Corredores, Codinome Locura

A rua da padaria que vendia sonhos

e se chamava Hortênsias

Eu, por acaso, fui morar naquela rua, amparada por um amigo que nasceu no dia de Natal. Estava grávida do meu primeiro filho e Natalino me acolheu depois que tive de sair de casa. Não foi só ele… mas todos os familiares dele e amigos. A gente se conhecia da rádio. Natalino entregava os jornais em todas as ruas do bairro. Era um meio de aumentar a renda. Nos trombamos em uma dessas madrugadas atrás de notícias, nos idos anos 80.

Nos conhecemos na madrugada, enquanto eu e seu Lino – ainda vou escrever sobre isso – íamos para o trabalho. Seu Lino trabalhava no cemitério – o mais tradicional da cidade – e eu na Rádio A voz d’ Oeste que ficava na rua que fazia fundo com o cemitério. E Natalino entregava jornais nessa região e me acolheu quando me vi só, grávida e sem lugar para morar. Fui morar na Rua das Hortênsias. Em um quartinho acolhedor na Vila Jardim.

A casa ficava nessa vila, na Rua das Hortênsias. As ruas do bairro tinham nome de flores, mas aquela rua não só tinha o nome de flor, mas em toda sua extensão, canteiros de hortênsias brotavam. Assim, como brotavam em minha janela o pão, o leite quente com chocolate, as frutas e o amor em forma de bilhetes encorajadores de irmãs e irmãos de Natalino – sete, ao todo – e de toda proteção de dona. Zenaide – mãe dele.

Eu trabalhava em uma rádio e meu horário começava na madrugada. A padaria, na ponta da rua preparava os pães para o amanhecer. O cheiro me acompanhava desde quando abria o portão até cruzar a esquina, rua afora. E a pedido de Natalino, o dono suspendia a porta para que eu entrasse e tomasse o café da manhã.

O sabor do chocolate quente e o pão amanteigado me encorajava em todas as madrugadas para continuar. Mas, o que me motivava era o pacote com papel de pão que embrulhava um sonho. Desses recheados de creme. Em muitas madrugadas eu vomitava, os primeiros meses de gravidez foram difíceis, mas os últimos, foram de serenidade e o creme ganhava o doce sabor da amizade. Assim como as hortênsias que abriam seus botões no azul suave que continha o nome da rua, pela qual eu passava sem esperança – ou com toda ela na barriga.

A rua parecia desenhada em folhas de papel e seus personagens pareciam transvertidos em anjos. E se não fosse por isso, eu teria perdido todo o sentido de viver quando meu filho morreu poucas horas após o parto. Tive mãos acolhedoras, abraços apertados, companhias silenciosas e sonhos embrulhados em papel de pão;

A vida corre ligeira demais. O calendário ultrapassa o tempo. E a vida cobre o determinado tempo de se viver. Dias atrás, fui abraçar Natalino em sua perda maior – a da mãe – e a rua me acolheu como naqueles tempos de dores. Mas, naqueles dias, eu nunca estive sozinha. Eu sempre tinha um riso, um amparo, um ombro e mesmo quando não havia ninguém, por algum motivo, as flores me faziam companhia.

Hoje, lembrando disso, o cheiro do pão da madrugada me acolhe. O sonho recheado de creme tem o sabor da amizade. Dessa que dura mais de 38 anos. A Rua Hortênsias ainda existe. O quartinho que era meu, acolhe outra menina cheia de sonhos e a minha coragem de viver se mistura apenas com a gratidão que sinto pelas pessoas que o Universo coloca em minha vida.

Marina Gouveia
Todas as ruas

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