Chamava ela pelo nome e docemente ela respondia.
Trazia sorrisos, às vezes, quando me atendia. Quase nunca o coração.
Não sabia extrapolar as coisas – dizia –
era feita de matéria perene, ela – a que eu criei.
Nos meus sonhos vinha feito névoa.
Me tocava com a maciez das nuvens e eu era etérea. A felicidade cabia tudo dentro de mim.
Dei-lhe o perfume do nome. O toque das pétalas. Dormia sobre ela. Por ela
e quando amanhecia eu dançava para ela, chovesse ou fizesse sol e regava as sementes que enviou para o jardim.
Um dia, chamei seu nome. E não veio riso, nem coração. Não veio nada.
O eco vagou pelos quartos todos. Visitou gavetas. Bateu janelas e ela não estava.
A montanha onde venta ecoou em resposta do meu grito.
Procurei-a nos lugares, e feito névoa se dissipou.
Eu, que buscava minha lucidez perdi de vez.
Endoideci. Ainda assim a chamava. Ora com a calma do amor,
ora com a tirania dos amantes. Com a raiva de quem endoideceu de amor.
Não veio mais. Nem em sonho.
Desde então, nas madrugadas vazias vago pelas ruas, nua. Coberta apenas com a flor que ela me plantou, com o riso de doida no olhar, cantando o nome dela como se fosse canção.
Quando o sol sai. Volto ao normal. Se bem, que sem ela nunca sei o que é normal.
Mariana Gouveia
*imagem: Anna O.

Uma narrativa no esplendor da duplicidade do EU .
Um EU presente activo que se esforça por ocultar o outro EU feito de” névoa”de perfume ,pétalas em que o outro EU se refugiva à procura da lucidez em vão ao ponto de o dominar reduzindo -o ao silêncio para não endoidecer . Este EU contem um drama de amantes a necessitar de sol para o outro EU voltar a viver festejando a vida cantando. Maria
CurtirCurtido por 1 pessoa
Grata sempre, Maria, por seus comentários pontuais. Abraço
CurtirCurtir
“Quando o sol sai. Volto ao normal.” Delícia de aliteração! Os “L” e os “O”. Normal o sol e a volta e a saída. Eitcha!
CurtirCurtido por 1 pessoa
Eitcha e eitcha!
CurtirCurtir