Colher para você as nuvens que douram o caminho por onde ele passa.
Viver em teus dias como manhãs douradas e tardes que se alaranja e tem cheiro de alfazema no quintal.
A vida segue na rotina dos dias. E meu amor é só teu.
Mariana Gouveia
Porque o melhor lado é o dentro
Colher para você as nuvens que douram o caminho por onde ele passa.
Viver em teus dias como manhãs douradas e tardes que se alaranja e tem cheiro de alfazema no quintal.
A vida segue na rotina dos dias. E meu amor é só teu.
Mariana Gouveia
A vida empresta-me a graça do amanhecer e se alaranja no meu quintal. Detalho para ela a profundeza do que vejo. Um sabiá laranjeira voa ligeiro entre o telhado. Carrega no bico algum galho seco pra construção do ninho – eu acho.
As nuvens roubam matizes do sol e se banham numa mistura de todas as cores do arco-íris. Falo pra ela do canto dos pássaros. Do bem-te-vi que duela comigo em quem viu quem primeiro. A vida me dá bom dia pela manhã e eu alaranjo diante de tanta doçura. O sanhaço azul quase cai ao roubar a água do beija-flor. O bebedouro quase não se aguenta e ainda assim ele se equilibra e busca matar a sede. O céu recebe de braços abertos o sol e já não faz mais frio e falamos do tempo. A poesia acontece mais uma vez nas estações diárias que ela coloca em minha vida.
Mariana Gouveia – *diários
Desde pequena queria escrever um diário. Fazia isso em tudo que podia. Papel de pão, folhas pela metade. Não podia estragar os cadernos de escolas com bobagens – alguém dizia.
A mãe a incentivava a escrever tudo que via. A ver a miudeza das coisas e foi por ela que passou a encantar-se com os insetos, os animais – mesmo aqueles que todos os irmãos tinham medo. Era registrar o dia em palavras: Hoje havia visto o sol e por ali, descrevia o rumo das cores que debruçava sobre as nuvens, o calor que aquecia a pele e até mesmo o impossível amor dele, o sol, pela lua.
Descobria a singeleza das coisas no construir das moradias dos insetos. Da formiga que embrenhava terra adentro com seu caminhar incessante pelo mato, pelas folhas;
da borboleta que fazia seu casulo na folha da couve e no marimbondo que pacientemente construía seu castelo.
A mãe lia as histórias como quem desvendava sua alma e seu riso era a parte mais linda do dia.
Mariana Gouveia

Quando a vida ainda dorme de manhã colorindo sonhos e você vaga nas lembranças pelo meu quintal, eu sinto o sol raiar nesse dia de Agosto. A lembrança de tua voz nesse alegre toque de vida te traz até aqui.
Te mostro os corações que as flores formam ao se juntar e a delicadeza do sono do beija-flor.
Sussurro quase para não acordá-lo. Espanto Lolla, que teima em querer latir ao ver o gato no telhado. A emoção de estar tão perto que dentro de mim o coração não bate, dança. Espio o sol que espreguiça diante das nuvens e o frio quase miragem passa por aqui em uma frente fria.
Um avião cruz o céu e eu te falo dele. Deixa rastros como tiras bordadas num lençol azul.
O cheiro de pão na casa vizinha, uma criança que grita do outro lado da rua e o beija-flor ainda dorme dentro do sonho.
A vida nos espera para viver o dia. Tão grande presente e majestoso na presença da poesia que renasce todo dia no meu quintal.
Mariana Gouveia. * Diários
A mão dela me trazia barulho do mar. O braço ondula silêncios da tarde Sombras tatuam melodias no vento – que venta – e desmancham sob os cabelos dela… não sabia extrapolar as coisas – dizia – era feita de matéria perene, ela – a que eu criei. A outra – a de verdade – quebrava regras. Falava alto nas bibliotecas… declarava amor nas livrarias. Chegou a declamar poemas ao lado da placa – PROIBIDO FALAR AO TELEFONE – e pisar na grama desajeitadamente, sob os olhos da viatura oficial da polícia. Há sonatas que a areia descreve… E escreve. O riso dela tem qualquer coisa de ave que voa… Leva na mão o carinho portátil, desse pronto para o uso. Mesmo quando meu silêncio ruge feito fera. Tem a delicadeza do poema no verso. Usa quando tomo um chá de sumiço. Mal sabe ela que toda noite, eu olho para o céu e a encontro em uma constelação ou em um pouso rumo ao coração.
Mariana Gouveia
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
Tinha medo da noite e era dia. Vasculhava as paredes todas atrás de lembranças. Buscava as digitais dela nos objetos que tocou. Na parede, do lado esquerdo da porta, as horas sem ela corriam ligeiras. Voavam feito aves no céu. Em algum canto, rabiscou um coração com o nome dela e foi nesse momento que um arco-íris cruzou o céu de ponta a ponta. Era quase imperceptível. Mas parecia ter zoom ao olhar para a parede do lado esquerdo da porta, quando via as horas a voar e o vento agitava a cortina. De noite, parecia que as asas brilhavam e dançavam saudade olhando para ela. Por isso, tinha medo da noite.
Era quando os fantasmas surgiam em forma de asas.
Mariana Gouveia
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
Fiz o chá para além das xícaras – era a espera antecipada da estação – amanheceu hoje com gosto de inverno. O meu quintal é alheio a tudo – tem vida própria – pássaros cantam. Refaço horóscopos para o mês seguinte. Os astros estão em ebulição. A natureza grita pelo vento de um furacão. Vi algo novo no raiar do dia…. A maresia chegou de mansinho pelas palavras dela. O pássaro voa alheio ao chão. O cão late na folha seca que cai. Remexi nas sementes perdidas. Escoa a água da pia. O chá ferve. Aprisiono desejos secretos. Rio sozinha dos pensamentos loucos. Refaço o roteiro do horóscopo. Alterno os dias. Gelo para a luxação do pé. A dor acalma quando a alma dança. Chorei no poema que li. Havia coração em toda parte. Morde a fruta e vai esperar o dia de amanhã.
Mariana Gouveia
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
nem nos sonhos dos homens inconstantes
Me procure no azul do céu, nos galhos secos
na relva que oscila ao ganhar do vento, o beijo molhado
Não me procure nos cantos dos pássaros noturnos,
esses vagueiam em busca de luz.
Me busque nas manhãs sem segredos onde o sol encaminha para mais uma rotina.
Me procure nos voos das aves que anunciam e se preparam para ganhar a liberdade do dia.
Mariana Gouveia

Tropeço nas coisas que eu esqueci pela
sala. O interruptor acende ao meu toque
e a luz pálida ilumina lugares que prefiro
não ver. As fotos estão dispostas em fila
no móvel. Ao lado, a agenda esquecida
pela manhã. Na geladeira, não há quase
nada comível. Apenas um tomate que
escapou da última salada, alguns biscoitos
recheados e um iogurte com data de
validade suspeita.
A mente me leva para lugares onde eu
gostaria de estar. A rua de cima e a casa
com seus quintais floridos. Da janela,
vejo vultos das folhas do
hibiscus mutabilis que dançam
a melodia noturna e brincam com a lua
que desafia o equilíbrio da cortina.
Não gosto desse espaço oco de solidão
dentro de mim. Converso com os
cachorros para evitar a sensação de vazio
que me atinge. Parecem tão solitários
no sono de cada um que nem me ouvem.
Abanam o rabo por instinto,
sem despertar e continuam a sonhar
com o mundo dos cães.
O chuveiro me chama para o banho.
A melodia da água caindo quase me
acordou desse transe. Mas o silêncio dos
cômodos e a ausência de sono nos meus
olhos, tão abertos, esfregam na minha
cara, o quanto essa casa estava cheia de
vida, de gente, de presenças.
Eu estou só — não sei se esquecida ou
abandonada. Pela primeira vez,
em não sei quantos anos, que a cama
é só minha. Ao deitar ouço os sons dos
meus ossos e das molas do colchão.
Rangem em conjunto e depois se calam.
Tão angustiante. Pior é o som que vem lá
de fora. Sirenes gritam à noite
e eu sei que alguém se feriu na casa
de cima.
As vozes se misturam em ofensas.
Conto carneiros, estrelas… agrido
o travesseiro. Ouço o meu nome num
tom sussurrante vindo lá de fora.
Viro de lado. Canto canções
de antigamente. Minha voz não é mais
a mesma e se mistura a outras tantas.
O sono não me pertence…
É dos cachorros. Abro a janela e deixo a
noite entrar, está tudo tão escuro.
Ouço os pirilampos nos galhos,
no quintal e lá longe, a lua se agiganta
diante de mim.
Mariana Gouveia
Texto publicado no Projeto Coletivo O Tempo Perfeito
do clube do Livro da Scenarium Livro artesanais
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.
Cabia na verdade das coisas e era em qualquer dia o calendário das flores dentro de outra estação. Nas calçadas, o risco de giz levava a menina ao céu em seu pulo de amarelinha.
Eu, que nunca mais havia ouvido os sinos da igreja dobrarem, refiz o gesto da oração. O médico redesenhou os calendários no quintal. O amor é esse gesto desenhado em corações ou pouso, quando a noite chega e a lua míngua no céu.
O homem grande ratifica raridades nos caminhos dos guerreiros. A vida é esse rasgo na garganta enquanto a canção de Gadu entoa.
Mariana Gouveia
Estamos em Agosto e por isso, temos BEDA.