Corredores, Codinome Locura

Carta para ela…

Minha irmã querida,

Às vezes, me pego revirando as lembranças… lá dentro delas está você e seu jeito único na dimensão do amor… e confesso que nesse tanto de tempo que já vivi, conheci poucas pessoas com um amor tão grande pelos outros como você.

Não me lembro de você que não seja sendo mão, amparo, equilíbrio, conforto, cuidadora e vó… sua melhor versão, toda derretida e com o amor derramando nos olhos. E sua voz sendo prece é sempre a certeza de que as coisas vão melhorar, vão acontecer e tudo ficará bem.

Se eu soubesse desenhar dentro dos dias seria a figura de mãe, de amiga, de irmã, de vó que eu pintaria e seria o quadro mais perfeito. Seu olhar encontra o outro e sempre enxerga a melhor versão e mesmo quando tudo parece perdido, o seu sorriso evoca a confiança que as pessoas precisam para acreditar.

No seu dia, essa carta é apenas um carinho para você que me oferece suporte em todas as horas em que perco a fé, em que me desanimo… Você sempre está lá, de abraço terno e coração amoroso me indicando a coragem para seguir.

Que tudo isso que você transmite, seja vivificado em você todos os dias.
Feliz Aniversário!

Te amo muito
Mariana Gouveia

Divã

Nós somos o tempo.

É para ti que transbordo todos os dias
E desenho corações nas flores
E dedico-te o raio mais vibrante do sol.

É para ti que me dispo
Tiro o véu, desfolho as vontades.
Que em camadas encobre meu desejo de ti.
E quando vai, e deixa em mim teu gosto agridoce,

Em mim o sabor de teu amor
Eu suspiro, pela alegria viciante de te ter.
Eu te amo e em todas as músicas de amor
As palavras falam de você.

Quando acorda com vontade de mim, faminta de amor,
e teu olhar inquieto me busca e a gente fala do tempo de querer…
Do tempo que te quero e então,
o tempo não é nada, porque nós somos o tempo.

Mariana Gouveia
Ph: Christophe Gilbert

Das palavras das cartas · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Espaços em branco…

No espaço branco entre o sentir e o não sentir.
O pensar e o não pensar.
O espaço branco entre o som e o silêncio. No espaço branco entre palavras desenraizadas e histórias abandonadas. O espaço alado da própria pele. O espaço entre os espaços em branco, todos os espaços que se desbravam por ele. Onde tudo existe como sussurro de um longínquo e imaginário passado de personagens, num fantástico e ilusório enredo.

Fátima

Leonor,

Assim que o avião subiu ao céu e deixou apenas um espaço branco em meio as nuvens eu já senti sua falta. O ir embora parecia tão distante… Os dias voaram e assim como você chegou em meio as brancas nuvens, da mesma maneira partiu. E não foram só as nuvens que se embranqueceram no azul do céu…

as cortinas já não traziam sua silhueta ao balançar nas minhas manhãs e eu ficava horas ali, a espreitar o vento que não exibia seu sorriso entre a penumbra da madrugada e a brancura suave das manhãs…

Sabe, Leonor, deixei em branco seu lugar à mesa com a xícara sem café e o livro que você esqueceu. Tive vários diálogos com as páginas em um idioma que não entendo e juro que fiz as mesmas perguntas desde então: quer café, flor? Mas não havia resposta e minha voz se esvazia em eco em uma cozinha e mesa tristes.

Também deixei em branco – sem dedicatória – o livro que era para ser seu, com poemas escritos para você. Esse vício antigo de escrever amores que eu sofro na sua ausência. Como pode ter esquecido tudo que prometeu? Como pôde simplesmente sumir no mundo como se aquela nuvem que engoliu o avião tivesse também te transportado para outro além?

Quando alguém me pergunta sobre você tento parecer que é natural o seu silêncio… Lembro apenas que você deixou em branco também a parede quando trocou sua fotografia pelos quadros de artesanatos que fiz e que os dias de falta são marcados pelas folhas da jiboia que você plantou. Cresceram tanto nesses mais de 4015 dias que você partiu e nunca mais voltou.

Leonor, deixei as folhas em branco no caderno sem escrever uma só palavra para você. Já rasguei tantas que escrevi, outras tantas eu apenas embolei e deixei no baú, com a data e seu nome na introdução da carta. Logo eu, que gostava tanto das folhas do caderno em branco para principiar histórias não consigo nem escrever nelas hoje a palavra saudade.

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam junto comigo desse projeto:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes OrtegaSuzana Martins

Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Experimenta a suave melancolia de uma manhã feliz.

Um dia feliz
Às vezes é muito raro
Falar é complicado
Quero uma canção
Fácil, extremamente fácil
Pra você, e eu e todo mundo cantar junto

Jota Quest

Roseli querida,

Reparei que nunca te escrevi uma carta e aproveitei esse domingo estranho – amanheceu frio aqui – para te levar pela mão no meu quintal. Queria te mostrar os ritmos das borboletas por aqui… Já faz tempo que percebi as lagartas no pé de cleome e de como rapidamente foram devorando as folhas. Eu plantei essa espécie, justamente para elas…

Depois de alguns dias, ao invés das lagartas, foram os casulos que se formaram… eu acho pura magia essa transformação, Roseli… e mesmo que eu já tenha visto várias vezes esse processo, é sempre como se fosse a primeira vez e a cada vez me emociono, então, se meu olho lacrimejar, não repare, viu?

Domingo amanhece aqui com uma tonalidade de azul tão linda que acho um pecado assistir sozinha esse céu… assim como sinto uma dó enorme alguém não presenciar as borboletas nascerem. Já te contei que elas nascem pela manhã? algumas espécies demoram cerca de uma semana para eclodirem o casulo e ganhar voos nos desvios do meu quintal.

Algumas, como se precisassem de amparo, buscam minhas mãos, mas isso, é só até as asas ficarem firmes e elas vão para as flores, plantadas para ela e para o Chiquinho.

Eu diria que minha casa é habitada por elas… assim como pelas suculentas, os cambacicas – que brigam com Chiquinho pelo bebedouro – e por essas manhãs melancólicas, mas felizes… quer experimentar comigo elas?

O chá – ou café – pode ser escolhido pelas ervas frescas, quase ao toque de mão através das janelas… assim como a geleia de jabuticaba, ou de menta – que eu aprendi a fazer recentemente – com pimenta. Mas, se você preferir o café, eu ainda o faço da maneira antiga, no coador de pano, torrado e moído pelo meu pai, vindo lá do lugar onde ele mora… e só não vou te dizer que ele plantou, porque a força dele já não dá mais para isso.

Sabe, Roseli, te mostrar meu canto, mesmo que em fotografias e palavras me faz sentir nostalgia sobre a época dos encontros…

Eu sempre fui de casa cheia, de risos largos, de manhãs de domingos com a cozinha em polvorosa na preparação da macarronada com queijo, da carne assada e maionese. Mas, o tempo foi levando os irmãos para longe, e hoje, nessa manhã atípica – mas feliz e tranquila – te agradeço pela companhia. Que as borboletas tenham adoçado seu dia e que setembro nos envolva em seus dias na proximidade do carinho.

Abraço carinhoso,
Mariana Gouveia
Missivas de Setembro
Scenarium Livros Artesanais

Estão junto comigo nesse projeto
Lunna Guedes Obdúlio Nunes OrtegaRoseli Pedroso e Suzana Martins

Das rotinas · Divã

Abstrato desejo de amar

Cortava a garganta
e não sangrava
o nome dela escorria boca afora
a pele dela desmanchando nos dedos
saía flor de sua alma andante


Nas paredes o nome escrito mil e quatrocentas vezes
o azulejo cortado em forma de coração
e no ar o perfume impregnado


os cinco sentidos explorando seu desejo de toque
a língua a umedecer o canto da boca
Na moldura, a imagem viva do que era
Abstrato desejo de amar

Mariana Gouveia

Cadeados Abertos · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Preciso sobreviver ao encanto…

que teus olhos me apresentam em miudezas e rotinas.
Dou-te os sentidos plenos no toque das palavras,
invento recantos onde seu amor me ampara
Para isso, basta sentir-me tua.
Adivinho que você nasceu em algum canto do mundo. E os séculos nos pertencem.

Mariana Gouveia|
In: Cadeados Abertos – Diário das Quatro Estações – Scenarium Plural – Livros Artesanais, p. 93 |
*Imagem: Laura Makabresku

infinitamente

Ao ocaso de uma noite que amarelou a dor.

O ponto de partida foi transformar tudo num quadrado redondo e dali escapar,
pelo tecto.
Talvez um dia, o estado das coisas revele outras formas, sem fronteiras ou equívocos, cumprida na distinta fragilidade de viver.

acp

Francisca,

Eu nunca imaginei que você me pediria uma carta. Uma carta diferente das tantas outras sob encomenda que fiz para você. Nem como presenciaria a fragilidade da vida em seus olhos. Mas, antes de escrever qualquer outra palavra eu sou puro agradecer.

Não te escrevi ontem porque foi uma noite de vento entrando pelas frestas da janela e dentro de mim as memórias tem sido constantes. É quase como se um filme passasse na cabeça. Então, fiquei repetindo: amanhã eu escrevo-te e seu olho pedindo urgência… E só hoje resolvi te falar da palavras cheias de inteirezas – frase tua – e de como a gente quer que os dias durem como se fossem domingos. Desses que não passam nunca e a gente fica pedindo só mais uns minutos para que as palavras ganhem a ordem de viver para dentro.

Com você, eu pude viver tantas coisas que parecem cena de filmes… Frases que trocávamos e que eu escrevia em cartas para sua mãe. E acho que foi assim que te conheci. Quando mudei para sua rua, alguém havia dito que eu escrevia cartas… e ouvi seu sotaque a me chamar no meu portão: mulher, quero que tu escrevas uma carta para mainha. A carta era sempre escrita no último dia de cada mês. Mainha – a tua – morava no Crateus e era em um lugar chamado Saudade que ela recebia suas palavras escritas com minhas letras. E hoje, o último dia de agosto, cá estou eu a te escrever… misturando erros que só a gente sabe o que significa.

Posso dizer que me apaixonei primeiro pelo seu sotaque… depois, pela agilidade do abraço. Seus braços eram como se fossem garras que nos prendiam e protegiam. Já estive muitas vezes segura dentro deles.

Depois, nossos filhos se tornaram amigos, cresceram juntos e foram tantas cartas tuas para alguém que tu amava e eu me sentia a Fernanda Montenegro, no filme Central do Brasil… Depois vieram as miçangas, o crochê… as tardes regadas com suas risadas em meu quintal.

Tu lembra das tempestades que assistimos juntas, na varanda da tua casa? Do bolo de mandioca no lanche da tarde? Dos desenhos que pintamos no muro do seu quintal? E de repente, tu muda de bairro e as coisas diárias se tornam semanais, depois, mensais… Mas as cartas para tua mainha ainda eram escritas, onde você retratava sua rotina e as dos seus filhos… e de como a palavra saudade era repetida diversas vezes… A minha letra escrevia seu amor de filha e os rasgos na memória de quem lembrava do sertão onde viveu… até o dia em que sua mainha se foi…

Depois disso, apenas as memórias na bagagem como quem carrega sua dor e as dores de outras pessoas. E quando você volta, é como se nunca tivesse partido. Habituamos instantaneamente com as mesmas rotinas de antes, os mesmos risos e os olhares cúmplices. A casa 37 da rua de cima era meu refúgio. O lugar onde eu podia chorar livremente ou rir até doer a barriga.

Hoje, seu endereço nem cabe na minha alma. As cortinas que bordei balançando em sua janela ainda borrada da última pintura, que prometemos consertar e nunca tivemos tempo para isso, as flores do quiabo na pequena horta lembrando que ainda falta fazer a receita preferida e o amarelo desbotando quando chega o fim do dia, fazendo nascer um pequeno fruto… Cada vez que me despeço de ti é essa carta continuada que prometo ler amanhã… o som da música que tu gosta vem comigo rua afora… o chão sendo testemunha de nossa história contada nas pedrinhas que piso.

Ainda faltam algumas coisas para fazermos juntas enquanto seu filho não chega. Ainda não te contei o final do livro que escrevi e nem de como vai terminar a história do que estou escrevendo. As coisas nunca mais serão as mesmas depois que você se for, e amanhã, prometo te levar meu melhor sorriso e te dizer alguma frase antiga que surtia efeito… como é que era? Aquela que se multiplicava quase sempre no mesmo diálogo e te arrancava gargalhadas e tu dizia: eita, mulher… só tu mesmo!
Amanhã, leio essa carta para ler em seus olhos a sorte que tenho de estar assim com você, nesse fio de esperança de que a sua partida seja feita de levezas e inteirezas.

Te amo muito,

Mariana Gouveia
Agosto é o mês de Beda e se encerra hoje.
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega  – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso

Afetos · infinitamente

Beda – Para além dos dias de afeto

Filha,

será que consigo te escrever? Será que as palavras que tanto amo saberão descrever o que sinto por você?

Eu te gestei no coração… e os nove meses de espera para ver seu rosto me fizeram sua ‘outra’ mãe. Eu te vi bem antes dela. Cantei seu nome ainda no berçário e te peguei nos braços tão franzina que o medo de te machucar me fez te devolver para a enfermeira em seguida. Ensaiei seu nome várias vezes. Mas, para mim, só aparecia a palavra filha. A menina que não nasceu de mim, mas que eu amo como se tivesse te dado a vida. A menina de sorriso largo e que enchia meu coração de amor.

Depois, fui seguindo seus dias. Seus primeiros passos, e o tiiia – quase sua primeira palavra – me fez chorar. Depois chorei com os nascimentos de seus filhos e acho que tenho feito isso a vida toda. A cada dor, eu sofro junto… a cada alegria, rio junto.

Por sua causa, agosto é todo ano para mim. Seu dia me chama no calendário como se nesse dia eu ganhasse um presente todo ano. Não se nasce atoa em agosto… em agosto nascem os guerreiros. Os que vencem qualquer batalha. Os fortes – mesmo quando se sentem fracos – e os escolhidos.

Sabia que quando falo de você meus olhos sorriem junto das palavras? E quando falo de sua família, mas do que genética, meu coração se enche de orgulho do quanto você costurou seus dias dentro da doçura do amor.

Em letras enormes eu digo que você ADOÇA a vida das pessoas ao seu redor e que te envolvo no meu amor por você.

Te amo para além de aniversários e vida afora e te desejo que a vida seja sempre adocicada.

Beijo,
Mariana Gouveia
Agosto é o mês dela e de Beda.
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega  – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso

Das rotinas · infinitamente

eu era um quase… uma parte

Foi no dia que te bordei
que a arte fez-se em mim

os pontos – quase toque – cerzidos com a linha de cetim

sua pele – tão alva – ponto cheio

tecendo flores em cada respiro
voos de borboletas
– feito asas –
a linha se desgrudou da agulha e uniu-se a mim

um nó feito
– na véspera do voo –
eu era pouso em ti.

Mariana Gouveia
Agosto é o mês da arte e de Beda.
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega  – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso
arte: José de La Barra 

Divã · Meus Livros · O lado de dentro · Scenarium Livros Artesanais

Maria sem vergonha

Beijava todas
como se fosse…
única!

Beijava a mão
como se fosse..
à boca!

Beijava a flor
como se fosse…
ela!

Mariana Gouveia
O Lado de Dentro
Agosto é o mês do poemas e de Beda.
Participam junto comigo:
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega  – Mãe Literatura – 
Suzana Martins – Roseli Pedroso