Cabia em sua voz todas as notas do mundo. Me pediu para contar uma história. Falei de nossa história. De como eu te esperava nas manhãs de sábado vasculhando meu quintal e de como as borboletas amarelas cabiam em nosso romance e de como sua mão encostava na minha mesmo tão longe.
Ela ouviu o vento que desenhei nas tardes de solidão e quis musicar meu amor… A melodia ecoa hoje nas asas da borboleta que vagueia por aqui e às vezes, só às vezes dá de ouvir dentro do silêncio.
Aconteceu abril no meu quintal, embora o mês já viveu por aqui 13 dias dentro das rotinas… mas hoje, abril desenhou asas na tarde amena e o aroma das folhas secas ainda esperando ser recolhidas trouxe o outono e suas nuances aqui.
Trovejou também relembrando que a estação passada ainda deixou sua marca no ar. O pé de algodão se rendeu às flores e o encanto despontou no amarelo que abraçava o verde de puro amor…
A borboleta que nasceu ontem voltou. Veio junto da delicadeza da chuva buscar abrigo no meu toque e o sentido de viver fez sentido no afago de amor. Minha mão serviu de pouso enquanto a chuva passava e logo que o sol apareceu ela voou pela liberdade conseguida. Alguns afagos ficam na alma para sempre.
e achei ali, ausência. Minha. Junto das lembranças, um relicário feito de jardim e a flor silvestre no pingente – você transformou a flor que eu trouxe do campo em joia – e as pinturas ao lado do poema que fala de mar, o anel. Uma borboleta de prata, que uma amiga enviou e as conchas marinhas feito versos dentro dos séculos. A ausência era minha. Tão vaga em você. Releio as frases das cartas que não enviei e ali, exponho gotas de saudades, que é para molhar a flor do campo, em seu relicário, para que ela não morra de sede.
Eu passei horas buscando e descobrindo coisas a fazer nesse intervalo que, antigamente, tratavam apenas como férias. Não sabendo lidar com tanto tempo, pintei paredes entre amarelos ocre e brancos padeiro (que não sei bem a diferença), pintei também portas e janelas, a mobília que andava cansada, além de retocar o passarinho e as letras da palavra correio, tão em desuso na era da não-escrita. Mas não foi apenas trabalho meu ócio: tomei muitos cafés do lado de fora e fui à praia de ônibus, estendi a rede para ler ou olhar o céu, cousa que há tempos não fazia, visitei pessoas, dancei, cantei, celebrei e fiz surpresas para mim e para os outros. É possível esticar o que faz bem e digo – sorrindo para mim – que lixar uma parede e deixá-la lisa como uma folha de caderno pode ser algo prazeroso, ressuscitar o passarinho da caixa de correio é bem maior que só retocar o fosco, replantar e plantar e ver brotar é algo vibrante! Feito isso do meu tempo, lembrei de você dizendo que pertence aos espaços maiores dos bons capítulos da vida, pois bem, esse capítulo com o título “Férias” que os mal-amados chamam “recesso”, não foi tão longo quanto nossa humanidade necessita, mas de sentir a delícia de ter um tempo meu, das paredes, de falar com meus botões, de largar tudo e ir ao cinema, viajar de ônibus beirando o mar… Era só pra lhe deixar tranquila ou feliz, Mari. Queria dizer que ando aprendendo a esticar os capítulos bons, mesmo que nem pareçam ser.
mas havia, também, qualquer coisa de louca não sei se o jeito de olhar. O atrever-se com as mãos ou o recato do decote, tão íntimo. Havia qualquer coisa de tímida, mas, também havia qualquer coisa de exibicionista. Não sei se o riso solto ou a voz quase rindo, quase suspiro. Havia qualquer coisa de pecado, de sagrado também… e profanava em mim nas mãos que me descobria a alma
Mariana Gouveia O Lado de Dentro Scenarium Livros artesanais
Caminho pelas suas ruas e revisito lugares únicos, seus – que conheci ainda menina – a avenida que hoje te corta ao meio era um rio, que desci ladeira abaixo e eu com minhas pernas curtas, atravessava a pequena ponte que me levava à casa de minha avó. As suas palmeiras, hoje, quase caindo, modificadas pelo tempo foram testemunhas dos meus sonhos e da minha vontade de escrever. Por anos, a voz do rádio me levou a ler cartas de amor para toda gente e para os arredores de suas ruas. Ali, enquanto o microfone me fazia porta voz de amor, você crescia e se transformava dia após dia nessa cidade majestosa, mas sofrida. Quando cheguei aqui, ainda menina, fui acolhida pelo teu calor – às vezes, insuportável – mas ainda assim, aconchegante. Sou uma cidadã sua. Documentada e de coração. Conheço teu sabor, teu saber e suas dores. Em cada manhã te vejo com olhos de encantar a alma. Seu céu, infinitamente belo me presenteia todos os dias com suas nuances e cores deslumbrante e no fim da tarde, é magnífica demais para não ser transformada em poesia. Te reverencio em sua beleza. Me compadeço de suas dores. Nas suas noites, me dá de presente seu céu maravilhoso e é agora, diante dele que curvo a você, Cuiabá. Cidade verde que amo. Parabéns todos os dias!
Tem dia que é um pássaro estranho que aparece no quintal – sem jeito de voar – e a liberdade é esse sentido esquisito de pouso fora do ninho e o ramo a oferecer amparo… o vento a abraçar o corpo desatento… e o dia a ser esse monte de pena dentro da alma.
Tem dia que é tão vago que não vale a pena desencantar.
Tem dia que a tarde parece noite no vazio das horas e que o quintal é um deserto apenas com um pássaro estranho.
A árvore cheia de frutas verdes que amadureceu a força e a travessa da cozinha vazia, espreitando o retrato na parede e a ave sendo esse objeto fora das coisas que eram para ser ditas e há apenas o canto do pássaro que vagueia por ali.
Tem dia que a madrugada é turva e os olhos não entendem os sinais de palavras sem liberdade não podem voar.
Mariana Gouveia Desvios para Atravessar Quintais Diário das Quatro Estações Scenarium Livros Artesanais
te escrevo nesse cair de tarde no exato momento em que as aves retornam ao bosque para além da rua de baixo… é um ritual que elas seguem diariamente, faça chuva ou faça sol. Parecem que elas seguem um horário predeterminado entre minhas 17: 35 até às 18:15.
Não são aves migratórias… são em sua maioria garças que dormem nas árvores do bosque que circunda a universidade federal. Nunca consegui acompanhar a ida delas, só a volta. Ou elas usam outro desvio para além do meu quintal.
O cair da tarde no meu lugar é variado em suas cores. E claro, que estou entre a parte do fuso que a gente sempre brinca. Quando minha tarde começa aqui, aí já é noite. Então, estou no seu passado ou futuro – nunca lembro. Mas, quando vejo o crepúsculo anunciando o cair da tarde, lembro-me de você.
Mas em algumas tardes, bambina, a lua surge trazendo Marte como companhia e meu encanto me faz te enviar a foto por mensagem no exato instante. Já aconteceu várias vezes, e a tarde se torna mágica enquanto se transforma em noite.
Só que você sabe que moro em um lugar onde sol domina o céu por inteiro e em algumas – quase todas… quase mesmo – tardes ele se arrasta abrasador até a noite chegar de uma vez. Nessas tardes, a despedida do astro rei ressoa no canto dos pássaros, como se com isso, a tarde demorasse um pouco mais para ir.
É quando minha rua se mistura com o horizonte casas acima. Quase suspiro, de tão lindo que acho. Alguns momentos do dia aqui são peculiares – repetitivo, às vezes – mas o cair da tarde muda toda a rotina do céu. As nuvens parecem carregadas de fogo… formam figuras que tento decifrar…
Mas para mim, bambina, o alaranjado que forma quando a tarde cai por trás da casa da vizinha é quase um convite para dançar como se eu estivesse me despedindo da tarde que cai mansamente… Acho que era isso que eu queria te dizer sobre o cair da tarde do meu lugar.
Morreu de improviso as árvores no quintal. O vento veio tão forte que retorceu os galhos, derrubou os ninhos e as sementes voaram se espalhando para além dos muros. Ainda de manhã, encontrei apenas as folhas já murchas no chão. Em cada canto do quintal um lamento de ave buscando amparo diante da tempestade.
Choveu e a água que caiu levou rua abaixo os ninhos desfeitos. O esboço de asas, o ritmo da brisa se misturaram ao eco que o vento fazia. Algo irritara demais o poder que o vento vindo do sudoeste tem. Ficou violento e raivoso. Seu eco espalhou-se pelo bairro todo. Tornou-se penoso amanhecer e o pé de algodão que era sombra e abrigo, virou entulho no meio do quintal.
O meu bosque – árvore de nada nenhum – encerrado em ciclo imposto pela natureza.
Eu falo de fim enquanto a ave me lembra renascimento.