Das palavras das cartas · infinitamente

só você sabia quantas flores eu usava


foi assim que você pensou que eu ficaria no mundo,
usando flores em meu cabelo negro,
sempre escondidas no emaranhado dos cachos
sempre escondidas no emaranhado do caos
de minha cabeça negra.
só você sabia quantas flores eu usava
porque agora eu já sei
que você dedicava as noites
à contagem.


Matilde Campilho

Eudes,

de novo eu te escrevo no seu dia e suspiro a imaginar nossa história. Será que onde você está se comemora aniversário? Será que o aniversário aí é igual aqui? Será que te dão presentes, flores ou outra coisa que seja importante aí?

Faço essas perguntas todas porque me lembro como você gostava do seu dia e de como resmungou quando escondi o presente até quase o momento em que ia me despedir naquele janeiro de antes. Todos os anos você me pedia a toalha bordada. E todos os anos eu bordava nas cores que você escolhia.

Hoje, conversei com Edi, e choramos juntos em uma distância tão longe e tão perto. Falei que queria contar a ele nossas histórias e sei que um dia isso acontecerá. Engraçado como o Edi se tornou mais próximo de mim do que Junior e Marcelo, depois que você se foi.

A gente fala sobre você, e às vezes, eu conto coisas que vivemos juntas. Hoje, me lembrei do physalis, mas nem falei com ele sobre isso – a frutinha da minha infância – e que você cometeu a loucura de trazer para mim dos Estados Unidos. Um pote cheio, escondido entre as roupas, na mala. É que você achou o physalis de lá diferente do meu e quis me encantar.

Eu fiquei boba com sua coragem e ficamos imaginando o que aconteceria se fosse descoberto o tal pote, no aeroporto. com as frutas ainda maduras e que secaram aqui. Foi a prova de amizade mais linda que ganhei e o pé que nasceu aqui ainda floresce e dá frutos. Cuido dele como se fosse um filho.

E assim, vou te mantendo nas lembranças e no coração. E estando perto de seus filhos te alcanço mais perto dentro do amor.

Feliz Aniversário!
Te amo sempre e infinito ♡

Mariana Gouveia

Meus Livros · Scenarium Livros Artesanais

O gato com verbo no olhar

Não tinha uma única pessoa da redondeza que não tivesse ouvido falar do bichano, que tinha nomes vários e moradias muitas.
O gato era diferenciado e se eu gostasse de felinos, o teria levado para minha casa. Todo preto, com manchas brancas pelo corpo e patas, como se tivesse sido pintado com poás
Exuberante no andar. O seu miado era um canto agradável que ressoava pelo ar, provocando os cães, ao passear por cima dos muros, espiando a vida alheia com a indiferença típica de um bichano boa vida.
Eu fui uma das únicas a reparar que o felino tinha verbos no olhar. Tentei decifrar quais, mas comigo ele não falava, apenas com seus humanos de estimação, que me contrataram para bordá-lo.
D. Dalvinha, a síndica, foi a primeira. Quis uma almofada com a imagem do bichinho que ela chamava de Sebastian – e como ninguém podia saber que naquele apartamento havia um gato, ela murmurava o nome dele pelos cantos da casa, atraindo a atenção do gatuno que era astuto ao passar pela janela.

Sebastian não miava e não se enroscava nas pernas da mulher que o tratava feito um rei, mimando-o com guloseimas especiais. Ele se sentava no canto do sofá e o único movimento que fazia era o do rabo. O olhar era de um sedutor a se declarar… e ela se derretia por ele. Pediu que eu o retratasse em todos os detalhes, de cores e linhas.

Quando entreguei o trabalho, exigiu o gráfico. Grunhiu como uma felina. Não queria que eu voltasse a bordar o seu Gato, que ela acreditava ser apenas dela. Mal sabia que ao passar pela janela, ele seguia para o apartamento da frente, onde era conhecido por Tonico.
O vizinho de porta era um senhor elegante e solitário. Diziam pelos corredores do prédio que colecionava gatos – essa era apenas uma das lendas daquele velho edifício – um dos mais antigos do bairro.
O gato caminhava com cuidado ao passar em meio aos porta-retratos de Joaquim, que me convidou para bordar o bichano. Ele o queria retratado com uma mistura de cores… Tonico não se demorava por ali. A casa era limpa demais. Não havia almofadas para um cochilo e nem bolinhas de lã para enroscar as unhas afiadas. O homem tinha o estranho hábito de se sentar perto de seus porta-retratos, de frente para a janela, para espiar as próprias lembranças, que era tudo que lhe restava . Entediado, Tonico miava e partia para outro apartamento… onde encontrava água, comida e brinquedos com fios e cordas, além de areia sempre limpa. Gostava de lá…

Lambia as patas após as refeições e amaciava o travesseiro de Bia, que passava as tardes fora. Nos conhecemos no elevador. A minha bolsa caiu e ela reconheceu Mimi – o seu Gato, que esperava por ela atrás da porta e a recebia como um cão. Esfregava a cabeça em sua perna, esticando-se por inteiro, à espera de um abraço acolhedor. Dava para ouvir o ronronar do bichano que parecia ter a forma dos braços dela. Ao ver o gráfico em minha bolsa disse:
– Quero esse! Mas entre as patas, coloque uma linha natural. Gosto das unhas dele e da maneira como elas saltam para fora.
Foi o que me deu mais trabalho. Ela me fez mudar de cores várias e várias vezes e eu quase desisti da peça. Mas entreguei o trabalho e reparei que ela pronunciava o nome dele como quem toma um sorvete de flocos. Eu demorei para perceber que Sebastian, Mimi e Tonico eram o mesmo gato. E comecei a imaginar quantos mais seriam.
Ele era hábil em passear por muros, entrar e sair de apartamentos. Às vezes, percebia que ele me acompanhava ao longo da rua e quando eu dobrava a esquina, sentava-se e por lá ficava.
Nunca me seguiu até em casa, mas se o tivesse feito, teria que escolher um nome para ele . Talvez o chamasse de Maneco, em homenagem ao poeta.

Mariana Gouveia
O ano do Gato – Scenarium 8 – 2022
Scenarium Livros Artesanais

Corredores, Codinome Locura

Dei-lhe o nome de flor

Chamava ela pelo nome e docemente ela respondia.
Trazia sorrisos, às vezes, quando me atendia. Quase nunca o coração.
Não sabia extrapolar as coisas – dizia –
era feita de matéria perene, ela – a que eu criei.
Nos meus sonhos vinha feito névoa.
Me tocava com a maciez das nuvens e eu era etérea. A felicidade cabia tudo dentro de mim.
Dei-lhe o perfume do nome. O toque das pétalas. Dormia sobre ela. Por ela
e quando amanhecia eu dançava para ela, chovesse ou fizesse sol e regava as sementes que enviou para o jardim.
Um dia, chamei seu nome. E não veio riso, nem coração. Não veio nada.
O eco vagou pelos quartos todos. Visitou gavetas. Bateu janelas e ela não estava.
A montanha onde venta ecoou em resposta do meu grito.
Procurei-a nos lugares, e feito névoa se dissipou.
Eu, que buscava minha lucidez perdi de vez.
Endoideci. Ainda assim a chamava. Ora com a calma do amor,
ora com a tirania dos amantes. Com a raiva de quem endoideceu de amor.
Não veio mais. Nem em sonho.
Desde então, nas madrugadas vazias vago pelas ruas, nua. Coberta apenas com a flor que ela me plantou, com o riso de doida no olhar, cantando o nome dela como se fosse canção.

Quando o sol sai. Volto ao normal. Se bem, que sem ela nunca sei o que é normal.

Mariana Gouveia
*imagem: Anna O.

Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Delírios

Ph: Liat Aharoni


eu nunca antes tive delírios
– mas dizem que tudo sempre aponta para um possível começo.
Seria esse o meu?…

 

 

Lunna Guedes – Lua de Papel
*imagem: Liat Aharoni

 
Meus Livros · O lado de dentro · Scenarium Livros Artesanais

Um livro mudou sua vida?

No início de 2015 fui convidada pela Scenarium para a publicação de um livro de poesias. Até então, meus textos/poemas e prosas eram escritos apenas em cadernos, e aqui no blog.

O convite de Lunna Guedes mudou minha vida – a partir daquele momento eu era uma escritora. Me atrevia a me ver dentro da palavra escritora. E vi meu sonho realizado.

O lado de dentro costurado em fitas de cetim, trazia minhas poesias e minha alma. Quando recebi o primeiro exemplar chorei. É o último livro na foto. Tem a capa borrada pelas minhas lágrimas de alegria por poder expressar minha poesia em um livro com cheiro de amor.

Depois da primeira edição, o livro ganhou mais duas capas nos anos seguintes. Além dele tenho mais 5 livros publicados, mas O lado de dentro foi a mudança dessa história.

Para saber mais sobre meus livros e a forma de ter um para chamar de seu clica aqui.

Mariana Gouveia
O lado de dentro,
Scenarium Livros Artesanais

infinitamente

Qual é o presente mais memorável que você recebeu?

Ganhara a caixinha de música da madrinha que vinha vez ou outra para visitas. Dava a bênção. Olhava encantada para o papel de presente que sempre tinha coraçõezinhos ou borboletas – um dia ouviu a madrinha dizer à mãe que ela gostava mais da embalagem do que do presente – por isso na hora que viu a caixinha de música mostrou alegria, mais do que sentira. Onde se viu uma caixinha de música sem a bailarina?

As borboletas sim, pareciam saltar do papel como se dançassem ao menor toque na corda da caixinha. O som que saia da caixa era como se fosse um empréstimo da natureza e adoçava suas vontades da vida. Podia ver a música nas folhas, nas aves, no rumor do vento… não importa onde estivesse podia ouvir qualquer música. E podia dançar feita bailarina.

Ainda hoje, depois de tanto tempo e com a caixinha muda guardada na mala azul, já sem os cadeados de antes, ainda pode ouvir a música.
A madrinha se foi há tempos. Quando se transformou em menina-moça-mulher a madrinha já não vinha mais. Foi se distanciando com o tempo e o papel foi desbotando com o passar dos dias. E a música da caixa já parecia ter vida própria e nem precisava mais da caixa pra ser.

Como todos perdem o sabor da infância, ela também perdera numa rua qualquer de uma cidadezinha.
Vez ou outra percorre as ruas em sonhos. Grita. Relembra o primo que dizia que a sina dela era ficar louca a olhar para o céu em noites de lua cheia.

Quando a lua surge, às vezes, teme ainda a profecia do primo. Porém, hoje o que mais teme é a saudade que sente.

Mariana Gouveia
A menina da mala azul que tinha sonhos cor de rosa

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Tenho uma solidão para esse nome das coisas.

Tenho uma solidão para esse nome das coisas.

Virei perfume dentro das suas palavras. Vi uma moça da aldeia com borboletas no corpo. Era feito de sol essa saudade. O jardim endoidou de vez quando percebi o vazio por detrás da janela. O calor assolou o cerrado e a meteorologia colocam vermelho puro no mapa daqui. O lugar de mim esvazia o peito e estende a mão, não sou mais além de sombra onde a asa não me abriga.

Escrevo cartas antecipando primaveras… a impressão do dia seguinte é quase logo ali, no outro mês, já repetido exaustivamente no sistema. O desejo tão líquido quanto a sede – falta água – e a fome de tocar sua mão, tão marítima dentro desse oceano seco de rio.

A ventania consome essa vontade de pouso, onde meu quintal respira maresia nos cantos do muro.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar os quintais

Scenarium Livros Artesanais
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Divã

Sei o papel de cor. 

 Mas não chego para uma história. 
Golgona Anghel

Ph: Pinterest

O amor, ao entrar, foi logo me perguntando:
– Leu o manual?
– E alguém lê o manual? Ninguém lê.
– E os estatutos, leu?
– Estatutos? O estatutos são lidos somente em ocasiões especiais, cujo interessado é o único que não segue o estatuto e só quando ele é prejudicado.

Passivamente, ele senta e desenrola um rol de papel que não tem fim.
E ali, discorreu por horas sobre o decreto que definiria viver um amor e que todas as regras sejam cumpridas e pronto.

– Como pronto? E esse bater acelerado do coração que parece uma bateria de escola de samba? E esse alvoroço de arrepio na pele ao pensar nela? E esse atirar-me do abismo em direção à ela sem saber se há proteção.
– Leia o manual – é a resposta única – Leia o manual. Siga o estatuto.
– Confesso que seguir as regras nunca foi meu forte. Não que seja dada à rebeldia. Mas, sigo sempre o coração.
– Quando se começa a amar, há mais pessoas envolvidas e na maioria das vezes, mais de uma. Nesse caso, você quebra a regra nº 1 : No amor, ninguém pode sofrer.
– Sofrer é inevitável. Faz parte do processo de apaixonar. O amor não pode ser de posse, por isso, as pessoas sofrem.
– Leia o manual. O amor é único em si mesmo e a paixão, efêmera. Está no Artigo II – não confunda paixão com amor.
– E o que fazer com esse sentimento estranho, que encanta, que grita e faz com que a gente sonhe de olhos abertos? E lá de novo eu, ponta a cabeça, como em um trapézio sem rede.
– Que nome se dá a esse sentimento?
– Quando você o pronuncia o nome dela o dia ganha cores, a vida fica mais leve e tudo passa a ter sentido. O nome disso é encantamento e pode ser um passo para o amor. Está no manual. Artigo 3. Parágrafo Único: É permitido se encantar pelo que é belo, pelo que seduz, pela riso e pela poesia de cada dia. É permitido o encantamento.
– Encantamento tem manual?
– Só quando ele se transforma em amor.

E já saindo de mansinho, repete mais uma vez:

– Leia o manual!
– E alguém lê os manuais?

Mariana Gouveia.

Das palavras das cartas · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – resquícios

Guardo numa gaveta de velhos objectos as tuas palavras, 
até que o bolor do futuro as apague
 – para que só eu saiba o que nunca me disseste.
Nuno Júdice

Leonor,

o ano já rompeu seus dias por aqui e só hoje lembrei de que não te escrevo há algum tempo. A moça que me escuta uma vez por mês diria que isso é bom e mandou que eu retirasse seus resquícios por aqui. Mas como se faz isso, Leonor? Pode me dizer como? Ainda tenho a moldura com sua foto antiga. Confesso que já coloquei ela na lata do lixo duas vezes e corri para recuperar antes que os garis levassem.

As louças que você trouxe e deixou aqui, com a promessa de que buscaria. Até a faca, Leonor? Lembra da faca que você comprou para cortar peixe? E as borboletas que enfeitavam a mesa e os pratos… não posso simplesmente jogar fora, como se não tivessem qualquer valor. E se um dia você aparecer e querer de volta?

De seu também ficou o vidro de perfume vazio – que ainda tem seu cheiro mesmo depois de tanto tempo – e o saquinho com ervas que eu mesma bordei. Era para você ter levado. Não sei se você deixou de propósito, com o intuito de deixar lembranças suas pelo meu lugar.

E as conchas, Leonor? Era para trazer o mar até o meu quintal… ficaram em cima da estante, com suas cores vibrantes e a estrela vermelha – tão nossa – se sobressai. Vai me dizer que não são resquícios seus? E nem falei das cartas emboladas no baú e dos envelopes abertos, com sua caligrafia.

Sabe, Leonor, de todas as lembranças as das manhãs são as mais recorrentes. O bule decorado com las farfallas ficou intacto na mesa. nunca mais coloquei o chá nele… e o quer café, flor? – eu ainda pergunto toda manhã, nas conversas com os cães.

Mas aqui, só ficou a xícara vazia dentro da memória. O pires exposto, sendo pouso para a colherzinha assim como suas mãos foram pouso para as minhas. São tantas coisas, Leonor, que não consigo enumerar assim, de súbito, numa carta – a primeira do ano. Será que ainda te escreverei mais vezes? Vou deixar que o tempo cuide disso e que suas lembranças comecem a ser aqui, para mim, apenas resquícios.

Beijo meu,
Mariana Gouveia
Projeto fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo:
Lunna Guedes Suzana MartinsRoseli PedrosoObdúlio Nunes Ortega

Das rotinas

a noite não foi feita para os desvios do quintal.

Perdeu a conta de quantas vezes pintou a parede. Os tijolos expostos da casa vizinha não combinava com a solidão da noite. Via fantasmas esparramados ali e os buracos dos tijolos quebrados pareciam olhos perdidos na noite. Queria cavoucar o estuque e guardar a noite dentro do buraco feito.

Definitivamente, a noite não foi feita para os desvios do quintal.

O vento que sacudia as folhas das árvores eram garras que a segurava por horas inteiras… Mas quando amanhecia, e o sol surgia junto com o voo rasante, a parede parecia um quadro de Monet, onde o riso ganhava cor no trinado do pássaro.

Mariana Gouveia
No bico do beija-flor beija a flor
Agenda Artesanal 2025 – julho, 03