele sentida e encoberta pelos braços e o riso no sotaque mais paulistano italiano que já vi.
Fecho os olhos e posso estender a mão e te toco. É você ali, ao alcance do paladar e dos sentidos. História costurada na minha.

O mês era outro e parece que foi há um ano. Sinto aqui em mim ainda, o precipitar do cheiro de sua cozinha e não era café. Era pão e chá. A delícia do cão molhado a esfregar em mim. As histórias contadas quase em alta rotação, porque o relógio me avisava a hora.
Setembro foi folha caída, doída, rasgada e tirei ele do calendário. Sabemos porque.

A vida deve ser saboreada assim, na beleza e no sabor majestoso do café. E escrevendo-te na memória do ritual que sigo. O meu coador é de pano – ainda – contrariando minha amiga barista e deixo ferver a água em borbulhas e ela quase morre. Diz que o ponto é antes da fervura.
Depois, só depois é que bebo. Beber não, pois é quase um absorver o cheiro e gosto em um só lugar. Você sente o líquido invadindo teu corpo e produzindo as sensações prazerosas na alma.
E é assim que desejo que tua vida seja. Saboreada ao máximo diante da xícara diária que te é oferecida.
Meu pai sempre me dizia que café “bão” é o café puro.O nosso, ele mesmo colhia, torrava, moía e fazia. Usava o coador de pano e a xícara esmaltada verde abacate com desenhos de florzinha. Um dia, o apresentei o café com creme.

Luxuosamente servido numa xícara branca que eu tinha. Ele se maravilhou! Quis repetir. E durante alguns dias, meu desafio era criar novos tipos de cafés pra ele. Desde o capuccino ao macchiato. Mas, a paixão dele foi o írish coffee, feito com um uísque comum que eu tinha na época. A cada descoberta de uma nova receita ele se empolgava e o mais impressionante é que mesmo empacotado à vácuo ele sabia que tipo de café era aquele – a terra roxa proporcionava um sabor inigualável ao café – ele dizia.
O Arábica tinha essa ou aquela particularidade. O Robusta melhor era o produzido em Minas Gerais.
Quando por fim, ele retornou pra sua casa, um dia antes, no arrumar das malas, empacotando o moinho e o torrador, ele me disse: Durante anos eu havia sorvido os melhores cafés da vida. Aqueles que eu mesmo plantava, colhia, escolhia e preparava como artesão para beber. Achava que era assim e pronto. Mas, experimentando outros tipos descobri que a vida deve ser vivida igual ao café. Com novos experimentos, com novos sabores, com outras atitudes. O café para ser apreciado e soltar seu sabor passa por etapas diversas antes de chegar a nós. E por último, a fervura faz com ele exale teu aroma e com isso, convida todo mundo que é captado pelo cheiro a tomar um café. A nossa vida, é igual ao café, minha filha. Passamos por tantas coisas, enfrentamos tantos desafios. Somos torrados, moídos, catados, escolhidos e quando a “fervura” nos pega o que deve sair de nós é o aroma de nossa alma convidando a todos que percebam para saborear a nossa vitória.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta à minha mãe aos cuidados das lembranças.

Carta à minha mãe aos cuidados das lembranças.

Sabe, mãe. Os dias voam tal qual as asas das borboletas e como as nuvens em dia de primavera aceleram e vão se tornando semanas, meses e anos.Você se lembra de quando eu perguntava qual dia era hoje e você sempre me dava motivo para aquele dia ser especial? O dia tinha o nome do santo, a estação vigente dentro dele e um ensinamento que vinha com a frase de alguma coisa que você leu em um livro ou em uma fotonovela.

Você guardava as datas como jóias. Eu sigo igual.
Conto os dias com a intensidades deles. Mas, o dia de hoje, eu preferia esquecer. Marca a sua partida daqui. Eu, ainda menina, vivendo dentro de uma adolescência e você se foi.
Tenho raiva da data – você sabe – e muitas vezes, me vi rasgando o mês inteiro da folhinha.

Dias desses, abrindo meu baú de lembranças achei a última carta que enviou para nós. Tenho ela guardada ao acaso. O cartão de aniversário desejando dias felizes e junto, a carta que ia enviar para a rádio solicitando a música que você sempre dedicava ao meu pai e que não sei por que, veio junto no envelope.

Foi de você que peguei essa mania de cartas. Você ia gostar de saber que até hoje, eu ainda continuo a escrevê-las. Espalho as palavras mundo afora e com isso cultivo amigos que são alento para mim em dias difícies e companhias adoradas nos dias bons.

Já são 33 anos. E todo ano eu te escrevo pelo menos duas vezes no ano. Nos outros dias, eu converso com você através das coisas que faço.
Sua família cresceu, mãe e seus netos, alguns que você nem conheceu já são pais e mãe,
Acho que você iria gostar de ver seu jeito em cada um deles.

Você permanece viva nas lembranças e quando falamos de você fica um pedaço em branco daquilo que você não viveu, mas também fica uma presença enorme do amor que você nos dedicou.

A vida é hoje – lembro-me que dizia assim – e se cochilarmos amanhã já não será amanhã. Continuo seguindo seus ensinamentos. Me vejo repetindo gestos que você fazia, frases que você dizia e como resposta, vejo meu filho responder as mesmas coisas que eu te respondia.
Será a vida este eterno reinicio, mãe?

Acho que iria gostar do que me tornei. Agarrei-me a arte como meio de te fazer viver dentro das poesias, das histórias de amor que você gostava de ler. Do artesanato que você magistralmente criava e dos sonhos que tantas vezes revelou. Aprendi de verdade os pontos que me ensinou e crio colchas de retalhos que já atravessaram o oceano. Bordo esperança em orações que viajaram para outros estados.

Ainda me encanto pela magia dos contos que você criava e de como nos fazia sentir dentro de um na rotina dura de ser mãe de sete filhos.

Busco equilíbrio na fé. Na mesma que você repetia e tenho a mesma mania das suas superstições. Talvez nem acredite tanto nelas mais, porém, falando delas é como se prolongasse os instantes teus em nós.

E como você um dia disse que minhas poesias – tão infantis na época – estariam em um livro, venho te contar que já estão.

Talvez eu seja a mesma sonhadora que você foi. Talvez eu pense da mesma forma que você pensou – de que só a arte possa salvar as pessoas e de que através da arte a gente possa chegar no coração delas – e é assim que sigo meus dias, mãe.
Levando ao outro o sentimento do amor.
Dividindo instantes que acho mágico através das imagens que confesso, às vezes, penso ser você que me envia tanta beleza nos momentos que vivo.

Hoje, doo de mim, as palavras, mãe e você que precisou tanto de uma doação e se foi antes que pudesse ter tido a chance de mais dias.

Termino essa carta em oração para que mais pessoas possam doar rins – que foi o que você precisou – sangue e que outras mães não precisem ir embora tão cedo.
E que eu possa, nas palavras de amor que espalho estar cada vez mais perto de você.

à benção, mãe!
Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Mania do destino de escolher dias longos para doer mais

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Um homem toma posse de nada. A vida amanhece plena de saudade. Era domingo, os dias iguais sem ela. Quebra a caixa, destrói as sementes todas – lembranças perfumadas. Vidas plantadas – que ela deixou. Não há vestígios de vida no jardim. Só gritos internos que habitam o silêncio de mim.
Pétala por pétala exposta em cheiro na mesa. A mesma mesa dos desejos todos. Da fome de existir dentro dela. Esqueceu de brotar na folha do canto. A flor preferida não resistiu ao calor. O inverno aqui é quente, seco, sem umidade que precede raiz. O doce, no canto, apenas faz figura da palavra perdida. Era doce a vida. Era. Por desacato a flor avisa mudanças. O halo de cheiro invadindo quintais. A música toca. O pássaro canta. Parece que ri. Mania do destino escolher dias longos para a saudade doer mais.
Histórias iguais a sua contada em poesia. Era ali, no livro marcado no poema que ela leu que mais doia existir.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Carta para Teresa

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Acontece mudanças no meu jardim. Migrações de formigas entre os canteiros me lembram as palavras do meu pai: formigas mudando é sinal de chuva.
E não é que aconteceu? Caiu a maior tempestade aqui. Tive de mudar as coisas todas do lugar. O pé de amora perdeu seus frutos – ou quase todos – o vento não foi companheiro dessa vez. Até um ninho que havia lá, caiu. Sorte que os filhotes haviam ganhado asas dias atrás.
Mas como sempre depois da tempestade, vem a bonança o sol amanheceu radiante. Não veio o frio anunciado pela meteorologia. Está o mesmo sol de sempre e os quase 38º às 10 da manhã.
A vida acontece ali fora. Um céu azulinho que vira poesia só de olhar e as nuvens que passeiam por ele como se fosse um desfile.
Vejo nelas figuras estranhas e algumas que parecem coisas, animais. Já brincou de descobrir desenhos em nuvem?
Faço isso sempre – confesso – e descubro algumas engraçadas. Em sua maioria, vejo corações. Aliás, há coração em quase tudo que vejo. Desde uma folha seca que voa, ou alguma flor que brota no jardim. Também nos grafites dos muros.
Vejo corações por ai. Até em nossas conversas, na despedida, sempre me envia aquele coraçãozinho rosa que arranca sempre um riso de mim, depois do beijo e na despedida.
Hoje, lembrei da história do teu nome. Quantas histórias podem encerrar um nome e percebo que a sua tem a docilidade de avó bordada nela. E como leva o nome da padroeira das flores é assim que te rendo homenagem.
Flor colhida no jardim. Um gesto que viaja através das letras e atravessa o oceano na acolhida doce da amizade.
Que ao ler seu sorriso seja de ternura e que sinta nas palavras meu carinho.

Beijo meu

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Tempestade para uma bambina aos cuidados de Maio

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Eu rejeito a tristeza
Soberba e vã
Sobressaio entre muralhas
Engano raios
Adormeço trovões

Renas Barreto

Hoje amanheceu aqui com seus trovões, bambina. Maio veio tempestade quente de um céu rugindo e ventos nervosos. Raios cortam o céu como se partisse ele com um golpe só, o cinza – que você adora, toma conta do dia.

Acordei assustada com um barulho nas janelas. Era uma libélula que ficou presa dentro da sala, por um descuido meu. Sempre faço a vistoria antes de deitar. Vago nos quartos procurando algum vestígio de bichos alados que insistem em povoar meu lugar.

Foi quando maio – o seu – veio passear por aqui mudando a rotina das histórias. Não sei porque essa palavra tempestade vem ocupando  assombrosamente minha vida. Muitas vezes, num bom sentido. Outras, nem tanto.

Gosto das palavras úmidas, dos cheiros que elas me trazem. Seja chuva, seja orvalho, gota e esse mar imenso que cai agora. Embora, a palavra chuva me banha mais na alma do que nos pulos que dou de braços abertos, como se essa chuva de hoje, enquanto penso em você me benze, me lava e me prepara para uma imensidão de coisas que virão.

Gosto de ver meu beija-flor no seu banho de chuva. É a vida úmida acontecendo aqui, dentro do meu quintal. Tudo soa diferente dos costumes rotineiros. Não molho o jardim. Ele todo respinga alegria e a terra já exala o cheiro que tanto gosto.

Parece gosto de infância, de paletó de flanela xadrez, de leite fervido com eucalipto que minha mãe fazia no fogão a lenha que aquecia a mim e aos meus irmãos enquanto lia para nós.

Sempre fiquei com a impressão de que ela inventava algumas das histórias. Lembro de cada uma como se fosse hoje. Os cheiros nos leva para esse passeio insistente da alma em visitar passados, e nas lembranças minhas, o cheiro, tem o maior elemento.

Cheiro das folhas molhadas, cheiro do leite fervido. Do café. Da fumaça do cigarro do meu pai, que olhava a chuva da janela. Essa mesma janela que trago sempre na lembrança que é de onde te espio. Chego a empurrar a chuva para você. Imagino sua cidade cinza e o seu cão no sofá de sempre, em seu silêncio puro e acolhedor.

Hoje, trago-te essa tempestade. Ela desaba aqui. Também guardo-a em palavras nas histórias que escrevo, que leio para um dia, num abraço poder derramar sobre você meu carinho. De alguma forma, mesmo que não possa ouvir, o céu ruge aqui como se nos ligasse no mesmo ponto das vontades de chuva.

Dizem que o tempo mudará e que o inverno antecipará seus dias por aqui. Confesso que não acredito muito na meteorologia. Porém, se tudo isso acontecer, teremos um frio histórico aqui. Um lugar que chega aos 40º em sua maioria dos dias, qualquer 20º já dá para pensar nos cachecóis – esses que você adora e que para mim, tem sua marca registrada – e nos paletós.

O dia pede urgência. Fervo o latte para o cappuccino. Canto “Luna, tu. Tu rischiari il cielo e la sua imensità” e deixo meu bacio envolvido pelo barulho do céu que desaba aqui. Hoje, sua alma morou em mim.


Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · Lunna Guedes

Carta em Vermelhos Tons

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Bambina mia

“Sei dos crepúsculos, das manhãs, das tardes,
Medi minha vida em colherinhas de café”
Lunna Guedes

 
A tarde surge com prenúncio de mais um temporal e pensei em você. Os Vermelhos Tons me traz uma certa nostalgia.
Caminho com você pelas estações e cruzo as calçadas contigo.
Em silêncio. Gritante, às vezes, como uma menina travessa que solta da mão do responsável e corre adiante, pela rua.
Vou aos poucos descobrindo lugares, visitando seus caminhos antigos e posso até detalhar os matos que crescem nos fios desgastados das calçadas.
Os tons de cinza das ruas me atinge. Mas, sinto paz aqui, quase uma redenção para uma alma em burburinho nos últimos dias.
Dentro de uma sexta-feira a promessa se cumpre e aqui estou eu, sendo apresentada ao espelho de seus tons rubros, com toda paixão que a cor causa em mim.
Tropeço na possibilidade de ser. De poemar Cecília para você rir. Sim! Imagino você rindo com meu jeito moleca – dizem sempre que sou assim – moleca.
Atravessar as ruas e saborear no ar o cheiro delas, os aromas das suas feiras e a cor dos tomates que escolhe para o molho, que já antevejo, e posso sentir o gosto na boca.
E no fim do passeio, bambina, abro o pacote de vento que trouxe. Desses que levanta as saias, assanha os cabelos e faz arrancar risos. Te convido para abrir os braços e saborear a dança do vento.
É aqui, nesse cenário inventado que visito o seu. Que abraça a minha alma e me acolhe como uma flor acolhe a borboleta.
Encerro essa carta com as suas palavras em Junho, para seu menino amor.
Lá onde os lilases de Junho floreiam amor e foi onde te descobri. Quase como gestar de novo essa amizade que em mim, floresce sempre como se fosse desde sempre.O cheiro do chá me convida para mais uma lembrança e ainda bem que não perdemos o hábito de escrever missivas.

Bacio
Mariana Gouveia