A vida empresta-me a graça do amanhecer e se alaranja no meu quintal. Detalho para ela a profundeza do que vejo. Um sabiá laranjeira voa ligeiro entre o telhado. Carrega no bico algum galho seco pra construção do ninho – eu acho.
As nuvens roubam matizes do sol e se banham numa mistura de todas as cores do arco-íris. Falo pra ela do canto dos pássaros. Do bem-te-vi que duela comigo em quem viu quem primeiro. A vida me dá bom dia pela manhã e eu alaranjo diante de tanta doçura. O sanhaço azul quase cai ao roubar a água do beija-flor. O bebedouro quase não se aguenta e ainda assim ele se equilibra e busca matar a sede. O céu recebe de braços abertos o sol e já não faz mais frio e falamos do tempo. A poesia acontece mais uma vez nas estações diárias que ela coloca em minha vida.
Mariana Gouveia – *diários
