Das palavras das cartas · infinitamente

Das receitas de fuxicos que não inventei

Haverá para os dias sem memória outro nome que não seja morte?
Morte das coisas limpas, leves:

manhã rente às colinas, a luz do corpo levada aos lábios,
os primeiros lilases do jardim. 
Haverá outro nome para o lugar onde não há lembrança de ti?

Eugénio Andrade

Eudes,

tenho tantas coisas para te contar, tantas perguntas para fazer, afinal de contas são dois anos que não atravesso mais a ponte em direção a sua casa. Todos os sábados eu já tinha uma rotina pronta, um mapa traçado das minhas horas com você. Devo te dizer que você bagunçou minha agenda e aquela coisa que a gente dizia que depois de um ano que uma morresse, a outra já estaria vivendo sem lembrar uma da outra… é mentira! Eu ainda me pego organizando meus dias deixando os sábados livres para você.

Também me pego discando seu número para te ligar para saber sobre artesanatos, livros para ler e até sobre os seus “meninos”. Você teria o maior orgulho deles! Embora tenha sido difícil para todos, eles estão fortes – a vida continua, bebê! – tu me diria. Eles morrem de saudades todos os dias, mas continuam seguindo em frente.

Às vezes, fico me perguntando se você escuta quando converso com você. A gente dividiu tanta coisa juntas. Os fuxicos, as caixas, as bonecas, as receitas de quiabo… Você me surpreendia sempre com meu prato favorito.

Nesses dois anos, Eudes, eu não atravessei mais a ponte e nem fui aos lugares que íamos juntas. Tem gente que diz que preciso ultrapassar isso, mas não é que eu não queira me lembrar de você… é que em todos os lugares que fomos juntas, sem você, não tem mais graça. A moça da loja de tecidos me ligou para dizer que havia chegado novidades e pediu para eu te avisar. Quando dei por mim, estava dizendo que avisaria.

Prometi ao Edi que escreveria nossa história e de como me fez apaixonar por você… Fiquei lembrando nossos momentos e as músicas que ouvimos nas madrugadas sem sono, ou com dores. Lembrei-me da chuva, das brigas, dos seus resmungos, dos seus abraços e de como sua risada ainda ecoa aqui.

Será se – você vai entender a frase errada – eu gritar bem alto e olhar o céu você conseguirá me ouvir? Você era tão minha ao primeiro toque do celular. Você era tão constante nas minhas ideias inventadas, nos artesanatos, nas doações. Mas as frases do fuxico foi você que inventou.

Teve um dia desses que olhei para o céu e vi todos os fuxicos que você disse que faria. No céu, você usaria cambraia fina e estenderia uma colcha em algumas manhãs para me aquecer de amor e foi isso que senti. Senti um amor tão lindo me aquecer feito de nuvens que você, de alguma maneira, transformou em fuxicos, só para deixar meu coração mais quentinho.

Te amo infinito!
Mariana Gouveia

Das palavras das cartas · infinitamente

O filme na máquina analógica

Filho,

quando vi seu story sobre o filme na máquina busquei minha caixa de lembranças, fotos e histórias.
Eu ainda tenho uma máquina dessas, onde você colocava o filme e tirava as fotos – é verdade que metade não prestava – e levava na loja de fotos para revelar. A maioria das lojas eram da @kodak. Seu pai me deu a máquina logo que engravidei de você. Queria guardar seus momentos da infância. Lembro-me que havia rolos em preto e branco e coloridos.


O seu álbum em scrapbook foi feito com fotos que eu mesma tirei nessa máquina.
Encontrei alguns negativos da época. Eu já era apaixonada por fotografias. Registrar momentos seus e acompanhar seu crescimento. E quando algum parente aparecia para visitas o álbum era exposto na mesa.

Depois, a tecnologia avançou e vieram as máquinas digitais. A máquina Star275 ficou na caixa de lembranças, junto com seu álbum que registraram momentos de sua infância e os negativos com filmes que não vingaram.
Hoje, seus olhos alcançam a beleza do lugar onde vive tenho certeza de que muitas dessas belezas ficarão em suas lembranças como se fossem fotografias.

Te amo muito ❤️
Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura · Das palavras das cartas

Em algum lugar além do arco-íris

Luci,

Eu também vi um arco-íris hoje… ainda era manhã chegando e ele engoliu a casa da vizinha num gesto de abraço. Sorri quando vi a cena e quis registrar. Depois, caiu uma garoa miúda e a chuva se foi. Ficou nas trepadeiras as gotas como se fosse um colar de contas.

Eu vi o dia passar leve dentro do segundo dia do ano. Brinquei com o estuque do muro e lembrei-me do seu pai na época em que ele não queria comer. Depois, procurei por nuvens que talvez te servissem de estimação e no fim do dia eu queria te contar uma história bonita…

Vi as aves retornando aos seus umbrais, os cães se estranhando por causa de uma bolinha e a magia do casulo se fechando…

Tinha ainda tanta coisa que eu queria te falar, mas o que ficou em mim nesse dia é o arco-íris abraçando a casa da vizinha.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Do dia diferente dos outros dias

Retirei a tipoia do braço na ânsia de escrever. O vento lembrou Berlim em uma época que não estive por lá. Havia margaridas alimentando insetos com seus polens. O último dia que antecede ao primeiro. As janelas dão vistas para a lateral da canção. Um ciclo se encerra e outro começa.

Rabisquei à lápis o nome das cidades que nunca visitei.

Eu adoraria andar descalça pelas ruas de Paris. Em Lisboa, conheceria a voz dentro dos fados… pelas vielas e ficaria em silêncio reverenciando os arrozais da China.

Lembrei-me de que tinha visto em algum lugar, as vilas coloridas e suas casinhas brancas, com gerânios florindo nas janelas. Parecia uma pintura feita pela irmã, que sabia mexer com tintas desde pequena. Fiquei em dúvida se era verdade ou apenas poesia para acalmar a minha alma e afastar a solidão de um dia grande.

O pai incutiu-me a ideia de reverenciar os dias grandes e eu decidir que iria seguir os rituais aprendidos na infância. E, muito embora, soubesse se tratar de uma superstição, segui rigorosamente cada um.

E eu resolvi deixar de lado os dias pequenos e por isso alcancei a soma… e as palavras dentro dos dias, das cartas. Vibrei na estação das águas e me renovei nos dias aleatórios de abril. Vivi cada um dos momentos e fui narrando num sem fôlego. Conheci a autonomia dos voos e senti as impressões do dia seguinte — que era nada mais do que o

agora. Entre uma estação e a primavera, me coube nas infinitudes das coisas. Tudo tão mágico e grande. Tudo tão pequeno. Dentro dos verbos indefinidos ousei viver… mesmo quando o diagnóstico dizia o contrário. A vida é logo ali. Cada dia é um dia grande para viver. E o desafio foi cumprido. Somente um dia, em todos esses dias se resumiu em umas poucas palavras. Os próximos dias serão de dias grandes! Faça valer a pena!

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

O novo ano é logo ali.

O céu amanheceu colorido e a rua de cima sente a falta de quem se foi. Nas esquinas, o homem da reciclagem recita poemas de amor e recolhe as garrafas e latas da festa de alguém.

Soube de quem partiu por ele e de quem vai voltar. Soube da lua que será cheia hoje e de júpiter com seus domínios fechados com a lua em caranguejo e de como tirar as agruras lavando os pés com a água quente do sol e sal grosso. O novo ano é logo ali. Dia de limpar a mente.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

a vida não era abandono de céu.

Alguém rompeu com a tranquilidade do ninho…
A árvore sofreu cortes nos galhos e o vento tratou de levar o que era lar.
Havia um quintal onde os grãos eram jogados e as frutas disputadas no telhado e só por isso, a vida não era abandono de céu.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Na folhinha é oitava de Natal.

Há apenas 3 folhas do calendário para serem arrancadas. Os verbos indefinidos conjugam o tempo no passado. Era ainda ontem, a vida. Era ontem aquele desejo – lembra? – a vontade de ser mais na vida de alguém. As regras sendo mudadas dentro do diagnóstico. Os corredores lentos e frios.

A casa sendo indicadora da rua de cima. De lá, o quintal é esse vão de janelas invisíveis. O vento sendo mensageiro de boas novas. Nasceu a vida ali no quintal.

A única regra da manhã é a ternura instalada nos ramos de maracujás silvestres.

Escrevia as rotinas sentindo a fragrância da flor. A rota da fuga sendo espaço onde atravesso a solidão em meio ao jardim. A flor já é oferenda do tempo.

Nunca é permitido os pés descalços na relva seca. As respostas surgem secas nas folhas em branco enquanto o vento arranca mais um dia da folhinha na parede.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Minha rua…

tem palmeiras onde canta o sabiá

Dizem que a gente nunca esquece a primeira vez… e eu ainda guardo na memória a primeira vez que pisei em Cuiabá. Eu tinha sete anos e minha mãe veio visitar a minha avó, logo depois da partida repentina do meu avô.

A cidade grande encheu meus olhos ainda dentro no ônibus, na rodoviária. Minhas mãos, grudadas nas da minha mãe dentro do táxi que nos levava ao endereço escrito no papel: Avenida São Sebastião, bairro Santa Helena.

O carro cruzou a principal avenida – Getúlio Vargas – ladeada de palmeiras, onde não se enxergava o fim delas.
– Será que elas tocam o céu, mãe? – digo isso, enquanto o motorista conta que aquela avenida era o cérebro de Cuiabá e mostra do lado o direito, o cinema, a fonte luminosa na praça, que no fim de tarde, já fazia sua dança de cores e logo mais acima, ficavam os bares, mas viramos antes. naquela noite, eu nem dormi. As novidades eram muitas e dentro dos meus sete anos conheci meus tios maternos pela primeira vez.

Um dos meus tios me levou de bicicleta mais uma vez, antes de irmos embora, de volta para nossa casa, na rua que tinha as palmeiras. Tão imponentes e altas que pensei que tocavam o céu. Ali, ouvi os sabiás, de cantos diferentes dos sabiás da fazenda.

Anos depois, mudei para Cuiabá. Parecia que a avenida me acolhia todas as vezes que passava por ela. Era como se ela recordasse daquela menina cheia de sonhos. As palmeiras ainda continuam ladeando a avenida como se a protegesse. E eu ainda ouço os sabiás e outros pássaros por ali e já não penso que o canto seja diferente dos pássaros da fazenda. Talvez, a menina se confundiu com o canto, diante da magia das copas das palmeiras que ainda tocam o céu.

Mariana Gouveia
Todas as ruas

Corredores, Codinome Locura

Adie o Natal que o menino ainda não nasceu!

Adie o Natal que o menino não nasceu”! Era sempre com essa frase que minha mãe acalmava nossa ansiedade na espera dos presentes.

Nasci em uma fazenda no interior de Goiás. E nossos natais tinham a magia do dezembro dos contos de fadas. Não tínhamos neve, nem nada tão sofisticado, mas tínhamos a essência da espera para que Jesus nascesse calmo, sereno e as coisas continuassem como tinha de ser.

Dezembro chegava sempre antecipado nos afazeres dos presentes. Não eram embrulhos coloridos e nem brilhantes. Sacolinhas feitas de saco de linhagem, que hoje ainda uso para artesanatos – feitos por nós mesmos – e os presentes variavam entre a colcha de retalho feita especialmente para cada um dos sete filhos, para as noites frias de junho e o paletó de flanela que tinha o mesmo intuito. Os brinquedos, nós mesmo fazíamos com ossos secos pegos no pasto, galhos de árvores e espigas de milho.

A magia do Natal acontecia em nós na construção do presépio – minha mãe era uma artista sem nunca ter estudado para isso – desde os bonecos feito da argila colhida na beira da represa ao capim dourado, a areia fina que ela coloria com tintas feitas de folhas e frutas que buscávamos no cerrado e a fusão das linhas feitas no tear e o saco de linhagem usado para ensacar os grãos da lavoura, usado para montar nosso presépio.

Colhíamos o algodão, tirávamos do caroço e acontecia a magia do capucho se transformar em linhas variadas, e logo depois, tecidos. Coloridos com açafrão, folhas de cebolas e cascas de madeira, que um dia ensino aqui como fazer.

Cada um em sua função de fazer isso ou aquilo. Minha mãe contava a história do nascimento de Jesus com cada detalhe que parecia que ela presenciara tudo. E embora todos os natais a mesma história fosse contada, sem mudar nada, em cada ano era como se fosse a primeira vez que ouvíamos.

O mais esperado era o nascimento do menino Jesus. A noite, sempre estrelada e ritmada pelo caminhar da estrela guia, andávamos entre o presépio se emocionando com a voz de minha mãe que desenhava nosso Natal.

Há 40 anos o Natal deixou de ser contado por ela. A fazenda ficou lá atrás, como num sonho, mas a magia do esperar que Jesus nasça ela conseguiu plantar em mim e em cada um dos meus irmãos. Vivo adiando Dezembro dentro de mim e tento fazer com que o Natal seja todo dia em tudo que faço e quando a ansiedade bate na porta, relembro a frase que ela dizia: “Adie o Natal que o menino não nasceu”, mas quando no dia seguinte, queríamos as sobras da ceia, ela nos lembrava que Natal era todo dia e que a cada manhã podíamos fazer o menino nascer dentro de nós.


Que o menino Jesus seja um eterno renascer em fé, bondade e esperança.

Feliz Natal!

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

A rua da padaria que vendia sonhos

e se chamava Hortênsias

Eu, por acaso, fui morar naquela rua, amparada por um amigo que nasceu no dia de Natal. Estava grávida do meu primeiro filho e Natalino me acolheu depois que tive de sair de casa. Não foi só ele… mas todos os familiares dele e amigos. A gente se conhecia da rádio. Natalino entregava os jornais em todas as ruas do bairro. Era um meio de aumentar a renda. Nos trombamos em uma dessas madrugadas atrás de notícias, nos idos anos 80.

Nos conhecemos na madrugada, enquanto eu e seu Lino – ainda vou escrever sobre isso – íamos para o trabalho. Seu Lino trabalhava no cemitério – o mais tradicional da cidade – e eu na Rádio A voz d’ Oeste que ficava na rua que fazia fundo com o cemitério. E Natalino entregava jornais nessa região e me acolheu quando me vi só, grávida e sem lugar para morar. Fui morar na Rua das Hortênsias. Em um quartinho acolhedor na Vila Jardim.

A casa ficava nessa vila, na Rua das Hortênsias. As ruas do bairro tinham nome de flores, mas aquela rua não só tinha o nome de flor, mas em toda sua extensão, canteiros de hortênsias brotavam. Assim, como brotavam em minha janela o pão, o leite quente com chocolate, as frutas e o amor em forma de bilhetes encorajadores de irmãs e irmãos de Natalino – sete, ao todo – e de toda proteção de dona. Zenaide – mãe dele.

Eu trabalhava em uma rádio e meu horário começava na madrugada. A padaria, na ponta da rua preparava os pães para o amanhecer. O cheiro me acompanhava desde quando abria o portão até cruzar a esquina, rua afora. E a pedido de Natalino, o dono suspendia a porta para que eu entrasse e tomasse o café da manhã.

O sabor do chocolate quente e o pão amanteigado me encorajava em todas as madrugadas para continuar. Mas, o que me motivava era o pacote com papel de pão que embrulhava um sonho. Desses recheados de creme. Em muitas madrugadas eu vomitava, os primeiros meses de gravidez foram difíceis, mas os últimos, foram de serenidade e o creme ganhava o doce sabor da amizade. Assim como as hortênsias que abriam seus botões no azul suave que continha o nome da rua, pela qual eu passava sem esperança – ou com toda ela na barriga.

A rua parecia desenhada em folhas de papel e seus personagens pareciam transvertidos em anjos. E se não fosse por isso, eu teria perdido todo o sentido de viver quando meu filho morreu poucas horas após o parto. Tive mãos acolhedoras, abraços apertados, companhias silenciosas e sonhos embrulhados em papel de pão;

A vida corre ligeira demais. O calendário ultrapassa o tempo. E a vida cobre o determinado tempo de se viver. Dias atrás, fui abraçar Natalino em sua perda maior – a da mãe – e a rua me acolheu como naqueles tempos de dores. Mas, naqueles dias, eu nunca estive sozinha. Eu sempre tinha um riso, um amparo, um ombro e mesmo quando não havia ninguém, por algum motivo, as flores me faziam companhia.

Hoje, lembrando disso, o cheiro do pão da madrugada me acolhe. O sonho recheado de creme tem o sabor da amizade. Dessa que dura mais de 38 anos. A Rua Hortênsias ainda existe. O quartinho que era meu, acolhe outra menina cheia de sonhos e a minha coragem de viver se mistura apenas com a gratidão que sinto pelas pessoas que o Universo coloca em minha vida.

Marina Gouveia
Todas as ruas