Corredores, Codinome Locura

Do dia diferente dos outros dias

Retirei a tipoia do braço na ânsia de escrever. O vento lembrou Berlim em uma época que não estive por lá. Havia margaridas alimentando insetos com seus polens. O último dia que antecede ao primeiro. As janelas dão vistas para a lateral da canção. Um ciclo se encerra e outro começa.

Rabisquei à lápis o nome das cidades que nunca visitei.

Eu adoraria andar descalça pelas ruas de Paris. Em Lisboa, conheceria a voz dentro dos fados… pelas vielas e ficaria em silêncio reverenciando os arrozais da China.

Lembrei-me de que tinha visto em algum lugar, as vilas coloridas e suas casinhas brancas, com gerânios florindo nas janelas. Parecia uma pintura feita pela irmã, que sabia mexer com tintas desde pequena. Fiquei em dúvida se era verdade ou apenas poesia para acalmar a minha alma e afastar a solidão de um dia grande.

O pai incutiu-me a ideia de reverenciar os dias grandes e eu decidir que iria seguir os rituais aprendidos na infância. E, muito embora, soubesse se tratar de uma superstição, segui rigorosamente cada um.

E eu resolvi deixar de lado os dias pequenos e por isso alcancei a soma… e as palavras dentro dos dias, das cartas. Vibrei na estação das águas e me renovei nos dias aleatórios de abril. Vivi cada um dos momentos e fui narrando num sem fôlego. Conheci a autonomia dos voos e senti as impressões do dia seguinte — que era nada mais do que o

agora. Entre uma estação e a primavera, me coube nas infinitudes das coisas. Tudo tão mágico e grande. Tudo tão pequeno. Dentro dos verbos indefinidos ousei viver… mesmo quando o diagnóstico dizia o contrário. A vida é logo ali. Cada dia é um dia grande para viver. E o desafio foi cumprido. Somente um dia, em todos esses dias se resumiu em umas poucas palavras. Os próximos dias serão de dias grandes! Faça valer a pena!

Mariana Gouveia

2 comentários em “Do dia diferente dos outros dias

  1. Você me fez lembrar de um tempo em ue abri os olhos e decidi marcar lugares no mapa. Queria ir até eles e saber se eu chegaria com tudo de mim. Atraquei em mil portos. Fui estrangeira em alguns (na maioria) e de repente percebi que não tinha lugar preferido. Levava um pouco de tudo e deixava um pouco de nada. Chegava uma e partia outra.

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