Corredores, Codinome Locura

Acho que gosto de São Paulo…

A primeira vez que fui em São Paulo foi em 2005. Fui participar de um evento e fiquei poucas horas. Vi São Paulo de relance, entre os vidros da janela do ônibus e não foi amor à primeira vista.

Em 2015, quando vi São Paulo do alto eu apaixonei. Eu ficaria horas vendo aquela imensidão e vi São Paulo com olhos de paixão. A cidade me acolheu e me fez sentir em casa e fui guiada pelas ruas e calçadas como se fosse um primeiro amor.

Fui acolhida como se já tivessem me esperando, com mesa posta, sorriso largo e abraço aconchegante. As ruas eram extensões do meu quintal e as pessoas sabiam-me em amor. Me vi dentro das canções que retratam a cidade e vivi as melhores emoções nas noites da cidade.

Voltei mais vezes – algumas até – e revivi tudo de novo e o amor e a intimidade foi aumentando. Eu amo a cidade pensando nas pessoas que enfeitam meu olhar pelo ângulo dessa imensidão que é São Paulo.

469 anos e São Paulo vive suas contradições e seus afetos e sei que muitas outras vezes, vou olhar a cidade do alto, de perto, de pé no chão, nas ruas e no coração dos que amo e vou voltar como se nunca tivesse partido.

Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · infinitamente

É o inesperado que muda nossas vidas.

Ph: Ziqian Liu

Sayuri, minha flor

Lembrei-me de que nunca te escrevi uma carta. As coisas que eu quis te dizer foi sempre nas mensagens trocadas, nos comentários em comum e na leveza do carinho que temos uma com a outra.

Mas hoje, eu quis falar com você. Em outros anos, a gente se falava horas por telefone e eu derramava minha admiração por você e mesmo quando não dava – como hoje – a gente se comunicava em pensamentos.

Esse dia é seu, Sayuri e eu queria escrever aqui seu nome lindo – o de verdade – que você precisa esconder para se proteger. Muitas vezes, pronunciei seu nome para o vento e com ele eu repetia sobre sua coragem. Poucas vezes eu vi uma mulher com tamanha coragem, mesmo cheia de medo. E tantas vezes eu quis te proteger. Queria te trazer para perto de mim e cuidar para que todo o sofrimento e lágrimas ficassem para trás.

Quando, por algum motivo, eu passo por alguma dificuldade e quero me abater, me lembro de você. De sua fala mansa e encorajadora. E fico tão grata ao universo por tê-la colocado em minha vida há mais de uma década. E não ouso fraquejar, porque de alguma maneira, te vejo tão valente diante de tantos obstáculos.

Hoje, mais uma vez, te busco dentro de um abraço imaginário e lembro de sua risada gostosa… e de como enfrentou o inesperado e transformou ele em lugar bonito de viver.

Felicidades todos os dias, para que o inesperado – roubei sua frase para dar título a essa carta – de fato, tenha transformado sua vida num lugar melhor., para que ninguém mais no mundo possa te definir em alguma outra coisa que não seja amor.

Te amo,
Mariana Gouveia

Das rotinas

Rituais do toque

Costurava afagos dentro do que a memória lembrava.
A alma conhecia o toque e sabia dele de séculos passados.

Era jeito de asas na palma da mão.
Era mão sentindo o ritmo do coração.

Pertencia ao mundo criado ali no quintal e sentia-se plena diante da magia que a vida oferecia todos os dias.
Cabia nas madrugadas junto ao canto e quando o horizonte lhe mostrava a manhã que surgia sabia que podia tocá-la se quisesse.

Sempre queria.

Mariana Gouveia
Dos rituais do toque

Corredores, Codinome Locura

tua voz há de ecoar eu te amo como quem sonha

Ph: Tumblr

Nascia uma árvore no quintal. Abracei o vento como quem dança valsa na vida. Os pés alados atravessam o oceano a nado. O corpo, essa sede de toque, quase súplica para o desejo. Apenas o resquício de uma vontade que já foi. Pedindo voz para dentro do beijo. Alguém me disse que o amor nascia hoje, pelo riso dado e as declarações feitas. Lembrei-me da diferença da estação. A meteorologia e sua fúria em errar as previsões. As palavras do dia – lá, naquele passado estranho – revividas em contagem regressiva para desejar o amor e tua voz há de ecoar eu te amo como quem sonha e minha delicadeza comerá ternura dentro dessas palavras. Nascia a sorte nas cartas lidas, nos símbolos onde o coração foi rabiscado nas paredes tortas, nos trevos de três folhas mesmo com uma joaninha a dançar na folha. Quando os poros irreconciliáveis, com a pele que implora toque no braço que se abraça e a distância dita – quase nenhuma – entre o som do riso e a voz. Dentro da curva da noite, a chuva – na gota – coincidência do nada entre o nascer do amor aconteceu o mar.

Mariana Gouveia

Divã

Ecoa

Ph: Savannah Daras

Ecoa.
Era quase vento sem ter asa.
Era quase pele sem ter poro.
Às vezes, é preciso vento.
Um poeta completa anos e eu, mesa.
Ela, cama…
Libélula na boca em asa
e gozo.

O vento mora aqui
e a maresia invade as cortinas.
Ganha rumo na risada dela.

Quebra regras,
cita nomes.
Me desenha em círculos
e daí eu sou só poema na palavra dela.

Relembra o dia
em memórias todas.
Canto ela nas nuvens
Pego ela no ar.
Respiro a leveza no encanto dela.
Depois disso, prazer é meu nome

Mariana Gouveia
Divã

Corredores, Codinome Locura

Floreia

Ph: Ziqian Liu

Havia jeito de asa para o lado do Sul
a maré previu a fase da lua
e a maresia invadiu meu quintal

eu era só teu olho diante da janela
a tarde tinha a brisa

tinha gesto

Guardei o meu amor em palavras

escrevi seu endereço no voo do pássaro
e seu nome foi jogado no céu antes que as estrelas acordassem.

Havia gestos de flores no quintal. O cão latia para o riso das crianças.
Era assim a vida na docilidade das coisas.

Mariana Gouveia
dos Rituais da maresia

Divã

Kandinsky e Matisse

Ela trocou o quadro de Kandinsky de parede. Agora fica atrás do sofá, então não posso ficar olhando para ele como antes. Em compensação Matisse me encara por dez longos minutos antes de entrar.

– Parece que faz zum século que não venho aqui. Mudou tudo. – falo comigo mesma, mas ela escuta.
– A cor já estava desbotada e fiz algumas mudanças na entrada. Não gosta de mudanças? – ela pergunta.
Respondo que algumas mudanças me atravessam e meus olhos fitam a janela, Reparo que a cortina não é a mesma – a sóbria de sempre – e que o sol entra por uma fresta.

– Matisse? – aponto o quadro na parede lateral, onde antes havia um vaso grande com uma folhagem estranha que não está mais lá em canto algum.
– Você entende de arte? ela me pergunta com atenção voltada para as anotações.
– Que nada! Conheço algumas, mas notei Matisse e Kandisnky na sala. “Um único tom não é nada em termos de cor; dois tons são um acorde, são a vida.” – falo quase em sussurro.
– Oi?
– Frase de Matisse – digo – e a pintura me lembrou dela. Gosto das cores. É isso. gosto das cores.

Ela anota e eu suspiro. A cortina balança, um vento atravessa a janela semiaberta. Falo do tempo, das coisas que penso, de como o mês ganha velocidade das horas e do azul cobalto da parede da frente.
– Dá para criar poesia hoje? – ela pergunta com um sorriso terno…
– Acho que consigo falar sobre o azul cobalto e das cores.
Ela ri enquanto me levanto e vou… com a frase de Matisse na cabeça e o azul cobalto na inspiração.

Mariana Gouveia
Divã

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Da anatomia dos voos

Ph: Smooth

Fiz um tutorial sobre perdas seguindo à risca cada etapa. Mas na hora h, quando o vento lateral veio com notícias de ida sem volta, esqueci as regras. Abri os braços e pensei ser janela aberta para o mar; apaguei o rito do nascer. As asas perderam o sentido de voos e tudo ficou cinza. E se eu não for poesia amanhã? E se a metamorfose não fizer jus ao instante? E se a morte rasgar a pele e camuflar a vida com outas formas desconhecidas? Vou ter que esperar amanhecer para saber outro dia. Existem muitas maneiras de ir embora, apenas uma de ficar.

No fim do dia serei apenas uma sombra na parede.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Livros Artesanais
Peça o seu aqui

Divã

Às vezes, é preciso enfrentar o imaginário.

Ph: Omerika

Ela senta. Anota.
– Sugiro que fale mais sobre isso.
Disparo a falar sobre possibilidades de espera.
O mundo é um lugar comum. Dispensa atenuantes de comparação.
O sonho de conquistar o mundo cabe em um abraço.
Meninos espreitam a solidão, enquanto espanto pássaros no jardim.
Levo eles para o céu. É a estação que sopra em direção do voo.
Coisa de menina dentro da estação..
Despeço do homem na porta da esquina.
Lembro do corpo dela dentro de mim.
Lembro dela dentro de mim.
Eu. Dentro dela.
A pele com cheiro da maresia. Ela todo mar. Direção da minha nau. Ela, meu porto.
Divago sobre vento. Falo da alusão ao que minha mãe dizia:
– Vento é o Espírito Santo. Assovie e ele virá.
Faço isso só pra demonstrar. Uma brisa suave mexe o cabelo dela. Anota.
Imagino roubar as anotações dela.
Ela me pergunta sobre o que penso do imaginário – suspiro –
– voos…
– Pássaros?
– Asas. Liberdade. O voo não é solúvel no ar. De toda queda. Só às vezes, eu quero o chão. Há dez maneiras do imaginário agir.
-Liberdade?
– De dançar, voar, pousar…
Empurra os pássaros com a mão.
Ela anota. Pega na minha mão. Olha na direção da janela.
– Me mostra.
E começa a falar de ninhos.

Mariana Gouveia
– Divã

Divã

Às vezes, é preciso enfrentar a verdade…

Ph: Amanda Mason

Aquela que dói no peito e bate na porta avisando: não tem jeito.
Eu anoto.
Não antecipei o contexto. Apenas repeti. E previ.
Era outono nas manhãs do nada. Um pássaro morre no meu quintal. Tento fazer a simpatia que minha mãe fazia quando eu era criança. Coloco o pescoço do pássaro em volta dele mesmo. Molho a cabeça dele e depois o coloco debaixo de um balde. Dou as três batidas e mais três. Já não tem vida ali.
Já não há voos na minha manhã sombria. Pensei que seria véspera de asas. Acabou.
– Tem dificuldades em lidar com o que acaba?
– Não! Sou áspera na palavra respirar. Acato. Aceito. Sou submissa na atenção dos dias. O fim é sempre uma porta para um novo começo.
– Mas?
– É a reconstrução de um tecido que já foi rasgado. Ditados populares de séculos – Não deite remendo novo em pano velho – e por aí, vai. Diante da verdade possível fica um vão de medo. Planejei o dia de hoje em uma conversa simples, limpa, feliz e pensei nisto com o coração, lembrei de todas as conversas que quis ter, cafés, sorvetes, sombras e varais repletos de palavras e libélulas penduradas na palavra acariciar.
– E não aconteceu?
– Não. Tive de lidar com a morte logo cedo.
Seria possível remendar sonhos?
Anoto eu mesma a minha resposta.
A verdade é que às vezes, é preciso enfrentar a verdade.
Há um pássaro vazio de voo na minha mão.
Hoje, ela não fala…

Mariana Gouveia
– Divã