Corredores, Codinome Locura

Havia um tempo dentro da estação.

Lembrava da chuva na poça d’água e pouso do pássaro o aconchego do voo.
Havia um tempo dentro da estação e o equilíbrio vivo na fé.

O dia da força da natureza, a leveza do riso do sobrinho e saudade escolhida a dedo.
Os bibelôs intactos na estante e a solidez nos vãos do quintal.
Não existe um dia fora dele mesmo junto da imperfeição…

Mariana Gouveia

Afetos

contou os minutos para a solidão.

A noite é oco de sol durante o dia.
Não cabe choro na ausência nem na perda. Há dia de chegar e dia de partir.
Algumas decisões foram escritas em forma de decreto. Ninguém ousa contrariar o princípio lógico das histórias. Repete-se o fim sem o “felizes para sempre”.
Alguns ditados populares dominaram a fala.
É tanto estranho no abismo de mim que a vida parece essa multidão pedindo o pulo. Havia o indício da cor na roupa da menina da esquina. Nunca se soube com certeza o que não era amar. Há tanto ar na falta de espaço… contou os minutos para a solidão.

Mariana Gouveia

Scenarium Livros Artesanais

O quintal é esse portal aberto para o nada.

A tarde amena chega dentro da canção de procurar desenho em nuvens. O gato no telhado arrisca entre os pulos dos cães. Ostentou a palavra solidão na amplitude da tarde.

O pássaro vagueia entre o roubo da fruta ou a água do beija-flor. Reencontro o poema perdido na gaveta das linhas. O céu anuncia uma tempestade junto com o vento e seus trovões que me lembra alguém.

Descubro o desencanto na pergunta perdida. O quintal é esse portal aberto para o nada.

Mariana Gouveia

Scenarium Livros Artesanais

Conheci uma mulher que cantava músicas de amor.

Ph: Laura Makabresku

Cabia em sua voz todas as notas do mundo. Me pediu para contar uma história. Falei de nossa história. De como eu te esperava nas manhãs de sábado vasculhando meu quintal e de como as borboletas amarelas cabiam em nosso romance e de como sua mão encostava na minha mesmo tão longe.

Ela ouviu o vento que desenhei nas tardes de solidão e quis musicar meu amor… A melodia ecoa hoje nas asas da borboleta que vagueia por aqui e às vezes, só às vezes dá de ouvir dentro do silêncio.

Mariana Gouveia

das coisas breves

Aconteceu abril no meu quintal.

Aconteceu abril no meu quintal, embora o mês já viveu por aqui 13 dias dentro das rotinas… mas hoje, abril desenhou asas na tarde amena e o aroma das folhas secas ainda esperando ser recolhidas trouxe o outono e suas nuances aqui.

Trovejou também relembrando que a estação passada ainda deixou sua marca no ar. O pé de algodão se rendeu às flores e o encanto despontou no amarelo que abraçava o verde de puro amor…

A borboleta que nasceu ontem voltou. Veio junto da delicadeza da chuva buscar abrigo no meu toque e o sentido de viver fez sentido no afago de amor. Minha mão serviu de pouso enquanto a chuva passava e logo que o sol apareceu ela voou pela liberdade conseguida. Alguns afagos ficam na alma para sempre.

Mariana Gouveia

Afetos · das coisas breves · Scenarium Livros Artesanais

Vasculhei o baú de coisas tuas

Ph: Pinterest

e achei ali, ausência. Minha. Junto das lembranças, um relicário feito de jardim e a flor silvestre no pingente – você transformou a flor que eu trouxe do campo em joia – e as pinturas ao lado do poema que fala de mar, o anel. Uma borboleta de prata, que uma amiga enviou e as conchas marinhas feito versos dentro dos séculos. A ausência era minha. Tão vaga em você. Releio as frases das cartas que não enviei e ali, exponho gotas de saudades, que é para molhar a flor do campo, em seu relicário, para que ela não morra de sede.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

Das cartas que recebi.

Ph: Luciane Recieri

Mariana,

Eu passei horas buscando e descobrindo coisas a fazer nesse intervalo que, antigamente, tratavam apenas como férias.
Não sabendo lidar com tanto tempo, pintei paredes entre amarelos ocre e brancos padeiro (que não sei bem a diferença), pintei também portas e janelas, a mobília que andava cansada, além de retocar o passarinho e as letras da palavra correio, tão em desuso na era da não-escrita.
Mas não foi apenas trabalho meu ócio: tomei muitos cafés do lado de fora e fui à praia de ônibus, estendi a rede para ler ou olhar o céu, cousa que há tempos não fazia, visitei pessoas, dancei, cantei, celebrei e fiz surpresas para mim e para os outros.
É possível esticar o que faz bem e digo – sorrindo para mim – que lixar uma parede e deixá-la lisa como uma folha de caderno pode ser algo prazeroso, ressuscitar o passarinho da caixa de correio é bem maior que só retocar o fosco, replantar e plantar e ver brotar é algo vibrante!
Feito isso do meu tempo, lembrei de você dizendo que pertence aos espaços maiores dos bons capítulos da vida, pois bem, esse capítulo com o título “Férias” que os mal-amados chamam “recesso”, não foi tão longo quanto nossa humanidade necessita, mas de sentir a delícia de ter um tempo meu, das paredes, de falar com meus botões, de largar tudo e ir ao cinema, viajar de ônibus beirando o mar…
Era só pra lhe deixar tranquila ou feliz, Mari. Queria dizer que ando aprendendo a esticar os capítulos bons, mesmo que nem pareçam ser.


Com amor, Lu. 

Meus Livros · O lado de dentro · Scenarium Livros Artesanais

Havia qualquer coisa de santa,

*imagem: Vanessa Ho

mas havia, também, qualquer coisa de louca
não sei se o jeito de olhar.
O atrever-se com as mãos
ou o recato do decote, tão íntimo.
Havia qualquer coisa de tímida,
mas, também havia qualquer coisa de exibicionista.
Não sei se o riso solto
ou a voz quase rindo, quase suspiro.
Havia qualquer coisa de pecado,
de sagrado também…
e profanava em mim
nas mãos que me descobria a alma

Mariana Gouveia
O Lado de Dentro
Scenarium Livros artesanais

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Carta para Cuiabá aos cuidados do sol.

Caminho pelas suas ruas e revisito lugares únicos, seus – que conheci ainda menina – a avenida que hoje te corta ao meio era um rio, que desci ladeira abaixo e eu com minhas pernas curtas, atravessava a pequena ponte que me levava à casa de minha avó.
As suas palmeiras, hoje, quase caindo, modificadas pelo tempo foram testemunhas dos meus sonhos e da minha vontade de escrever.
Por anos, a voz do rádio me levou a ler cartas de amor para toda gente e para os arredores de suas ruas.
Ali, enquanto o microfone me fazia porta voz de amor, você crescia e se transformava dia após dia nessa cidade majestosa, mas sofrida.
Quando cheguei aqui, ainda menina, fui acolhida pelo teu calor – às vezes, insuportável – mas ainda assim, aconchegante.
Sou uma cidadã sua. Documentada e de coração.
Conheço teu sabor, teu saber e suas dores.
Em cada manhã te vejo com olhos de encantar a alma. Seu céu, infinitamente belo me presenteia todos os dias com suas nuances e cores deslumbrante e no fim da tarde, é magnífica demais para não ser transformada em poesia.
Te reverencio em sua beleza. Me compadeço de suas dores.
Nas suas noites, me dá de presente seu céu maravilhoso e é agora, diante dele que curvo a você, Cuiabá.
Cidade verde que amo.
Parabéns todos os dias!

Mariana Gouveia.
Cuiabá, 306 anos de calor humano