O olho de brincar com miudezas descobriu o sol em uma noite escura. Escrevi cartas que nunca irei enviar. Quando a solidão insiste em um nome – o dela – deixo – a ir…
A vida me espia no tempo de agora.
Trago cargas pesadas demais nas mãos. (ela precisa de leveza no ar) Leio a sorte nas asas para desafiar o destino. Em alguma estação o coração fica quieto com medo de parar.
Mariana Gouveia Projeto Coletivo Ao Sol todo dia Scenarium Livros Artesanais
Pareço vestida de sol… me lembra as nuvens flamejantes e em meu diálogo com você, fazendo tão solar minhas flores, e o pássaro de todo dia me espiam com olhos estranhos… se pudesse falar, diria que a menina que vive em mim carrega nas mãos uma xícara de chá de alecrim e com isso, a magia acontecesse dentro do raio de sol na beira do muro. Os pássaros buscam os frutos da jurubeba e jogam no chão, enquanto as hortênsias azuis me lembram o mar… – que nunca vi. Há momentos em que o meu coração é um Sol – dentro do peito – e como arde.
Mariana Gouveia Projeto Coletivo Ao Sol todo dia Scenarium Livros Artesanais
O desafio em dias nublados é descobrir-te entre as nuvens. Como aqui, você sempre é o rei maior nessa parede que é o céu… sua ardência atravessa a camada de nuvens e seus raios fazem morada aqui. O azul é o manto que me acolhe enquanto te busco nas sombras das paredes dos muros – criando figuras para meu imaginário. Descubro que te quero no meu corpo. Mas fujo de você quando me aquece demais. Abrasante, domina o espaço para além das horas e o vento brinca de te encobrir entre as nuvens.
Mariana Gouveia Projeto Coletivo Ao Sol todo dia Scenarium Livros Artesanais
Antes mesmo que você apareça dentro do quadrante do meu quintal, já sinto sua presença – como um abraço quente e silencioso. Você chega com uma calma incandescente, atravessando as folhas, desenhando sombras e revelando segredos que só a luz pode contar.
Seus raios dourados dançam sobre a grama e enquanto sigo com meus pensamentos, você brinca de aquecer a pele, como quem diz que o hoje é precioso… não há tempo a perder.
Enquanto você caminha lentamente para o horizonte… deixo um último pensamento: “Até amanhã.“
Sinto que você responde, num sussurro de luz: “Sempre.”
Mariana Gouveia Projeto Coletivo Ao Sol Todo Dia Scenarium Livros Artesanais
Quando a vida passa e o tempo e seus sonhos passam juntos, o mês desanda a correr dentro dos dias. A estação muda as cores e o sentido e a secura amarela as folhas enquanto a ave espreita o vento que muda o tempo – mas eu nem tenho tempo. O moço que se encanta pela cidade pequena cria histórias que não existe dentro da minha história. Ele passa silencioso na imensidão da manhã. Culpa o sistema pela vontade exagerada entre voar e sentir. Não sente urgência na palavra amor e a paisagem traz a fumaça do mês que ainda nem veio. Podia ser um nome em sentido de asas. A palavra curta definida no pouso. O jardim a crescer com as ervas daninhas. Se eu pudesse, apagaria os instantes diante da dor e o século seria o momento seguinte que ainda não vivi. O mapa a desenhar as partes dos atlas. O muro feito de prego e o verbo era suspirar.
Não teve missa, o domingo. A igreja fechou para reforma. A oração foi designada para as casas. O vento veio fazer parte do momento. A asa trouxe o número da sorte. Vai que muda a estação e a previsão do tempo erra. Entende a certeza da vida. Ela é ilusão de sopro. Vai até onde ninguém pode alcançar. Há ocasião que é boa para voar. O espelho mostra a verdade inversa. Busca a poesia na cura. O sossego no silêncio é quando o voo grita e as acrobacias no céu pedem pousos. É utopia a certeza do espaço. O abismo é a pálpebra quando abre e o horizonte é a linha imaginária na superfície. O dia destinado ao veneno não é adequado para rezas e uma esquadrilha faz movimentos no céu. As asas, do avesso, rastejam.
Alguém me pede para ser árvore quando em minha escolha sou folha.
A vida, é esse portal que se abre para a floresta. O quintal tem os muros derrubados para fluir o vento para além das ruas. A terra, esse aconchego de umidade de mar nas mãos. Era silêncio na sintonia da noite. Os avisos chegavam em ritmos de sonhos. A previsão do tempo exposta nos galhos virados para os lados do sul. As cartas escritas como se fossem palavras tropicais. Os diários relidos um a um mudam os verbos na estação — a garoa cai onde o outono bate ao pôr do sol. A palavra definida dentro da sede — o frio invadia a brisa mansa da primavera — e o sentimento ardendo na febre do corpo… era verão em algum canto do mundo e a floresta absorvia a invenção do ritmo das folhas. O inverno biologicamente antecipa as vontades de abraço e o dialeto do rito é o silêncio.
Mariana Gouveia Desvios para Atravessar os Quintais Scenarium Livros Artesanais
viu o luto nas memórias das caixas vazias
escreveu histórias que ninguém leu…
Desenhou mecanismo para a rota das formigas.
Não dormiu
sonhou com viagens além dos rios e pisou descalça na grama
comeu o verdume das folhas. era ainda criança quando ousou voar
Tatuou a liberdade em asas
nas costas
viu a cura ao alcance dos olhos
falhou nos abraços dados
coloriu o jardim nas sementes plantadas
e a vida se renovou em germinação.
a vida, por um instante é cíclica.
Afinal de contas, os séculos se repetem em consonância com os verbos do passado…
O ponto só é final quando se chega ao fim.