Corredores, Codinome Locura

Efeito borboleta

Ph: Laura Makabresku

 

I

Em gaiolas a boca
rouba a chave e liberta-se para o beijo.

II
A liberdade chama-se a doçura
do beijo dela.

III

E o voo conhece o ninho
no céu
da boca.

Uma vez, me disseram que o mistério do corpo está na boca. Na época, eu questionei e disse sobre ser o coração. Hoje, eu teria motivos para afirmar que é a mais pura verdade. É a boca mesmo o mistério do corpo.

Quando a vi pela primeira vez, ela tentava em vão, na minha frente, a encontrar o cartão transporte dentro da bolsa e travava a roleta. Depois de minutos que pareciam uma eternidade, peguei o meu cartão e disse para ela passar. O que foi um alívio para o motorista e o restante dos passageiros que insistiam em subir no ônibus. Indicou-me o banco ao lado dela que triunfante exibia o cartão encontrado.
– Às vezes, quando você quer algo a bolsa esconde. Parece mágica. – disse rindo – foi quando reparei na boca dela, entre a suavidade e um mistério.
Agradeceu meu gesto e colocou o fone, embalando o corpo ao som de uma música, que confesso desejei saber quem era.
– Amy. Você curte? – disse ela, como se tivesse ouvido meus pensamentos.
Disse que sim com um sinal de cabeça, já maravilhada pelo jeito que ela movimentava o corpo ao ritmo de alguma música qualquer de Amy.
Assustei-me quando ela estendeu a mão dividindo comigo o fone e com isso pude ouvir o refrão de Will you still love me tomorrow.
Ficamos próximas uma da outra e o perfume cítrico dela me inundou. Ela me instigou a seguir o ritmo da música. Fiquei ali como que encantada pela boca dela que repetia as palavras de Amy e quase perdi o ponto de descer.

Não perguntei o nome, nem nada. Fiquei apenas com o refrão da canção e o riso e o perfume dela a povoar minha mente.
|Alguém uma vez me disse que as borboletas causavam efeitos que podiam mudar o mundo|

Mariana Gouveia

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Antes começasse a amar o abandono

Tomaste o caminho do vento e por lá te demoras

— Isabel Mendes Ferreira —

Ph: Pinterest

Havia pouco tempo que eu morava ali. Mudamos dias após a morte da minha mãe. Não sei se para meu pai ficar livre das lembranças e do cheiro dela pela casa, nas coisas. Mas a casa nova tinha mais coisas dela do que a antiga. Ao arrumar os móveis, tudo tinha o seu jeito, a maneira dela. E o jardim, no fundo da casa, parecia que ela havia passado por lá e plantado cada uma das flores e ervas.

Não éramos as únicas novidades da rua.

Duas casas depois da nossa Ana e Cristina se mudaram um dia depois de nós e pelo mesmo motivo. Gostei de Ana — foi amor à primeira vista. Mas, foi Cristina quem ocupou espaço em minha vida.

Ela era uma aventureira, corajosa e nos empurrava para as experiências dela. A casa delas era um sobrado e tinha um quarto que permanecia trancado desde que se mudaram. Na divisão da herança, elas ficaram com a casa que o tio havia morado a vida toda. A chave permanecia debaixo do tapete, antes da escada. E Cris, na sua impetuosidade, nos obrigou a abrir a porta. Além da poeira em todos os móveis — que um dia retratarei com mais detalhes — havia um baú enorme que também foi aberto por nós. Entre roupas, pequenos bibelôs e livros… encontramos um diário, que as meninas interessadas em tesouro não deram atenção. Dividiram os objetos encontrados entre elas.

Um sapato de verniz roxo que Ana calçou como se fosse uma princesa… E o diário foi colocado em minhas mãos pelas duas — como um presente. Foi naquele momento — com um tesouro em mãos — que desejei ser escritora para contar a história de amor que eu via acontecer bem à minha frente.

Mariana Gouveia
Texto publicado no Projeto Coletivo O tempo Perfeito
Scenarium Livros Artesanais

Revista Plural · Scenarium Livros Artesanais

De que cor é a noite?

Dentro da noite só avistava o vazio das horas… a porcelana suja vigiando os instantes, a figura do elefante cor de ferrugem na estante – nunca reparara na cor – ao lado da bailarina, que parece dançar de verdade.

Nem ela mesma sabia a história daquelas peças, quase estátuas, fazendo companhia para a sua solidão. Lembra – se apenas que elas estiveram ali desde sempre. Uma coruja com olho estranho, um gato que lambia a pata, os três frades que bebiam vinho – todos enfileirados na estante.

Os objetos inanimados pareciam ter vida… por vezes, parecia ser ela, o bibelô no canto da sala, com os olhos fixos na janela a espreitar os movimentos da noite.

As toalhinhas de crochê feitas pela avó a ocupar os lugares na casa… a almofada de fuxico, como se estivesse sempre cansada.

Conhecia o barulho da rua… Os carros e seus movimentos. Vez ou outra, um mais afoito, cantava os pneus, na impaciência de virar a esquina. Um bêbado, e sua cantoria noite afora

Dali, do seu canto fixo em sua janela, conhecia as horas, pela cor do céu que surgia. Os olhos buscavam sempre as sombras… onde havia espaço para sua solidão.

Era dali que tinha a dimensão da noite, quando tudo, ou quase tudo se aquietava dentro da rua e a cidade dormia. Só os insones ficavam a espreitar janelas como ela.

Passava os olhos pelos objetos todos. O porta – retrato, que trazia pessoas conhecidas, mas de quem nem mais se lembrava. Sabia o sobrenome, que era o mesmo seu. Onde foram parar àqueles risos que lembram dezembros? Parecem meros estranhos, ao lado do elefante, cor de ferrugem, a vigiar todas as noites, onde apenas o aroma do café, seguia seguindo um ritual antigo, que o pai ensinara.

Se sentia uma alquimista. Relembrava de cada parte da receita, até ver ali, na xícara fumegante sua própria solidão.

Mariana Gouveia
* Texto escrito para a Revista literária Plural La Barca.
Scenarium Livros Artesanais

Scenarium Livros Artesanais · Sete Luas

Sete Luas – minhas impressões

Algumas fases permanecem para sempre…


Sete Luas foi aquele apaixonar diário desde o convite vindo por email e a palavra Cais rondou meus dias por um bom tempo.
Quando bati os olhos na capa – ainda sendo dúvidas da editora -Lunna – horas antes do lançamento – rendi -me! 
O amarelo foi como se o dourado da lua cheia invadisse as janelas do edifício e ali todas as fases e sensações dos escritos me invadisse. Foi quase um uivo de lua.

Aconteceu uma pausa entre o encanto e a posse. O carteiro de todo dia não cabia em risos e repetiu a frase quase que costumeira quando o pacote ganhava meu abraço: – acho que a sua lua chegou!

Sufoquei – me com as luas incompletas de Aden Leonardo. Antes começasse a amar o abandono era quase um convite para soprar a lua e delirar dentro do que não foi vivido. Aden é esse uivar em um mistério.

O contrário, de cabeça para baixo, era possível repetir a palavra encanto nas luas de Adriana Aneli. A lágrima, a lâmina… sendo corte e líquido nas fases soltas de Lua. À mercê do impossível caberia em uma história cantada pela menina que adora ópera.

Adriana Elisa é esse frescor  Nas antigas tardes em que não queria inventar coisa alguma e é cópia da mãe – Adriana Aneli – e única em sua doçura agridoce nas memórias de Lua e do amor.

Ingrid Moradiam é  aquela menina que me me leva pelas mãos em outras infâncias e me lembra que se eu apontar o dedo para as estrelas, nasce uma verruga bem na ponta do nariz – porque aqui, a lua é a parte principal…

Já eu!! Mariana Gouveia… Ah, No cais outra vez… conheço os ancoradouros de minha infância como se sempre estivesse ali, faminta de amor e possuída de saudades. E ainda nem sabia o que era amor.

o cais a seus pés
e o mar em seu estado bruto
– de onda

Nic Cardeal
é esse ponto cardeal ao Sul… Em metades ou quase nada...
Mentira!
É tudo, essa menina! Inteira… quase fases de luas cheias o tempo todo.

Sabe aquelas fases em que você sempre viveu e que é quase além das fases da lua que conhece?
Rebeca Navarro é esse grito na garganta que fica calado. E que quando solta consegue voar pelos plexos lunares.
Nos aposentos fechados para o dia é bem ali, detrás da cortina que me contive na voz e nas palavras. Aluei!

As luas em suas intensidades me deixa avuada de lua… e avuada era a palavra que me definia para minha mãe:
– Esse jeito de lua que você tem, menina… Parece avuada! Essa letra feita de satélite nas pontas do dedo…
Por falar em lua…

e essa Lua de Papel que sempre me domina?
Posso ser eu, assim?

Mariana Gouveia
Sete Luas – Scenarium Plural Editora

 

 

 

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Os meus cadernos

Eu sempre adorei cadernos. Mas só fui ter acesso a eles depois dos meus doze anos. Os primeiros eram feitos de papel de pão ou de qualquer outro tipo de papel que chegava na fazenda e costurados na velha máquina Singer pela minha mãe.

Na primeira vez em que entrei em uma papelaria foi como se tivesse entrado em um mundo encantado. A papelaria/livraria/mercearia — a única na cidade — tinha uma prateleira destinada aos livros de faroeste, lápis, canetas e para os cadernos.

As capas traziam fotos de carros ou escudo de times de futebol. Meu pai tinha que comprar sete — o número dos filhos — e os escolhidos eram os mais simples.

O meu tinha na capa uma moça em uma faixa de pedestre que deixava o material escolar cair, um guarda a ajudava enquanto o carro freava. Ao fundo, uma cidade desconhecida com prédios modernos. Mas eu estava tão encantada com as folhas em branco, pronta para serem escritas que a capa era apenas um detalhe. Cada página tinha um valor estimado.

Naquela noite, o caderno-novo foi aconchego debaixo do travesseiro e nos dias seguintes os primeiros poemas – escritos nos cadernos improvisados — foram transportados para ele.

Cada vez que o meu pai ia para a cidade, gerava uma expectativa de qual seria o outro caderno que ele traria. Meus irmãos sempre pediam doces, ou outras coisas. E eu pedia outro caderno novo.

Gostava mais dos de capa dura, encapados com restos de tecidos que sobravam das costuras de minha mãe. Gostava de colar as figurinhas do Amar é… que o seu Tonico, o dono da papelaria, mandava para mim. Foi em um caderno de capa dura que iniciei meu primeiro diário… Mas isso, é uma outra história.

Mariana Gouveia
Texto publicado no Projeto Coletivo O tempo perfeito
Scenarium Livros Artesanais

Corredores, Codinome Locura

Das horas

As horas não passam no sentido das coisas.
Ela anota meus desafios diários.
A cortina não combina com meu estado de espírito. Permanecem fechadas e isso foi ontem.
Hoje eu falo calada. Eu olho o relógio. Ela olha o relógio. Anota.
Deve ser essa pressa de ir embora que me move.
– Pra onde?
– De nada para lugar nenhum.
Eu tive de desenhar um mapa.
Falando em mapa tive de fazer o mapa astral dela.
Falei de horóscopo. Ela riu.
Eu tinha síndrome de fuga.
Diagnóstico conhecido e exemplificado em palavras confusas
que eu precisaria de um dicionário para entender.
– Não quero fugir. Nunca quis. – falei entre um sussurro que acho que só eu ouvi.
Ela anotou.
O relógio na parede.
Tic-tac só não era maior do meu suspiro.
O tempo mudou de repente.
Não quis dizer que não acredito em meteorologia.
Seria considerado fuga do tempo
e esse, para mim, seria como diz a música:
um dos deuses mais lindo.
E ela disparou a falar de canções.
Dancei.

Mariana Gouveia – Divã

Scenarium Livros Artesanais

Beda – Conversas aleatórias com o sol.

Dia 5.

Classificado


Vendo pedaços de sol no quintal.
Para além do dourado, o aroma de mel
exala em cada micro botão.

Aceito (apenas) poesia
Como pagamento

Não insista em parcelamentos,
Apenas pagamento à vista!

Mariana Gouveia
Projeto Coletivo Ao Sol todo dia
Scenarium Livros Artesanais

Scenarium Livros Artesanais

Beda – Conversas aleatórias com o sol.

Dia 4

O olho de brincar com miudezas
descobriu o sol em uma noite escura.
Escrevi cartas que nunca irei enviar.
Quando a solidão insiste em um
nome – o dela – deixo – a ir…

A vida me espia no tempo de agora.

Trago cargas pesadas demais nas mãos.
(ela precisa de leveza no ar) Leio a sorte
nas asas para desafiar o destino. Em
alguma estação o coração fica quieto
com medo de parar.

Mariana Gouveia
Projeto Coletivo Ao Sol todo dia
Scenarium Livros Artesanais

Scenarium Livros Artesanais

Beda – Conversas aleatórias com o sol

Dia 3.

Pareço vestida de sol… me lembra as
nuvens flamejantes e em meu diálogo
com você, fazendo tão solar minhas
flores, e o pássaro de todo dia me espiam
com olhos estranhos… se pudesse falar,
diria que a menina que vive em mim
carrega nas mãos uma xícara de chá de alecrim
e com isso, a magia acontecesse
dentro do raio de sol na beira do muro.
Os pássaros buscam os frutos da jurubeba e jogam no chão, enquanto as
hortênsias azuis me lembram o mar…
– que nunca vi. Há momentos em que o meu coração é um Sol – dentro
do peito – e como arde.

Mariana Gouveia
Projeto Coletivo Ao Sol todo dia
Scenarium Livros Artesanais

Corredores, Codinome Locura

Beda – Conversas aleatórias com o sol

Dia 2 –

O desafio em dias nublados é
descobrir-te entre as nuvens. Como aqui,
você sempre é o rei maior nessa parede
que é o céu… sua ardência atravessa a camada de nuvens e seus raios fazem morada aqui.
O azul é o manto que me acolhe
enquanto te busco nas sombras das
paredes dos muros – criando figuras para meu imaginário. Descubro que
te quero no meu corpo. Mas fujo de você
quando me aquece demais.  Abrasante,
domina o espaço para além das horas
e o vento brinca de te encobrir
entre as nuvens.

Mariana Gouveia
Projeto Coletivo Ao Sol todo dia
Scenarium Livros Artesanais