Hoje, o dia amanheceu normal. Se bem que comigo nunca nada é normal. O bem-te-vi pousa na árvore e eu canto sempre a canção que me lembra a ave.
Repito com ele o “bem-te-vi-eu-que-te-vi e o dia ganha a normalidade na rotina.
Ainda antes era agosto e a fumaça cobria meu céu e a ansiedade banhava meu coração e daí o abraço se deu e a alma que antes já sabia o sabor, ganhou cheiro de cartas abertas, cadernos lidos, livros apreciados.
Você, bambina, que já era de cuore, se transformou raiar de paixão. Pele sentida e encoberta pelos braços e o riso no sotaque mais paulistano italiano que já vi.
Fecho os olhos e posso estender a mão e te toco. É você ali, ao alcance do paladar e dos sentidos. História costurada na minha.
O mês era outro e parece que foi há um ano. Sinto aqui em mim ainda, o precipitar do cheiro de sua cozinha e não era café. Era pão e chá. A delícia do cão molhado a esfregar em mim. As histórias contadas quase em alta rotação, porque o relógio me avisava a hora.
Setembro foi folha caída, doída, rasgada e tirei ele do calendário. Sabemos porque.
A vida deve ser saboreada assim, na beleza e no sabor majestoso do café. E escrevendo-te na memória do ritual que sigo. O meu coador é de pano – ainda – contrariando minha amiga barista e deixo ferver a água em borbulhas e ela quase morre. Diz que o ponto é antes da fervura.
Depois, só depois é que bebo. Beber não, pois é quase um absorver o cheiro e gosto em um só lugar. Você sente o líquido invadindo teu corpo e produzindo as sensações prazerosas na alma.
E é assim que desejo que tua vida seja. Saboreada ao máximo diante da xícara diária que te é oferecida.
Meu pai sempre me dizia que café “bão” é o café puro.O nosso, ele mesmo colhia, torrava, moía e fazia. Usava o coador de pano e a xícara esmaltada verde abacate com desenhos de florzinha. Um dia, o apresentei o café com creme.
Luxuosamente servido numa xícara branca que eu tinha. Ele se maravilhou! Quis repetir. E durante alguns dias, meu desafio era criar novos tipos de cafés pra ele. Desde o capuccino ao macchiato. Mas, a paixão dele foi o írish coffee, feito com um uísque comum que eu tinha na época. A cada descoberta de uma nova receita ele se empolgava e o mais impressionante é que mesmo empacotado à vácuo ele sabia que tipo de café era aquele – a terra roxa proporcionava um sabor inigualável ao café – ele dizia.
O Arábica tinha essa ou aquela particularidade. O Robusta melhor era o produzido em Minas Gerais.
Quando por fim, ele retornou pra sua casa, um dia antes, no arrumar das malas, empacotando o moinho e o torrador, ele me disse: Durante anos eu havia sorvido os melhores cafés da vida. Aqueles que eu mesmo plantava, colhia, escolhia e preparava como artesão para beber. Achava que era assim e pronto. Mas, experimentando outros tipos descobri que a vida deve ser vivida igual ao café. Com novos experimentos, com novos sabores, com outras atitudes. O café para ser apreciado e soltar seu sabor passa por etapas diversas antes de chegar a nós. E por último, a fervura faz com ele exale teu aroma e com isso, convida todo mundo que é captado pelo cheiro a tomar um café. A nossa vida, é igual ao café, minha filha. Passamos por tantas coisas, enfrentamos tantos desafios. Somos torrados, moídos, catados, escolhidos e quando a “fervura” nos pega o que deve sair de nós é o aroma de nossa alma convidando a todos que percebam para saborear a nossa vitória.
Mariana Gouveia

Amo tu!
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