Corredores, Codinome Locura

Beda – Conversas aleatórias com o sol

Dia 2 –

O desafio em dias nublados é
descobrir-te entre as nuvens. Como aqui,
você sempre é o rei maior nessa parede
que é o céu… sua ardência atravessa a camada de nuvens e seus raios fazem morada aqui.
O azul é o manto que me acolhe
enquanto te busco nas sombras das
paredes dos muros – criando figuras para meu imaginário. Descubro que
te quero no meu corpo. Mas fujo de você
quando me aquece demais.  Abrasante,
domina o espaço para além das horas
e o vento brinca de te encobrir
entre as nuvens.

Mariana Gouveia
Projeto Coletivo Ao Sol todo dia
Scenarium Livros Artesanais

Scenarium Livros Artesanais

Beda – Conversas aleatórias com o sol.

Dia 1.

Antes mesmo que você apareça dentro do quadrante do meu quintal, já sinto sua presença – como um abraço quente e silencioso.
Você chega com uma calma
incandescente, atravessando as folhas,
desenhando sombras e revelando segredos que só a luz pode contar.

Seus raios dourados dançam sobre a
grama e enquanto sigo com meus
pensamentos, você brinca de aquecer
a pele, como quem diz que o hoje é
precioso… não há tempo a perder.

Enquanto você caminha lentamente para
o horizonte… deixo um último pensamento: “Até amanhã.

Sinto que você responde, num sussurro de luz: “Sempre.”

Mariana Gouveia
Projeto Coletivo Ao Sol Todo Dia
Scenarium Livros Artesanais

Scenarium Livros Artesanais

Beda – Tantas

Ph: Kenp

Quis ser livre e foi…
Criou a estratégia
                de fazer nuvens
                       em dias ensolarados.


Sabia o sabor da boca
              e o verbo exagerado
em qualquer pretérito
        que quisesse conjugar

Os dedos livres
                         para sentidos
antes proibidos.

Entregou-se
sem se dar por completa –
porque sabia
que carregava um pouco
das trevas     

                          das Outras

Mas ainda assim
quis ser múltipla.

Tantas

Podia escorrer-se
como se a nuvem

                      estivesse cheia
                  … e desaguou.

Podia tocar-se
e como se fosse nuvem
feita de algodão…
sentiu a plenitude
da leveza.


Foi ser mulher plena,
entregue
e única.

Dentro de si.

Mariana Gouveia
Texto publicado no Projeto Coletivo Mulher de Nuvem e Projeto 365
Scenarium Livros Artesanais

das coisas breves · Scenarium Livros Artesanais

Beda – O mapa a desenhar as partes dos atlas.

Ph: Pinterest

Quando a vida passa e o tempo e seus sonhos passam juntos, o mês desanda a correr dentro dos dias. A estação muda as cores e o sentido e a secura amarela as folhas enquanto a ave espreita o vento que muda o tempo – mas eu nem tenho tempo. O moço que se encanta pela cidade pequena cria histórias que não existe dentro da minha história. Ele passa silencioso na imensidão da manhã. Culpa o sistema pela vontade exagerada entre voar e sentir. Não sente urgência na palavra amor e a paisagem traz a fumaça do mês que ainda nem veio. Podia ser um nome em sentido de asas. A palavra curta definida no pouso. O jardim a crescer com as ervas daninhas. Se eu pudesse, apagaria os instantes diante da dor e o século seria o momento seguinte que ainda não vivi. O mapa a desenhar as partes dos atlas. O muro feito de prego e o verbo era suspirar.

Mariana Gouveia
Agenda 2025
julho, 13
Scenarium Livros Artesanais

das coisas breves · Scenarium Livros Artesanais

Beda – sou folha

Ph: Rosie Hardy

Não teve missa, o domingo. A igreja fechou para reforma. A oração foi designada para as casas. O vento veio fazer parte do momento. A asa trouxe o número da sorte. Vai que muda a estação e a previsão do tempo erra. Entende a certeza da vida. Ela é ilusão de sopro. Vai até onde ninguém pode alcançar. Há ocasião que é boa para voar. O espelho mostra a verdade inversa. Busca a poesia na cura. O sossego no silêncio é quando o voo grita e as acrobacias no céu pedem pousos. É utopia a certeza do espaço. O abismo é a pálpebra quando abre e o horizonte é a linha imaginária na superfície. O dia destinado ao veneno não é adequado para rezas e uma esquadrilha faz movimentos no céu. As asas, do avesso, rastejam.

Alguém me pede para ser árvore quando em minha escolha sou folha.

Mariana Gouveia
Agenda 2025
julho, 07
Scenarium Livros Artesanais

Desvios para atravessar os quintais · Projeto Diário das quatro estações · Scenarium Livros Artesanais

Beda – Abro a porta para um mundo imaginário.

A vida, é esse portal que se abre para a floresta. O quintal tem os muros derrubados para fluir o vento para além das ruas. A terra, esse aconchego de umidade de mar nas mãos. Era silêncio na sintonia da noite. Os avisos chegavam em ritmos de sonhos. A previsão do tempo exposta nos galhos virados para os lados do sul. As cartas escritas como se fossem palavras tropicais. Os diários relidos um a um mudam os verbos na estação — a garoa cai onde o outono bate ao pôr do sol. A palavra definida dentro da sede — o frio invadia a brisa mansa da primavera — e o sentimento ardendo na febre do corpo… era verão em algum canto do mundo e a floresta absorvia a invenção do ritmo das folhas. O inverno biologicamente antecipa as vontades de abraço e o dialeto do rito é o silêncio.

Mariana Gouveia
Desvios para Atravessar os Quintais
Scenarium Livros Artesanais

Scenarium Livros Artesanais

Beda – das singularidades dos dias

viu o luto nas memórias das caixas vazias
escreveu histórias que ninguém leu…
Desenhou mecanismo para a rota das formigas.
Não dormiu

sonhou com viagens além dos rios e pisou descalça na grama
comeu o verdume das folhas. era ainda criança quando ousou voar

Tatuou a liberdade em asas
nas costas

viu a cura ao alcance dos olhos
falhou nos abraços dados
coloriu o jardim nas sementes plantadas

e a vida se renovou em germinação.

a vida, por um instante é cíclica.
Afinal de contas, os séculos se repetem em consonância com os verbos do passado…
O ponto só é final quando se chega ao fim.

Mariana Gouveia

Corredores, Codinome Locura

Beda – Bordar o sol no teu céu,

Bordar o sol no teu céu,

feito moldura de retrato pendurado dando lembranças ao coração do que viveu.

Colher para você as nuvens que douram o caminho por onde ele passa.

Viver em teus dias como manhãs douradas e tardes que se alaranja e tem cheiro de alfazema no quintal.

A vida segue na rotina dos dias. E meu amor é só teu.

Mariana Gouveia

Afetos

Beda – dos diários

A vida empresta-me a graça do amanhecer e se alaranja no meu quintal. Detalho para ela a profundeza do que vejo. Um sabiá laranjeira voa ligeiro entre o telhado. Carrega no bico algum galho seco pra construção do ninho – eu acho.
As nuvens roubam matizes do sol e se banham numa mistura de todas as cores do arco-íris. Falo pra ela do canto dos pássaros. Do bem-te-vi que duela comigo em quem viu quem primeiro. A vida me dá bom dia pela manhã e eu alaranjo diante de tanta doçura. O sanhaço azul quase cai ao roubar a água do beija-flor. O bebedouro quase não se aguenta e ainda assim ele se equilibra e busca matar a sede. O céu recebe de braços abertos o sol e já não faz mais frio e falamos do tempo. A poesia acontece mais uma vez nas estações diárias que ela coloca em minha vida.

Mariana Gouveia – *diários

Corredores, Codinome Locura

Beda – Dos diários

Desde pequena queria escrever um diário. Fazia isso em tudo que podia. Papel de pão, folhas pela metade. Não podia estragar os cadernos de escolas com bobagens – alguém dizia.
A mãe a incentivava a escrever tudo que via. A ver a miudeza das coisas e foi por ela que passou a encantar-se com os insetos, os animais – mesmo aqueles que todos os irmãos tinham medo. Era registrar o dia em palavras: Hoje havia visto o sol e por ali, descrevia o rumo das cores que debruçava sobre as nuvens, o calor que aquecia a pele e até mesmo o impossível amor dele, o sol, pela lua.
Descobria a singeleza das coisas no construir das moradias dos insetos. Da formiga que embrenhava terra adentro com seu caminhar incessante pelo mato, pelas folhas;
da borboleta que fazia seu casulo na folha da couve e no marimbondo que pacientemente construía seu castelo.
A mãe lia as histórias como quem desvendava sua alma e seu riso era a parte mais linda do dia.

Mariana Gouveia