Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Tem dia que não amanhece e fica no ontem.

Ph: Alif Sanem Karakoç 

Tem dia que é um pássaro estranho que aparece no quintal – sem jeito de voar – e a liberdade é esse sentido esquisito de pouso fora do ninho e o ramo a oferecer amparo… o vento a abraçar o corpo desatento… e o dia a ser esse monte de pena dentro da alma.

Tem dia que é tão vago que não vale a pena desencantar.

Tem dia que a tarde parece noite no vazio das horas e que o quintal é um deserto apenas com um pássaro estranho.

A árvore cheia de frutas verdes que amadureceu a força e a travessa da cozinha vazia, espreitando o retrato na parede e a ave sendo esse objeto fora das coisas que eram para ser ditas e há apenas o canto do pássaro que vagueia por ali.

Tem dia que a madrugada é turva e os olhos não entendem os sinais de palavras sem liberdade não podem voar.

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar Quintais
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6

6 on 6 – Ao cair da tarde.

Bambina mia,

te escrevo nesse cair de tarde no exato momento em que as aves retornam ao bosque para além da rua de baixo… é um ritual que elas seguem diariamente, faça chuva ou faça sol. Parecem que elas seguem um horário predeterminado entre minhas 17: 35 até às 18:15.

Não são aves migratórias… são em sua maioria garças que dormem nas árvores do bosque que circunda a universidade federal. Nunca consegui acompanhar a ida delas, só a volta. Ou elas usam outro desvio para além do meu quintal.

O cair da tarde no meu lugar é variado em suas cores. E claro, que estou entre a parte do fuso que a gente sempre brinca. Quando minha tarde começa aqui, aí já é noite. Então, estou no seu passado ou futuro – nunca lembro. Mas, quando vejo o crepúsculo anunciando o cair da tarde, lembro-me de você.

Mas em algumas tardes, bambina, a lua surge trazendo Marte como companhia e meu encanto me faz te enviar a foto por mensagem no exato instante. Já aconteceu várias vezes, e a tarde se torna mágica enquanto se transforma em noite.

Só que você sabe que moro em um lugar onde sol domina o céu por inteiro e em algumas – quase todas… quase mesmo – tardes ele se arrasta abrasador até a noite chegar de uma vez. Nessas tardes, a despedida do astro rei ressoa no canto dos pássaros, como se com isso, a tarde demorasse um pouco mais para ir.

É quando minha rua se mistura com o horizonte casas acima. Quase suspiro, de tão lindo que acho. Alguns momentos do dia aqui são peculiares – repetitivo, às vezes – mas o cair da tarde muda toda a rotina do céu. As nuvens parecem carregadas de fogo… formam figuras que tento decifrar…

Mas para mim, bambina, o alaranjado que forma quando a tarde cai por trás da casa da vizinha é quase um convite para dançar como se eu estivesse me despedindo da tarde que cai mansamente… Acho que era isso que eu queria te dizer sobre o cair da tarde do meu lugar.

Bacio,

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo: Lunna Guedes, Claudia Leonardi – Obdulio Nuñes Ortega
Roseli Pedroso – Silvana Lopes

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Das infinitudes

Morreu de improviso as árvores no quintal. O vento veio tão forte que retorceu os galhos, derrubou os ninhos e as sementes voaram se espalhando para além dos muros. Ainda de manhã, encontrei apenas as folhas já murchas no chão. Em cada canto do quintal um lamento de ave buscando amparo diante da tempestade.

Choveu e a água que caiu levou rua abaixo os ninhos desfeitos. O esboço de asas, o ritmo da brisa se misturaram ao eco que o vento fazia. Algo irritara demais o poder que o vento vindo do sudoeste tem. Ficou violento e raivoso. Seu eco espalhou-se pelo bairro todo. Tornou-se penoso amanhecer e o pé de algodão que era sombra e abrigo, virou entulho no meio do quintal.

O meu bosque – árvore de nada nenhum – encerrado em ciclo imposto pela natureza.

Eu falo de fim enquanto a ave me lembra renascimento.

Mariana Gouveia


Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Divago sobre o tempo e suas previsões malucas…

A ausência descrita na palma da mão. Foi ali, que aprendi a voar e descobri novos horizontes. Acabei por concluir que o céu era o limite. O muro era um pequeno detalhe para compreender as barreiras e superá-las. Divago sobre o tempo e suas previsões malucas… o guarda-sorte na rotina dos dias. Uma parede descreve poemas tortos… grafite louco de quem é lúcido por amar. O livro aberto tem o perfume além dos mapas. O oceano é imenso em suas lonjuras no meu quintal. A maresia não conhece a asa da joaninha que baila aqui. O milagre é aquilo que não é natural e era quase dizer que eu estava aqui enquanto você chorava. A cal molhada escondia seu nome onde escrevi poemas… tudo era torto enquanto as tvs liam retratos perdidos na vida. Alguém dizia que a sorte era adivinhada no primeiro sinal e eu não entendia o idioma de quem não conhecia a palavra amar.

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar Quintais
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Dos dias aleatórios de abril.

Costuro a palavra habitar no corpo, como moradia leve… um toque. O coração sendo trocado, de leve, por outro — uma válvula — que afinará as melodias em manhãs de pássaros nas árvores secas do quintal do vizinho. Que além das batidas insanas causará ruídos nas janelas abertas pelo vento. Que fará com que eu esqueça o amor que não deu certo, as perguntas inconvenientes, a mesmice plantada no olhar do homem da esquina. Um coração que viverá de noite, como se dia fosse e que tocará a alma do outro como única, no verbo amar. Costuro a palavra habitar e bordarei poesias soltas nos murais dos pontos de ônibus… sairei cantando o amor como rotina e esvaziarei o peito e dentro da mão, o voar virando pouso, mesmo que imaginário na solidão dos corredores de quem espera viver.

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar Quintais
Diário das Quatro Estações
Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Desvios para atravessar os quintais · Meus Livros · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Estava escrito que haveria um decanato dentro desse período lunar.

Ph: Hanne Feldt

Rasgava a camisa branca a unha… o sangue marcava o passo, o caminho, a trilha por onde andou. O linho desenhado em motivos geométricos. O sistema solar fora de órbita. Continha a palavra sorte na mão.

Jogava as cartas para quem quisesse saber a previsão — do tempo — por que ela própria andava instável dentro das possibilidades de chuva.

Ainda ontem era outro dia e chovia. Hoje não!

Guardara a sete chaves a sombrinha. Pularia todas as poças no mundo da Lua.

Arriscava-se a nomear de novo esse dia… da dor. Estava escrito que haveria um decanato dentro desse período lunar. E muito embora nem fosse cheia, marcava o céu em seu dilema de satélite.

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar Quintais
Scenarium Livros Artesanais

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Scenarium Livros Artesanais

Das tardes amarelas do meu quintal.

Bambina mia,

Agora a pouco choveu e a tarde que se desenhava nublada, de repente, amarelou. Eu já havia dito que o meu pé de ipê é brincalhão e não obedece de jeito nenhum as estações. Em pleno outono ele deu para florir de novo.

O ipê me lembrava sempre minha mãe, por causa de coisas que vivi na infância e as canções que remetia à flor ouvidas no velho motor rádio, mas agora, o ipê também me lembra você e sei que é recíproco. A gente atravessou 2024 para 2025 e de repente foi como se tivéssemos atravessado um século inteiro e o último mês pareceu uma eternidade… Falamos isso por telefone e é estranho retomar o caminho da escrita, ainda com a mobilidade reduzida, mas precisava te seguir nesse abril, para que mesmo à distância – mesmo com tantos te rodeando – você não se sinta sozinha.

Sabe, bambina, não preciso dizer do quanto quis atravessar nossos quintais e ficar em silêncio ao seu lado e nem de como nossas dores couberam uma dentro da outra… tentei te mostrar o lado de cá para te aconchegar no meu carinho do lado daí. Não consegui sair desse quadrilátero que se forma aqui, nem ver os planetas todos alinhados, mas vi um vagalume e chamei seu nome e grito ele bem alto quando trovoa por aqui.

É assim que a gente se encontra e se busca nos ritos entre nossos quintais… é assim que consigo te encontrar no meu cuore cada vez que penso em você… é assim que a gente fica esperando o amanhã,… queria estar junto, ao alcance das mãos, mas como a poetisa que vive em mim diz: e quem disse que é preciso estar juntos… para estar perto?

Bacio
Mariana Gouveia

Alice - Uma Voz nas Pedras · Lunna Guedes · Meus Livros · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – cult coffee and books

Quando surgiu o tema do projeto fotográfico 6 on 6 lembrei-me dos rituais de sempre… aqui, para acompanhar a leitura de um livro a companhia da xícara de café é sagrada.

Confesso que devido à cirurgia nos olhos – quase recuperada – e a alguns problemas de saúde o prazer de pegar um livro e ler tem sido bem pouco, ou quase nada. Minha lista de livros só aumenta e retomo essa atividade nos fins de tarde, sempre com minha xícara de café e um lanchinho.

O meu café é mais forte, e claro que aproveito para saborear alguns textos que amo…

Ou para relembrar momentos que me emocionaram…

esses momentos servem para reviver histórias que tocaram meu coração e por consequência…

dão sabor inigualável em uma tarde chuvosa… aceita uma xícara aí?

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo: Lunna Guedes, Claudia Leonardi – Obdulio Nuñes Ortega
Roseli Pedroso – Silvana Lopes

Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Melhores momentos.

O coração tem em certos dias um orçamento incomportável
Gonçalo M. Tavares

Nunca gostei de fazer a tal retrospectiva de início de ano, nem de lista que sei que certamente não cumprirei, mas ao receber o tema do projeto fotográfico 6 on 6 feito pela Scenarium, achei que o tema veio a calhar, até mesmo para justificar minha ausência nos últimos tempos aqui no blog.

Na verdade, 2024 foi de certa maneira um tanto rude comigo. E seguindo o mesmo ritmo de 2023 com perdas familiares, 2024 também foi cruel nesse sentido, e não só isso. Também passei por uma cirurgia nos olhos e por isso, tive de me manter afastada de vários afazeres, entre eles, ler e escrever ficou restrito à apenas poucos minutos em mensagens de áudios e só.

Resolvi recolher dos últimos 6 meses os melhores momentos de leveza por aqui, e claro que só me mantive bem porque meu quintal me traz a companhia dos pássaros sempre e em alguns momentos de dores foram eles que me fizeram manter a sanidade e bem estar, mesmo em dias difíceis.

Às vezes, os melhores momentos de um ano inteiro ficam guardados na memória, em uma gavetinha para as noites insones ou para serem relembrados em rodas de amigos ou família. Meu pai sempre dizia que um ano nunca é bom de todo e nem ruim assim… Por isso, mesmo nos dias nublados, os pássaros alegraram meu lugar

Impossibilitada de sair e sem poder ler-escrever me atrevi a vigiar as aves dentro das estações, que embora estivéssemos entre outono e primavera tivemos na aminha cidade as temperaturas mais altas do Brasil. E uma das minhas alegrias era ver o banho do sabiá laranjeira e os sanhaços azuis – que mais ariscos, nunca me deixava gravar o banho – em uma “piscina” improvisada para se refrescarem.

Às vezes, alguns melhores momentos são só momentos mesmo e aquele instante dura para sempre na memória… como o pouso de uma ave na mão e o pulsar do pequeno coração se une com o seu e aquele instante fica.

Minha retrospectiva registra aqui os pássaros do meu lugar, talvez, diante dos dias complicados entre procedimentos e cirurgia a minha companhia foram eles, entre voos e pousos por aqui. Chiquinho é o meu beija-flor que nasceu aqui e já contei a história em vários posts.

Mas 2024 não foi só dores e momentos ruins não… nesse momento celebro também o transplante de rim de minha irmã caçula que já fazia hemodiálise havia 7 anos. Não tenho fotos dela para mostrar aqui, porque ela se recupera bem no Paraná.

O tempo passa tão rápido e logo estaremos falando de novo sobre melhores momentos, retrospectivas e lista de desejos… eu, fico aqui, com o carinho dos seres alados do meu quintal e desejo que seu 2025 seja de aconchegos, lindos momentos e de dias felizes. Ainda não estou liberada para estar aqui sempre, mas logo estarei. Até lá, esperem por mim e se cuidem.

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo: Lunna Guedes, Claudia Leonardi – Obdulio Nuñes Ortega –
Roseli Pedroso – Silvana Lopes

Afetos · Das palavras das cartas · Lunna Guedes · Projeto Fotográfico 6 on 6 · Scenarium Livros Artesanais

6 on 6 – Meu quintal

Bambina mia,

E chegou o último 6 on 6 do ano e o tema ganha meu coração, você sabe bem. Quintal me traz a palavra afeto e calma. Eu poderia te escrever mil cartas sobre meu quintal e retratá-lo em mil fotos também. Tenho muitos quintais dentro do meu quintal e te ofereço todos os dias um pouco deles. Há o meu quintal das borboletas, das joaninhas, das flores e suas trepadeiras exuberantes. Das aranhas fiandeiras, das rachaduras no cimento e até mesmo do muro que o cerca

Mas hoje, dou-te os meus pássaros – que você conhece tão bem – e seus voos ou pousos, porque afinal de contas o quintal é a morada e o desvio deles. É no meu quintal que meu pássaro de todo dia nasceu e escolheu morar. Chiquinho é esse habitante desse espaço cheio de flores plantadas para ele, além do seu bebedouro ficar sempre a disposição.

Sabe, bambina, algumas histórias e pássaros nos ligam… a gente já falou sobre isso e quando amanhece aqui, meu quintal recebe os pássaros famintos que vêm apenas de passagem. É como se meu lugar fosse o espaço para eles se apresentarem em cantorias e voos, além da comilança das frutas e rações que deixo para eles.

As muitas das nossas conversas acontecem no meu quintal, debaixo do pé de ipê, perto dos fios dos varais onde o bem-te-vi busca a segurança antes do voo para a árvore que abriga seu próximo ninho. Você se lembra de que eu te falei sobre o afeto dentro da palavra quintal, que li em um blog dias desses e dentro desse afeto você agora tem um quintal também e isso me enche de ternura.

E sabe o que é mais bonito em você ter um quintal para chamar de seu? É que a gente faz essa transição entre meus pássaros e os teus, minhas flores e as tuas, meus ventos e até minhas chuvas se interligam nas suas… O bem-te-vi cata aqui e em nossa conversa, o seu canta aí… e claro que entre o meu e o seu poderia ser rodeados de aspas, porque quem tem um quintal possui a liberdade plena de ver a vida ali, entre voos e uma folha caindo… a flor de maracujá se abrindo para no dia seguinte o fruto surgir.

Mais um quintal é sempre cheio de surpresas, bambina… seja nos pássaros novos que surgem, talvez trazidos por outros pássaros, ou mesmo seguindo a rota dos desvios que atravessam meu quintal, seja pelos rotineiros que trazem um galho para a feitura do ninho.

Ah, bambina, e você sabe que do meu quintal, um dos momentos mais felizes são os banhos do sabiá laranjeira que te mando em vídeo quase todas as vezes – lá vem mais um dos vídeos de Mariana… você deve pensar! Ainda há muitos pássaros para te dar, mas aqui só cabem as seis fotos… mas esses são os que te ofereço para além dos muros e de cada quadrilátero onde denomino de meu. É aqui onde me caibo nessa transição entre meu e o seu quintal para te derramar o afeto que a palavra me abraça.

Bacio,

Mariana Gouveia
Projeto Fotográfico 6 on 6
Scenarium Livros Artesanais
Participam comigo: Lunna Guedes, Claudia Leonardi – Obdulio Nuñes Ortega –
Roseli Pedroso – Silvana Lopes