Das palavras das cartas · Das rotinas · Divã

Das cartas que nunca enviei.

Escrevi para ela enquanto as roupas quaravam no jirau feito de angico. Fazia parte de um ritual antigo que minha mãe adorava repetir. Os lençóis de linho a branquear ao sol.

O cheiro do sabão de dicuada, ali, a clarear as roupas e o sol e o vento…

Era isso… enquanto eu escrevia o vento trazia na memória o balanço das folhas, da rede, do cabelo que caía na boca e a voz da minha mãe a ecoar lições.

Contei sobre o tempo de ontem e que havia um bando de pássaros a desenhar poemas no céu.

Amanhã chove – a moça do tempo confirmou com mapas e cores densas – a apontar o dedo para a parte que no mapa, é meu estado.

Brotou flores novas no quintal. Rosa, rosinhas, cravos e as trapoeirabas azuis.

Quando os pássaros cantam eu corro para o quintal a espiar o céu. Eles revoam no sentido contrário e lembro de coisas que te falei. Devo dizer que ganhei o sentido de asa. Os cães quase voam de um sofá para o outro. O pássaro de todo dia aparece e eu escolho palavras ao acaso para desenhar minhas emoções.

Apago, escrevo e torno a apagar. Algumas palavras ganham formas diferentes e sentido igual. Risco e coloco o ponto final
Os pássaros voltam novamente e mais uma vez recomeço a escrever.
Coloco a data, a cidade e por fim, termino uma carta que nunca vou enviar.

Mariana Gouveia
©️ Anne Kramer
Das palavras das cartas

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