Scenarium Livros Artesanais · Sete Luas

O barco de papel…

ancorado no canto da mesa da cozinha
Um envelope a espera da resposta
A tarde deixando o dia e levando o sol
Para navegar outros mares
Saudades
a alma ultrapassa a porta e vai em busca do oceano
A nado.

Mariana Gouveia
In – Sete Luas
Editora Scenarium Plural
*Imagem: Wallpaper The Best

Corredores, Codinome Locura

Nem todo dia tem noite pros lados do Sul.

O sol dorme no horizonte dos olhos dela
e há prenúncio de tempestade vinda do leste.
O verão brinca no riso que ela adora desfolhar

Há qualquer coisa de trilha musical que me envolve quando pensa nela.

As canções que ela cantou – ou que eu pensei em ouvi-la cantar –
nunca sei quando meus pensamentos são maiores que meus desejos
nem quando é noite no centro oeste da minha imaginação
porque sempre há um sol nascendo no horizonte dos olhos dela
onde as meninas dos olhos dela brinca de viver só para mim.

Mariana Gouveia

Afetos · Das palavras das cartas

Acho que te criei no interior de minha mente.

 L,

Essa carta não será enviada e fará companhia as tantas outras que escrevi – e não digo sobre as que rasguei, embolei, joguei fora – e será apenas palavras escritas no vento, como o coração que vagueia nas nuvens. Foi escrita em uma primavera de ontens que penso ter vivido.

Perdi a conta dos dias de solidão sem sua voz, sem seu riso e sem o olá tão único e distinto. Aqui, continua quase tudo igual. Os cães ainda vivem ao pé de mim e essa frase dita assim me faz lembrar teu sotaque. Já te contei que busquei seu rosto em outras pessoas? Dias desses, ao atravessar a rua te vi, ou melhor, pensei ter te visto. A pessoa atravessou a faixa de segurança e cruzou a avenida rumo a praça dos correios.

Corri logo depois do ônibus parar ao meu sinal – loucura minha, digo – para ao chamar teu nome, perceber que a solidão me faz ver coisas e a vi de novo dias atrás na missa. Cheguei a pensar que a tal pessoa poderia ser sua parente.

Minha analista acha que crio projeções de vontades que tenho aqui dentro. É verdade, tenho uma analista que fica a me ouvir e apenas repete o que um dia você disse sobre esse amor ser o mais bonito dos amores.

Como disse Silvia Plath:  Acho que te criei no interior de minha mente e te busco nos aromas das flores, na chuva morna que já te lavou a alma aqui. É engraçado como as coisas tomam formas dentro da imaginação. Parece que foi ontem tudo e hoje, não consigo nem relembrar as datas. O calendário vira do avesso e me engana na sorte das rotinas. O dia do santo do seu lugar, o aniversário que é logo ali, o endereço que não lembro mais e o telefone que busco o número nas mensagens antigas.

Aqui, tudo é bloqueio entre as frases cortadas e o engano de sua presença. A vida é assim mesmo…  os finais são necessários para um novo começo, mas no fim o que fica mesmo é saudade.

Beijo meu

M

Afetos · Das palavras das cartas · Scenarium Livros Artesanais

Voa, menina, voa!

Ph: Tumblr
Eles olhavam e não a viam. Ela fazia mais sombra do que existia.
Clarice Lispector

Querida A,

Escrevo- te como presente. Deveria te dizer que as letras são tuas e que você é apenas a personagem das minhas memórias. Te nomeio Ana e assim te faço real, quase toco – a nas palavras que avançam dentro da noite. Era você ali, no meu lugar comum e o riso cabia no ritmo das ruas. Para amanhã, as mãos escrevem a palavra final.

Não cabe a verdade das palavras tolas. O que vejo é você para além das cartas e diários que dizem mais sobre mim do que sobre você.

Era você ali, menina mulher com cheiro das folhas caídas no quintal. Sua história cantada nos cordéis da feira da rua de cima e vi que você é inventada na fé. Do espelho que quebrou ainda restam os cacos na pazinha na porta do fundo e o casarão já tem seu nome escancarado nas cores intensas e nas flores lilases esparramando – se nos muros.

É primavera e você poderia ter nascido em qualquer dia e fixo meu olhar nos dias em que te esperei. Hoje, te guardo dentro do meu abraço e ficamos partículas de um acaso, de encontros e reencontros nas esquinas entre a rua do meio e a rua de cima.

Atravesso a tarde como o vento que sacode as cortinas. As cartas espalhadas na cama e seu nome sendo perpetuado nas mulheres de sua vida e agora na minha. Dou – te a estrela mais brilhante e afirmo na densidade dos dias que ele te pertence em pura espécie de benção e de vontades.  E que a liberdade te abrace na rotina dos dias.

Na sua estante, livros que desenham sua história na minha e você se transforma na personagem que cuido, trato e defino com nome de flor. O que será amanhã, quando o dia romper a aurora e você virar apenas sopro ou suspiros?
Amanhã, você será apenas a liberdade das gaiolas abertas.
Voa, menina, voa!

Mariana Gouveia

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

O jardim aonde ela plantou corações.

mui de muito cor de coração dou de dourado pé de pétala vem do ventre algo de algodão.
Tomás Cunha Ferreira

Pela ordem natural das coisas o casarão ficou pronto e no jardim o amor agarradinho brotou poucos dias antes da primavera. O riso dela ecoava pela casa e Amy era a sinfonia que mais se ouvia.

Nas árvores ao redor havia ninhos de aves e o canto delas era o que se ouvia pela manhã – soube disso depois da noite que dormi aqui, em uma dessas noites em que ela ardia em febre – e a leveza do lugar me faz sentir em casa.

Ajeito os lençóis para que ela fique bem dentro do delírio. As cartas do baú se transformaram em minha leitura preferida, enquanto a luz do abajur muda a cor dos cabelos dela.

As fotografias estão espalhadas em quadros diversos e algumas cartas também fazem parte da decoração. Ela rascunhou uma em spray na parede que fica perto da janela. A impressão que dá é de que as palavras voam a cada balanço das cortinas.

Ela acorda. Pergunta sobre as horas e pede algo para comer. Meu instinto de mãe antecede a vontade dela e ouço histórias de carrocel, de quando ela e Madalena atravessava a cidade para que ela brincasse na roda – gigante…

– Já te contei que adoro roda – gigante? – ela antecede meus pensamentos, enquanto devora a sopa de legumes – e que havia um parquinho ao fim da avenida e que pelo que me lembro eu e minha mãe éramos as únicas clientes. O carrossel era uma delícia! Eu chamava o cavalo azul de alazão e voava nos braços de minha mãe.

Amanhã ela faz 40. Lembra de detalhes do bolo de cinco anos, do de dez e do de quinze. Depois disso, viveu de solidão na casa dos tios e só descobriu que o casarão era dela dois anos depois que os pais morreram em um acidente.
Sempre viveu de ausência – essa era a verdade – e é verdade que nunca sentiu falta de presença. Essencialmente, as visitas dos tios e parentes próximos eram apenas para cumprir rituais e foram espaçadamente diminuindo até não se fazerem mais necessárias.
Nunca questionou o destino, nem a dor que sentia nos dias em que a presença da mãe clamava no peito. Lembrava sempre do que a mãe dizia como ensinamento. Buscava interesses na literatura, na arte e nos gostos pelo que era vivo e aprofundava a pintura. Sabia que o dom rondava a forma crítica que encarava o mundo. Não permitia ninguém se aproximar tanto. Era mais por proteção, como a mãe ensinara.

Amanhã ela faz 40 e é tão menina dentro dos dias. Os fones no ouvido – o que desencadeou a febre que passou, enfim, foi a dor de ouvido – e ela não ouve o vento que agita as flores no jardim, enquanto dorme…

O jardim é só meu nessa noite, enquanto espreito o sono dela enquanto o vento faz melodias no jardim… O jardim aonde ela plantou corações e que em plena primavera a vida lhe sorri.

Mariana Gouveia

 

 

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

As memórias são quase uma casa difícil de habitar.


Toda a vida tive esta sensação:

quem me dera que houvesse alguém que me pegasse pela mão

 e se ocupasse de mim.

Etty Hillesum

– Devia te prevenir que ia fazer geleia de pimenta. Os pés, no fundo do quintal foram generosos.

Meus olhos lacrimejavam e ela ria diante do meu nariz vermelho.

–  Quando eu faço isso é como se eu trouxesse minha Madalena até a cozinha e ela ficasse ali – no canto da mesa, com a xícara posta como se estivesse sendo servido o café – a espreitar minhas mãos a retirar as sementes e me encantar pelas cores rubras e achar o nome dedo de moça incrível.

–  Meu desafio habitual – disse emocionada por ela – é apontar o lápis e escrever cartas em papel em branco. Ver o cinza a descrever histórias que ainda acredito fazerem partes de minha memória. Das “dedo de moça” lembro – me da horta cercada e os pés floridos em miudezas… – funguei, enquanto o olho ardia e eu saia para o quintal.

– Tenho que recriar a horta no quintal. Há um canteiro morto para ressuscitar… – riu, enquanto tentava com que as memórias não viessem tão fortes dentro das lembranças – eu era ainda menina quando as duas me ensinaram o processo de retirar as sementes e a maneira de esterilizar o vidro. O anis estrelado dava o sabor discreto que fazia/faz toda diferença. Era quase alquimia juntar os ingredientes e parece que vejo Madalena parada perto do fogão a misturar-se densa dentro dos pensamentos. Pensar é vago. Dá essa incerteza de ter vivido. As memórias são quase uma casa difícil de habitar. Era como se um poema por dia fosse recriado e eu era posta dentro dele.

– Entendo… – e estendo as mãos para um abraço onde ela se aninha.

Acho que ela pediu silêncio enquanto a voz de Amy enebriava toda casa. Depois, cantou a musiquinha que repetia meu nome um monte de vezes… e meu nome virava canção.
– Mariana conta um, um conta Mariana…

Mariana Gouveia

Scenarium Livros Artesanais

Porque a vida sem roteiros se tornou um retrato único, dessa rotina descabelada.

Tears Dry On Their Own tocava quando entrei na parte principal do casarão e ela nem me viu – o som ecoava entre as paredes levantadas em outros tempos.

Fiquei em silêncio vendo os olhos dela fechados e o ritmo da música ecoando pelos poros. De repente, ela abriu os olhos e suspirou… era a leveza da voz nas paredes e as coisas a brincar de pique esconde com ela:

– Onde deixei o aspirador? Cadê o paninho, cadê? – minha mão estendida oferecia o pedaço de pano largado em cima de uma cadeira – e a surpresa do olho se desmanchando no riso.

– Achei as fotografias – uma pausa longa e o tcharam!! – e entre a voz de Amy ecoou a dela – E – OS – DI – Á – R- I- OS!!

– Diários? Não era só um?

As mãos dela abriram a mala estilo retrô – ou vintage, ela diria – e eis que surgem livros-cadernos-brochuras – onde apenas as capas os diferenciavam em cores.

– Teodora, Isolda, Bernarda, Teresa, Leonor e enfim, minha doce e adorada Madalena! – os exemplares pareciam cadernos comuns e eu poderia passar a noite toda ali a folhear cada um deles com cheiro de passado – e a atenção dela me pedia calma e despistou oferecendo para fazer o chá.

Reclamou do cansaço do últimos dias – e olha que devia ser férias, viu? – F – É – R – I – A – s!!
– Bom, devo lembrar que foi você quem quis vasculhar o sótão e eu nem sabia que havia um sótão aqui…

– Há muitas controvérsias em tudo isso! – e riu – O tempo surge dentro dos baús e ecoa em nomes e lembranças.
É tempo de se curar das rotinas, tirar do rádio as canções de rádio novelas e jogar no fundo do baú as velhas cartas de amor. Só as cartas. Ah, e Amy!! Você viu que amo Amy, né? Amy é amor em voz – e o celular repete o refrão…
Esse amor que você guarda em algum espaço restrito da lembrança, que é pra quando sentir falta, servir com chá – e por falar em chá, olha só o apito da chaleira a nos chamar – quer biscoitos?
Nem respondi… a xícara repousou em minhas mãos e meus olhos devoravam as palavras de Leonor:

A vista me lembrava o terraço da casa de minha avó. Os bordados sempre engomados dependurados e os hibiscos derramavam suas flores em seus diversos tons. A estação muda as cores da manhã e lembro – me de que a vida cabia minúscula nos lenços bordados com monogramas e as lembranças daquelas manhãs regadas de doçura e das roupas espalhadas no chão, e sem esforço, ainda sentir o sabor doce do melhor beijo.
A casa tinha rotinas logo pela madrugada. O café era servido na casa grande e os pássaros invadiam os jardins em seus galhos e os beijos eram furtivos – ou roubados – sob as janelas pesadas entreabertas depois do terceiro toque.
O relógio do pai sempre desobedecia a temporada das flores. O cafezal seguia o ritmo primeiro do afago na terra que a mãe em sua sabedoria fazia.

A leitura me fez voltar em um tempo que não vivi. As palavras e letras desenhadas dentro da sabedoria das horas me fazia querer esse tempo que não vivi e nem chegou até a mim, exceto pelas cartas que leio e abraço com a delicadeza de quem nina uma criança que ainda pode crescer.

O tempo chegou e não ficou nem para uma xícara de chá quente. E o hoje já era ontem.

Com um sorriso feito de retalhos – daqueles que a avó bordava e fazia colchas – ela não esperava mais cerrar os olhos para sonhar de novo. Agora, já sonhava de olhos abertos, que era para se realizar logo.

Parecia ontem. Tudo ainda era caixote e as paredes redesenhadas e os baús com cheiro de memórias e um sorriso desesperado estampando a inocência de uma beleza curiosa. E ela a repetir no corpo a canção de Amy…
Prometeu ao vento ser forte e aguardar o dia de amanhã, se a rotina permitisse e ela ria. O tempo continuou correndo, com ou sem pilhas nos ponteiros. Simples assim.

Entre uma estação e outra, enquanto o portão se fechava e ela fechava a caixa de fotografias de mulheres que fizeram de tudo para ela ser ela, apenas e só tentou deixar o bonito, ainda mais lindo, jogando fora as regras de sobrevivência. Porque a vida sem roteiros se tornou um retrato único, dessa rotina descabelada.

Mariana Gouveia

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Seu tempo partido em outras infâncias.

É apenas um pequeno buraco no meu peito, mas sopra nele um vento terrível.

— Henri Michaux —

A ansiedade chegava antes das cartas. Por causa do lugar, atrasavam uns 15 dias. Era tão difícil compreender as datas, o tempo, restava apenas o lugar de origem da escrita e da pena por trás dela.
As palavras vinham adoçadas. Recheadas de saudades.
—— ontem fez frio — anteontem choveu hoje amanheceu nublado — sonhei com você — queria ser eu a estar em suas mãos. Ele descrevia em cada letra tudo que vivia para que fosse possível participar do exato instante em que as letras caiam da caneta… para ganhar vivacidade na boca que lia. Apreciava cada pequeno detalhe do envelope, aberto com um cuidado ímpar. Quase sem fôlego… aspirava o perfume que só mais tarde descobriu ser de ervas verdes, com um nome estranho-estrangeiro.

Ouvi um barulho na janela, como se fosse uma pedra. Não sabia o que era. Mas pressentia que era um sonho tentando ser realidade… O coração acelerado, e as mãos suadas — apesar do frio. Quando cheguei à janela — sorri as minhas certezas de menina apaixonada. Lá estava ele… vestindo o sorriso que eu tinha imaginado no dia anterior — iluminando todo o rosto dele. Os olhos tão lindos, como dois faróis a iluminar a neblina, pouco antes do dia nascer, com os campos orvalhados e eu a procurar por rendas prateadas na mata. Eu quis morar uma vida inteira naquele momento. Se possível, morrer dentro dele. Mas sabe como é a eternidade? Acaba nu- me estalar de dedos.

No diário eu relatei tudo. Uma história de amor, para um dia virar livro. Uma palavra nova para constar de seu vocabulário mutante. A carta ganhava vida em sua boca… tão cheia de diálogos. Deitava-se sobre a grama molhada, lia e relia para que as palavras ganhassem vida. A carta era um corpo que se oferecia ao toque, a carícia… e levada de encontro aos lábios era um beijo carinhoso-único. No dia em que as palavras deixaram o papel… foi mágico! Por um momento ficaram em silêncio, admirando-se. Sentiram cocegas na ponta dos dedos. Escreviam-se por dentro.

Alguém disse a primeira palavra e depois outra e mais outra… Muitas palavras depois, a pequena aldeia fez festa para comemorar o primeiro amor que aconteceu bem ali, Deram-se as mãos e caminharam pelos caminhos de terra percebendo a narrativa, que falava da mão que cobria os olhos para afastar a luz do sol e da festa dos pássaros nos voos de árvore em árvore. O carteiro passou, acenou e avisou que não tinha carta naquele dia. Pensou que enxergaria tristeza. Mas se lembrou de suas pesquisas de moleque. A palavra destinatário vinha do latim Destinatus… O destino de uma Carta seria outra pessoa. E a partir daquele dia passou a prestar mais atenção nos envelopes que entregava…

E foi o Carteiro o primeiro a reparar que as cartas pararam de vir para a casa depois da curva. Só entregava as apostilas do Instituto Universal Brasileiro. Alguém naquela casa, aprendia corte e costura, pintura artística… O primeiro amor se foi — lamentava toda vez que passava por lá, sem envelope para entregar…

Mariana Gouveia
Texto publicado no Projeto Coletivo O tempo Perfeito
Scenarium Livros Artesanais

Afetos

Correr para onde, se é dentro o labirinto?

Ph: Nishe

 

“Correr para onde, se é dentro o labirinto?
[…] Talvez ela nem existisse
Talvez fosse mesmo o tempo que se avoluma inundando tudo, cobrindo, fechando
Logo mais teríamos notícias dos últimos acontecimentos
Os deuses exigem tanto e por isso decidi aquele mesmo dia, além de me amarrar ao mastro
Também cobriria de cera os ouvidos
As sereias e suas bocas pequenas abriam e fechavam
Ainda hoje não escuto nada e tudo é líquido e estrondoso
Todos os caminhos levam ao corpo.’”
Assionara Souza

 

O casarão abandonado da rua do Meio tinha essas cores pálidas de quem não vê tinta a muito tempo. As janelas largas e uma placa trazia os números 1772. Não dava para saber se era o ano das paredes feitas de adobo ou se era exatamente o que.  Como fui arrastada por ela, suas mãos me guiaram por entre as trepadeiras lilases, a curiosidade se juntou ao fascínio.

–  Nessa casa morou minha mãe, avó, bisavó e quem sabe algo que nunca sei se denomina trisavó.

–  Tem magia esse lugar – respirei enquanto ela enfiava a mão em um buraco e com jeito de quem sabia o que fazer abria a porta, que rangeu.

Havia uma cadeira velha, uma estante com livros e pó. Um espirro meu a fez me empurrar para um quarto que surgiu em minha frente entre o riso – e as covinhas se fizeram – e o pedido de desculpas. Parecia um outro lugar dentro de um lugar. Um espaço grande com cama, cadeiras, armários, cômodas e um vaso de flores miúdas a enfeitar o canto da penteadeira onde uma vitrola vermelha tocava algum disco antigo.

– Não precisa disso – falei, com os olhos a invadir o espaço – é apenas um espirro. Isso aqui é lindo! Apontei para um velho baú e como se fizesse um passe de mágica no ar ela abriu o baú e ali dentro, relicários de uma vida inteira, livros, lenços bordados, alguns sapatos antigos e envelopes de cartas e outras quinquilharias.

Parecia uma menina diante de um brinquedo. Os olhos reviravam em cada espaço e Amy tocou no celular. Era uma chamada qualquer que ela desligou de repente.

Era mesmo magia o novo e o velho ali, na minha frente. O antigo e o moderno. A cama, ao lado da janela, que levava as cortinas para o quintal cheio de folhas como se nunca tivesse sido limpo, e imaginei como um casarão abandonado guardava em seu interior aquele espaço.

–  Esse lugar é meu, mas depois da morte da minha família, fiquei sem condições de manter e estou tentando aos poucos reerguer. Já consegui ajeitar esse quarto e a cozinha. O resto, ainda leva tempo.

Aqui tem a história de cada um dos meus antepassados e me vejo em cada um deles. Encontrei livros de meu avô que fala de astrologia e em um rompante tirou a blusa branca e virou as costas onde um rastro de lua desenhava as fases de uma lua toda na pele…

– Era a capa do livro feito a mão pelo meu avo. É a minha melhor herança.

Ela desatou a discorrer sobre o que gostava e de como os efeitos das lembranças moravam dentro dela. A vida dera a ela mais do que queria e ali, era seu refúgio de alma.

Falamos de solidão, de poesia e do sistema solar. De arrepios na pele e de histórias de amor.

Não houve mais promessas de encontros melhores, mas ali, com a mão estendida para o abraço, as estações nos avisava de que a partir dali, todos os outros encontros seriam sempre melhores.

 Mariana Gouveia

Afetos · Scenarium Livros Artesanais

Sob o som de Amy

Ph: Laura Makabresku

Era outono mas o inverno resolveu bater forte na porta. O calor típico da cidade deu lugar a uma garoa fina e o vento gelado me obrigava a apressar os passos. Como estava frio resolvi beber um café na padaria da esquina, um pouco antes do meu local de trabalho.
Só depois de tomar o café é que percebi a fila que se formava no caixa. O que me atrasaria um bocado. Perto da minha vez, comecei a procurar na bolsa a carteira para pagar. Uma mão atravessou na minha frente e colocou o dinheiro no balcão.
– Hoje, sou eu quem pago – ela disse – lembra de mim? – o riso a invadir o rosto e a iluminar o lugar todo. Entre a surpresa e o espanto meu olho buscou a boca que tanto me intrigou nesses dias todos. Amy voltou ao meus ouvidos e o perfume.
– Lembro sim! Pelo jeito quem teve a mágica da carteira sumida fui eu.
Saímos rua afora e ela abraçou-me. Reclamou do frio e de como amava o calor.
– Prefiro o sol radiante – ela disse – enquanto eu sempre repetia o também num gesto de que tô sonhando.
– Bora lá que te levo onde vai – disse enfiando o braço em volta do meu e a rua se encheu de graça.

– A terceira vez é a melhor – disse e entre meu olhar de interrogação respondeu a pergunta que só consegui fazer mentalmente:

–  o nosso próximo encontro será melhor – riu mostrando as covinhas – Espero que queira me ver mais uma vez, dessa feita sem acaso… ou seria melhor o acaso?
Eu apenas murmurei alguma coisa, enquanto ela me conduzia pela rua que me sabia de todo dia e naquele em especial a voz era o encanto para além do meu canto.

–  Não faz mal! Seja por acaso ou marcado, será melhor!

Os passos me levaram até a porta do trabalho. O riso fácil era para além das delicadezas e a promessa de me mostrar os voos dos pássaros na casa vazia ao fim da rua do meio.

O abraço entre um agradecer e suspiros meus era quase a sintonia do dia. E a promessa de encontros futuros fazia meu coração acelerar.

Ela possuía a vontade dentro do riso e embora o frio me fizesse tremer a cada vento, ela, de leve trazia em meu corpo o calor do seu e assim se foi deixando um ritmo de Amy em mim.

 

Mariana Gouveia
Texto publicado no Projeto Coletivo O tempo Perfeito
Scenarium Livros Artesanais