Corredores, Codinome Locura

A rua do excesso

onde a solidão se escondia antes do botequim.

A frase na tabuleta me dizia que eu podia passar – pelo menos era uma justificativa plausível para dar ao meu pai – pela rua proibida. Afinal de contas, eu não era perfeita e a rua era de todo mundo. A gente havia mudado a pouco tempo para a pequena cidade – cujo município eu e meus irmãos nascemos, para além da fazenda – e meu pai arrendou um pequeno bar.

O bar ficava na rua proibida porque logo antes de chegar nele entre uma esquina bifurcada ficava a “casa das primas” que era o nome que a gente ouvia de todos entre outros nomes como Casa da luz vermelha, ou como minha mãe dizia: a casa das mulheres de vida fácil e explicava que não sabia de onde o povo tirou essa frase, porque a vida delas não era nada fácil.

Para fugir dessa rua tínhamos de dar a volta em um quarteirão e meio, o que tornava o caminho muito mais longe e claro que nem sempre obedecíamos nossos pais e com toda curiosidade atiçada passávamos na rua da casa das meninas.

A dona era Valci – que muitos chamavam de Valcizona – e que tinha um dos risos mais lindos que pude ver. Um dia, para não atrasar ao levar o almoço do meu pai não dei a volta como era combinado com minha mãe e ao passar em frente a dita casa vi ela abrindo o portão. Os cabelos vermelhos me deixou impactada. A roupa florida esvoaçante e o riso que me deu ao dar de cara comigo, ali, parada.

Eu não entendia porque as pessoas que passavam pela rua faziam o sinal da cruz e de como ela reagia a isso. Quis aquele cabelo, quis reagir as coisas como ela reagia e quis muito rir igual a ela.

Tempos depois, quando caí de bicicleta bem em frente a casa dela fui socorrida por ela, que mandou alguém chamar meu pai. Com o joelho arranhado e a mão com entorse e fui levada para dentro. Ainda me lembro das cortinas esvoaçantes e do chá oferecido enquanto eu enxugava as lágrimas. Por um momento eu esqueci a dor e me vi rodeada de várias mulheres. Embora, não entendesse realmente o que acontecia ali eu vibrei pela minha aventura.

Quando meu pai chegou ela nos acompanhou até a casa, mesmo com meu pai sendo contra. Minha mãe já nos esperava na porta e ofereceu um café, como agradecimento, afinal, ela era cliente do bar também e seria uma desfeita. Virei o centro das atenções quando ela macerou umas ervas e colocou em volta de minha mão e os olhares dos meus irmãos mostravam toda curiosidade sobre o que eu tinha vivido.

A partir daquele dia, ao passar pela rua – que já não era mais proibida para mim – ela me acenava com um sorriso e eu correspondia, com o coração aos pulos, jurando que um dia eu ainda pintaria meus cabelos de vermelho. E pintei… mas isso, é outra história.

Mariana Gouveia
Todas as ruas

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