Corredores, Codinome Locura

Beda – Diário

Quando a vida ainda dorme de manhã colorindo sonhos e você vaga nas lembranças pelo meu quintal, eu sinto o sol raiar nesse dia de Agosto. A lembrança de tua voz nesse alegre toque de vida te traz até aqui.
Te mostro os corações que as flores formam ao se juntar e a delicadeza do sono do beija-flor.
Sussurro quase para não acordá-lo. Espanto Lolla, que teima em querer latir ao ver o gato no telhado. A emoção de estar tão perto que dentro de mim o coração não bate, dança. Espio o sol que espreguiça diante das nuvens e o frio quase miragem passa por aqui em uma frente fria.
Um avião cruz o céu e eu te falo dele. Deixa rastros como tiras bordadas num lençol azul.
O cheiro de pão na casa vizinha, uma criança que grita do outro lado da rua e o beija-flor ainda dorme dentro do sonho.
A vida nos espera para viver o dia. Tão grande presente e majestoso na presença da poesia que renasce todo dia no meu quintal.

Mariana Gouveia. * Diários

Corredores, Codinome Locura

Beda – O riso dela tem qualquer coisa de ave que voa…

Ph: Pinterest

A mão dela me trazia barulho do mar. O braço ondula silêncios da tarde Sombras tatuam melodias no vento – que venta – e desmancham sob os cabelos dela… não sabia extrapolar as coisas – dizia – era feita de matéria perene, ela – a que eu criei. A outra – a de verdade – quebrava regras. Falava alto nas bibliotecas… declarava amor nas livrarias. Chegou a declamar poemas ao lado da placa – PROIBIDO FALAR AO TELEFONE – e pisar na grama desajeitadamente, sob os olhos da viatura oficial da polícia. Há sonatas que a areia descreve… E escreve. O riso dela tem qualquer coisa de ave que voa… Leva na mão o carinho portátil, desse pronto para o uso. Mesmo quando meu silêncio ruge feito fera. Tem a delicadeza do poema no verso. Usa quando tomo um chá de sumiço. Mal sabe ela que toda noite, eu olho para o céu e a encontro em uma constelação ou em um pouso rumo ao coração.

Mariana Gouveia
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

das coisas breves

Beda – Medo da noite.

Ph: Steve Gindler

Tinha medo da noite e era dia. Vasculhava as paredes todas atrás de lembranças. Buscava as digitais dela nos objetos que tocou. Na parede, do lado esquerdo da porta, as horas sem ela corriam ligeiras. Voavam feito aves no céu. Em algum canto, rabiscou um coração com o nome dela e foi nesse momento que um arco-íris cruzou o céu de ponta a ponta. Era quase imperceptível. Mas parecia ter zoom ao olhar para a parede do lado esquerdo da porta, quando via as horas a voar e o vento agitava a cortina. De noite, parecia que as asas brilhavam e dançavam saudade olhando para ela. Por isso, tinha medo da noite.

Era quando os fantasmas surgiam em forma de asas.

Mariana Gouveia
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

Scenarium Livros Artesanais

A palavra certa era inevitável.

Ph: Steve Gindler

Fiz o chá para além das xícaras – era a espera antecipada da estação – amanheceu hoje com gosto de inverno. O meu quintal é alheio a tudo – tem vida própria – pássaros cantam. Refaço horóscopos para o mês seguinte. Os astros estão em ebulição. A natureza grita pelo vento de um furacão. Vi algo novo no raiar do dia…. A maresia chegou de mansinho pelas palavras dela. O pássaro voa alheio ao chão. O cão late na folha seca que cai. Remexi nas sementes perdidas. Escoa a água da pia. O chá ferve. Aprisiono desejos secretos. Rio sozinha dos pensamentos loucos. Refaço o roteiro do horóscopo. Alterno os dias. Gelo para a luxação do pé. A dor acalma quando a alma dança. Chorei no poema que li. Havia coração em toda parte. Morde a fruta e vai esperar o dia de amanhã.

Mariana Gouveia
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

Afetos

Beda – Não me procure nas aves da noite,

nem nos sonhos dos homens inconstantes
Me procure no azul do céu, nos galhos secos
na relva que oscila ao ganhar do vento, o beijo molhado

Não me procure nos cantos dos pássaros noturnos,
esses vagueiam em busca de luz.
Me busque nas manhãs sem segredos onde o sol encaminha para mais uma rotina.

Me procure nos voos das aves que anunciam e se preparam para ganhar a liberdade do dia.

Mariana Gouveia

Scenarium 8 · Scenarium Livros Artesanais

Beda – Nos aposentos fechados para os dias

Tropeço nas coisas que eu esqueci pela
sala. O interruptor acende ao meu toque
e a luz pálida ilumina lugares que prefiro
não ver. As fotos estão dispostas em fila
no móvel. Ao lado, a agenda esquecida
pela manhã. Na geladeira, não há quase
nada comível. Apenas um tomate que
escapou da última salada, alguns biscoitos
recheados e um iogurte com data de
validade suspeita.
A mente me leva para lugares onde eu
gostaria de estar. A rua de cima e a casa
com seus quintais floridos. Da janela,
vejo vultos das folhas do
hibiscus mutabilis que dançam
a melodia noturna e brincam com a lua
que desafia o equilíbrio da cortina.
Não gosto desse espaço oco de solidão
dentro de mim. Converso com os
cachorros para evitar a sensação de vazio

que me atinge. Parecem tão solitários
no sono de cada um que nem me ouvem.
Abanam o rabo por instinto,
sem despertar e continuam a sonhar
com o mundo dos cães.

O chuveiro me chama para o banho.

A melodia da água caindo quase me
acordou desse transe. Mas o silêncio dos
cômodos e a ausência de sono nos meus
olhos, tão abertos, esfregam na minha
cara, o quanto essa casa estava cheia de
vida, de gente, de presenças.
Eu estou só — não sei se esquecida ou
abandonada. Pela primeira vez,
em não sei quantos anos, que a cama
é só minha. Ao deitar ouço os sons dos
meus ossos e das molas do colchão.
Rangem em conjunto e depois se calam.

Tão angustiante. Pior é o som que vem lá
de fora. Sirenes gritam à noite
e eu sei que alguém se feriu na casa
de cima.

As vozes se misturam em ofensas.

Conto carneiros, estrelas… agrido
o travesseiro. Ouço o meu nome num
tom sussurrante vindo lá de fora.
Viro de lado. Canto canções
de antigamente. Minha voz não é mais
a mesma e se mistura a outras tantas.
O sono não me pertence…
É dos cachorros. Abro a janela e deixo a
noite entrar, está tudo tão escuro.
Ouço os pirilampos nos galhos,
no quintal e lá longe, a lua se agiganta
diante de mim.

Mariana Gouveia
Texto publicado no Projeto Coletivo O Tempo Perfeito
do clube do Livro da Scenarium Livro artesanais
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

Scenarium Livros Artesanais

Beda – o risco de giz levava a menina ao céu.

Ph:; Pinterest

Cabia na verdade das coisas e era em qualquer dia o calendário das flores dentro de outra estação. Nas calçadas, o risco de giz levava a menina ao céu em seu pulo de amarelinha.
Eu, que nunca mais havia ouvido os sinos da igreja dobrarem, refiz o gesto da oração. O médico redesenhou os calendários no quintal. O amor é esse gesto desenhado em corações ou pouso, quando a noite chega e a lua míngua no céu.
O homem grande ratifica raridades nos caminhos dos guerreiros. A vida é esse rasgo na garganta enquanto a canção de Gadu entoa.

Mariana Gouveia
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

Scenarium Livros Artesanais · Sete Luas

Beda – no cais

Ph: Pinterest

Podia a curvatura da lua ser esse grafite rabiscado nos muros.
Com nome ilegível e pétala de flor, úmida de orvalho enquanto em sua fase de nova o jeito era ser. Apenas ser.
Saturno e seu júbilo e a sensação de pertença nós braços… do céu.
Queria te dizer que posso te ensinar o nome das plantas e qual flor ganha força nessa fase de lua. Posso ser essa espera sempre, desse lado do cais.

Mariana Gouveia
Sete Luas – Scenarium Plural Editora
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

Afetos · Das palavras das cartas · infinitamente · Scenarium Livros Artesanais

Beda – Pai,

sirvo-me uma xícara de café enquanto te escrevo… o tempo passa dentro das nuances dos dias e esse café me lembra tanto você. Aliás, tantas coisas me lembram você. O cheiro da pimenta do reino, do pão de queijo, do milho verde e principalmente o cheiro que antecede a chuva.

Engraçado como me perdi nos dias depois que você se foi… hoje seria um dos dias em que o locutor do seu lugar leria essa carta para toda cidade ouvir e seu olho brilharia ao se reconhecer nela. Seu sorriso se alargaria e seus olhos se amiudavam. Sinto falta desse sorriso, pai. É apenas mais um dos dias dos pais que passarei sem você e acho que você tinha razão quando dizia que o tempo é o remédio para tudo, até mesmo para amenizar a saudade.

Pai, agora que o tempo já sobrepôs sua ausência acho que fiquei mais calada. Dei para conversar só – com meus silêncios – e percebo que não sei nada dos seus voos. Antes, bastava um telefonema, uma chamada de vídeo e te alcançar ao lado da janela ou na soleira da porta a espreitar a rua.

Às vezes, fico só pensando em tudo que não fizemos mais juntos e de como seria seu conselho diante do meu problema…, mas tudo isso, pai, é apenas para ponderar dentro da falta que você faz. Em um dia como hoje, você ficaria à espera de seus filhos e dos abraços, mesmo que fosse por telefone. E foi isso que eu vim fazer… te abraçar para além desse espaço.

Feliz Dia dos Pais!

Te amo infinitamente!
Mariana Gouveia
Scenarium Livros Artesanais
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.

Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Beda – quase fado

Ph: Pinterest

Havia um riso estranho no homem da esquina.
…ele perguntou meu nome duas vezes
E quis saber das horas.
Recolhi as folhas que caíram do outono
passado e molhei as flores na estação delas.
Preparei o chá de frutas amargas
para aliviar a tensão.
Alguém na casa do lado… canta uma canção
em alto e bom som. E a dor desafina
em La Maior.
Ouço uma voz entalada no grito
enquanto eu recordo das promessas.
…um corpo branco onde eu brincaria texturas
e registraria minhas digitais.
…uma boca em meus lábios
para descer rio-pele adentro,
Ser flor em mim.

…na febre teria o abraço como conforto
Me amaria nas manhãs mornas
e me traria a chuva.
…uma praia de espuma onde só há rio
– foi o que cantou nos versos de poemas –
… e uma polaroid para fotos noturnas.

Me deu a lua todas as noites
E o sol todos os dias.
Depois os tomou de volta.
Disse num-voz-sereno que traria de novo
…quando a maresia acontecesse por lá.

Para reavivar minhas lembranças mandou-me o mar
…derramado em conchas
E quando não havia mais nada para prometer,
…falou de amor nas palavras escritas de sempre.
Entrelinhas, foi o que disse.

Eu a vi dentro de um brinquedo a dirigir com um riso
…e não era eu atrás da polaroid – que não veio.
O negativo em preto e branco derramou Flor.

Nem era primavera ainda… mas o sol árido lá fora
desaba folhas no meu quintal. E quando eu já nem pensava mais nela
…me deu um ‘quase fado’ e eu morri no nosso jardim.

Mariana Gouveia
Desvios para atravessar quintais
Scenarium Livros artesanais

Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.