Mariana,
Eu passei horas buscando e descobrindo coisas a fazer nesse intervalo que, antigamente, tratavam apenas como férias.
Não sabendo lidar com tanto tempo, pintei paredes entre amarelos ocre e brancos padeiro (que não sei bem a diferença), pintei também portas e janelas, a mobília que andava cansada, além de retocar o passarinho e as letras da palavra correio, tão em desuso na era da não-escrita.
Mas não foi apenas trabalho meu ócio: tomei muitos cafés do lado de fora e fui à praia de ônibus, estendi a rede para ler ou olhar o céu, cousa que há tempos não fazia, visitei pessoas, dancei, cantei, celebrei e fiz surpresas para mim e para os outros.
É possível esticar o que faz bem e digo – sorrindo para mim – que lixar uma parede e deixá-la lisa como uma folha de caderno pode ser algo prazeroso, ressuscitar o passarinho da caixa de correio é bem maior que só retocar o fosco, replantar e plantar e ver brotar é algo vibrante!
Feito isso do meu tempo, lembrei de você dizendo que pertence aos espaços maiores dos bons capítulos da vida, pois bem, esse capítulo com o título “Férias” que os mal-amados chamam “recesso”, não foi tão longo quanto nossa humanidade necessita, mas de sentir a delícia de ter um tempo meu, das paredes, de falar com meus botões, de largar tudo e ir ao cinema, viajar de ônibus beirando o mar…
Era só pra lhe deixar tranquila ou feliz, Mari. Queria dizer que ando aprendendo a esticar os capítulos bons, mesmo que nem pareçam ser.
Com amor, Lu.

Um comentário em “Das cartas que recebi.”