Desvios para atravessar os quintais · Meus Livros · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Fazia o chá para além das xícaras

– era a espera antecipada da estação –
amanheceu hoje com gosto de inverno.

O meu quintal é alheio a tudo – tem vida própria – pássaros cantam.

Refaço horóscopos para o mês seguinte. Os astros estão em ebulição. A natureza grita pelo vento de um furacão.

Veria algo novo no raiar do dia…. A maresia chegou de mansinho pelas palavras dela. O pássaro voa alheio a tudo. O cão late na folha seca que cai.

Remexe nas sementes perdidas. Escoa a água da pia. O chá ferve.

Aprisiona desejos secretos. Ri sozinha dos pensamentos loucos.

Refaz o roteiro do horóscopo. Alterna os dias. Gelo para a luxação do pé. A dor acalma quando a alma dança. Chorou no poema que leu. Havia coração em toda parte.

Morde a fruta e vai esperar o dia de amanhã.

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar os Quintais
Entre uma estação e a primavera
Scenarium Livros Artesanais

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

 Deixa o coração se apaixonar pelas paisagens.

Meu caro Obdúlio,

Já te contei várias vezes sobre meu lugar… acho até que você conhece as rotas e os meus desvios. Mas hoje, te pego pela mão e vou te mostrar logo aqui, a 100 km o meu Pantanal.

Deixa o seu coração se apaixonar pelas paisagens que vou te mostrar. A entrada se dá por Poconé, uma cidadezinha típica do interior – mas com tantas riquezas culturais como o cururu e siriri, a cavalhada e a apresentação dos mascarados. Uma tradição secular por essas bandas.

Sabe, moço, uma das tradições desse povo é a fé. Está por todo canto estampada… seja nas festas de Santo – a de São Sebastião é a mais tradicional – ou nas igrejas centenárias, como a igreja do Menino Jesus, datada de 1922.

Só delas eu falaria por dias… mas essa missiva tem o dever de te mostrar o Pantanal por meio de suas paisagens bonitas, conhecidas no mundo todo. Por isso, vou ser mais poética e te mostrar sob meus olhos a maneira que vejo essa biodiversidade fantástica. Já adianto que vai faltar espaço.

Os ipês nessa época se vestem para a festa e transforma o lugar em um jardim tridimensional. É lindo de ver!

E o pôr do sol, moço… é de encantar ou se apaixonar – você escolhe – e as aves fazem a festa nessa hora… Os tuiuius, gaviões, garças, as freirinhas, os papagaios e as araras são um show à parte. Não vou conseguir colocar todas as fotos…. Vamos deixar isso para quando você vier ver de perto.

E os jacarés, que vi de tão pertinho que podia tocá-los, assim como a cobra – para susto e desespero do meu marido – na beira da estrada.

Vi de pertinho uma comitiva e a boiada – foi como estar na novela, arraaaa – atravessando na margem de um rio quase seco de tanto que o homem devastou por aqui.

Na verdade, moço, somos nós que fazemos mal para a natureza… mas, como eu só queria te mostrar pelos olhos do encanto meu lugar, finalizo com a imagem que me fez falar uau. Sei que vou ficar devendo mais paisagens, mas quem sabe, um dia posso te mostrar pessoalmente.

Abraço carinhoso,

Mariana Gouveia
Missivas de Setembro
Scenarium Livros Artesanais

Estão junto comigo nesse projeto
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

tem certeza de que a rosa era mesmo rosa?

Rose,

Quando você me deu essa rosa, era de um rosa mais rosa. Eu comemorava um aniversário e você, mais uma vez, com todo amor que lhe cabe, quis povoar meu jardim.

Com o tempo, o rosa foi purificando e a rosa se tornou multicor… Quase branca.
Hoje, o aniversário é seu e eu poderia dizer sobre tudo que vivemos… Nem vou dizer o tempo que vivemos, porque, por mais que eu escreva sobre… você é em mim, de tanto tempo que só digo que existo sempre em você.

Assim como a rosa mudou o tom, enfrentou diversidades, a gente também mudou. Depois de quase dois anos sem te ver, mas nesse mesmo tempo sendo presença uma na outra, pude te abraçar e sabe, parece que nunca nos separamos… O riso, a cumplicidade, o amor ultrapassam esse tal de calendário.

O meu desejo é o mesmo de quando te dei o primeiro abraço e parecia que eu já te conhecia de muito antes.
Que você seja feliz e eu vou estar aqui sempre, nos dias bons e ruins… Sendo guia ou apoiadora.
Te amo infinito

PS: tem certeza de que a rosa era mesmo rosa? Porque o que impera em meu amor e coração é tu, Rose.

Feliz aniversário!
Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Sashimi

era uma vez, o tempo
esse oco de horas medidas em segundos

depois, houve o vento,
ecoando dados em corações que doem
o tic tac do tempo que não veio

e a ideia de que o mar
corria para o rio

esse oceano seco
de terra exposta
de mesa posta

a comida fresca
a alma perdida

eu, o peixe doce
para o seu mar salgado
sirva-se
– me –

Mariana Gouveia
Ph: Tumblr

infinitamente

Exorcizada

em sua melhor fase queriam exorcizá-la
colaram nuvens ao seu redor
criaram eclipses,
efeitos solares

em sua melhor noite
inverteram o céu – tão lunar ela era

apontaram-na como bruxa – um caso perdido
que só um ritual complexo poderia curá-la

quando cheia, ela cansou de tudo isso
lambeu os dedos 
e os queimou na fogueira que ardia dentro dela.

Mariana Gouveia
Das coisas breves
Ph: Tumblr

Das palavras das cartas · Das rotinas · Divã

Das cartas que nunca enviei.

Escrevi para ela enquanto as roupas quaravam no jirau feito de angico. Fazia parte de um ritual antigo que minha mãe adorava repetir. Os lençóis de linho a branquear ao sol.

O cheiro do sabão de dicuada, ali, a clarear as roupas e o sol e o vento…

Era isso… enquanto eu escrevia o vento trazia na memória o balanço das folhas, da rede, do cabelo que caía na boca e a voz da minha mãe a ecoar lições.

Contei sobre o tempo de ontem e que havia um bando de pássaros a desenhar poemas no céu.

Amanhã chove – a moça do tempo confirmou com mapas e cores densas – a apontar o dedo para a parte que no mapa, é meu estado.

Brotou flores novas no quintal. Rosa, rosinhas, cravos e as trapoeirabas azuis.

Quando os pássaros cantam eu corro para o quintal a espiar o céu. Eles revoam no sentido contrário e lembro de coisas que te falei. Devo dizer que ganhei o sentido de asa. Os cães quase voam de um sofá para o outro. O pássaro de todo dia aparece e eu escolho palavras ao acaso para desenhar minhas emoções.

Apago, escrevo e torno a apagar. Algumas palavras ganham formas diferentes e sentido igual. Risco e coloco o ponto final
Os pássaros voltam novamente e mais uma vez recomeço a escrever.
Coloco a data, a cidade e por fim, termino uma carta que nunca vou enviar.

Mariana Gouveia
©️ Anne Kramer
Das palavras das cartas

Divã

Navegar…

no espaço de um segundo. Ser pássaro, ainda que peixe.
Mergulhar nas nuvens.
Voar no mar.

Joakim Antonio
imagem: Anka Zhuravleva

Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

 As horas estão escritas num futuro impossível.

mui de muito cor de coração dou de dourado pé de pétala vem do ventre algo de algodão
Vem do ventre

Su.

Cheguei ao ponto de sonhar com essa carta… fiquei imaginando essas horas escritas em um futuro impossível e descobri que isso não é para nós… Quando há algo impossível, a gente vai lá e muda tudo. Eu sei que você é assim, e posso te dizer que também sou.

Um dia, li em algum lugar que só as pessoas destinadas fazem isso – de tornar o impossível, possível – e trazem um escudo invisível no peito, camuflado em forma de sorriso. É preciso coragem para conseguir. Percebi essa coragem em você em seus poemas e escritos.

Nesse domingo, acordei de manhã, e como sempre faço, olho o céu – nos últimos dias, ele esteve esfumaçado… parecia agosto e pensei em você – que denominei minha menina nuvem – e ele era pura ostentação de uma nuvem, que não resisti e chamei seu nome – sempre faço isso com minha bambina Lunna, quando vejo raios, trovões e Lua – e agora, quando vejo uma nuvem diferente já chamo seu nome para tu ver.

Deve ter chovido ao redor – já que aqui, conto os dias sem ela… até sonhei dia desses com o cheiro de terra molhada – porque o céu amanheceu azul e a nuvem veio trazendo as tonalidades de vários azuis e eu fiquei fascinada, com o olho acompanhando a nuvem “voar”.

Não há filtros nas fotos, Su… eu fotografei e já quis te mostrar como o encanto vem de repente na vida da gente… seja em poesia, em uma canção ou simplesmente numa nuvem que se desenrola e conversa comigo de uma maneira que meu coração entende. Eu já te disse que sempre vejo corações em toda parte?

Em momentos assim, que o universo conversa comigo eu sou pura leveza, Su… fico quase igual as nuvens… juro que até danço…
Nessas horas, Su… só consigo imaginar no futuro possível dentro das horas um dia te abraçar.

Mariana Gouveia
Missivas de Setembro
Scenarium Livros Artesanais

Estão junto comigo nesse projeto
Lunna Guedes – Obdúlio Nunes Ortega – Roseli Pedroso e Suzana Martins


infinitamente

dos seus pássaros que voaram…

ficou aquele na mão, preso – a gaiola dependurada no peito – sem jeito de asa ou ninho. Contei nos dedos os séculos sem você e o relógio na parede, vazio de horas e em silêncio lembrou-me da vitrola quebrada sem os vinis. A dispensa abarrotada de lembranças e o céu rendado de tela não me permitiu te oferecer asas. Não posso ver daqui, pela janela fechada a alegria nos teus olhos pelo voo dos teus pássaros.

… que marítimos não atravessam para meu rio.

… que brigam com os meus

… que migratórios não atravessam o oceano.

… que os meus voam rasantes com medo do voo perto desse abismo.

… que é essa solidão…

que moram na árvore morta onde não podem fazer ninhos nem migrar para te oferecerem asas.
… que descobrem que a estação muda de acordo com o destino do quintal que não alcança a maresia que alimenta o jardim.

Mariana Gouveia

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Revisitou o baú das lembranças.

Fez o café com a indicação da amiga — tirando a água antes que fervesse — aspirou o aroma e o sabor era o mesmo de sempre. Abelhas vasculham em busca de mel. O dia, na delicadeza das coisas era gris — a palavra lembrou uma canção — dentro dela escreveu rotinas, redesenhou segredos, esculpiu letras. Buscou temperos e adiantou a hora do lugar. Isso de fuso deixa tudo confuso.

Gerou três poesias…nasceu origamis no seu quintal. Colocou para voar o mais esperto e assim, os enjoos matinais no verbo nascer pedia ajuda na lição do dia. Enquanto gerava cantos na barriga, os pássaros de papel ganhavam a dimensão da asa.

Ali, presos, podiam voar.

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar os Quintais
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais
Ph: Adam Klaus