
Choveu essa noite, pai. E enquanto assistia a chuva a cair, o cheiro de terra molhada me carregou para a infância. Virou quase abril esse dia que antecede junho.
É seu aniversário amanhã, pai, e a chuva benze o dia para que seja abençoado também. Sabe aquele cheiro que exalava quando as primeiras gotas caiam e a roça de toco ganhava o respirar para acolher sementes? Senti o mesmo cheiro aqui. Deve ser o céu a te brindar mais um ano. Perdi a conta dos dias que não chovia, talvez por isso, o barulho das gotas no telhado tenham me levado para dentro das lembranças. Quase me envolvi no paletó de flanela com florzinhas miúdas. A sensação é plena, pai, e, embora já tenha passado tanto tempo, eu ainda sinto tão forte os instantes vividos, que é como se fosse um filme a desenhar as lembranças diante dos meus olhos
O fogão a lenha a crepitar ardência e o cheiro do café coado na hora acordada nossa fome e todos os sentidos. Hoje os cabelos brancos emolduram seu rosto e distância não me permite o abraço de perto. Ligo o rádio e ele toca suas músicas, enquanto as gotas suavizam e um céu alaranjado anuncia mais uma vez essa coisa insistente de quebrar as previsões.
A canção me traz o encanto da terra e, nessa hora meu coração te abraça. Posso dizer que o tempo não parou, pai, e o seu radinho de pilha intocável, a nos contar histórias e nos ligar ao mundo. Lá fora, o dia pinta diante de mim a cena que revivo e quase chego a sentir o cheiro de relva molhada, enquanto os animais se preparam para o dia que vem chegando.
Engraçado que a gente não manda nas lembranças e a vida acontece dentro delas. Sempre quando chove me lembro do cheiro da horta, onde colhíamos os legumes fresquinhos. Essa sensação é tão estranha que é como se eu estivesse com um livro aberto e as imagens aparecessem em minha frente.
Meu encanto pelos cavalos, as borboletas e aves é como se fosse um presente seu, em seu amor pela natureza e sua força diante do trabalho. Como nesse dia deixar de te escrever e dizer do meu amor, embora saiba disso sempre. Estamos marcados pela sua força e vontade de viver. A vida te deu momentos difíceis, mas a maneira de ainda cultivar a fé e levantar os olhos ao céu em agradecimento, é o mesmo sempre; e é com esse gesto que dedico minha oração a Deus.
Feliz Aniversário,
Daqui, de onde as lembranças me abraçam, te beijo
Mariana Gouveia
In Cadeados Abertos – Diário das Quatro Estações
pág. 171
Editora Scenarium Plural
Belíssima homenagem, lindeza em palavras… em letras vivas. O poder das lembrança que a levaram a uma reflexão potente… “Engraçado que a gente não manda nas lembranças e a vida acontece dentro delas”. Um abraço caloroso em ti Mariana.
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Obrigada, Adriano!
Todos os anos, cultivo essa ideia da carta. Como ele não consegue ler e adora rádio, minha irmã, que cuida dele em outra cidade, envia a carta para um programa de rádio que ele adora e ele escuta através das ondas que ele me fez amar.
Hoje, ficou mais emocionado do que de costume, afinal, são 84 anos.
Assim é a vida. O tempo passa e são as lembranças que ficam.
Abraço carinhoso em ti também
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Parabéns ao seu pai e parabéns a vocês por este lindo costume… que gesto de puro amor. Gostaria que isso se tornasse uma tradição, uma cultura que se expandisse, para que as pessoas aprendessem que o amor e a gratidão valem a pena, que a vida pode ser uma leve pluma.
Pois é, as lembranças muito nos significam.
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